segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Roteiro de viagem para a Itália - reveillon 2016/2017 e início de janeiro

Como, para montar a minha viagem, me beneficiei muito de informações que achei via Google, vou contribuir para o ciclo e deixar alguns conteúdos aqui. Espero que sejam úteis.

Veneza
O início da minha viagem foi em Veneza. Cheguei à cidade no aeroporto e lá peguei o ônibus que faz a ligação do terminal com a Piazzale Roma (que é a última parte "normal" da cidade antes da Veneza dos canais e gôndolas). Comprei o ingresso pelo site da ATVO por 8 euros (fica 15 se você opta por ida e volta). Ao comprar a passagem, você precisa indicar apenas o dia de uso, não o horário. E basta apresentar o bilhete emitido pela internet direto aos responsáveis que operam o serviço, no próprio momento de pegar o ônibus (do lado de fora do aeroporto, próximo ao desembarque). Deu tudo certinho, é um serviço que recomendo.

O hotel lá foi o Carlton on The Grand Canal. Muito, muito bom! Tanto pelo hotel em si - confortável, com equipe atenciosa e café da manhã bom - quanto pela localização. Ele está em uma distância facilmente 'percorrível' a pé tanto da Piazzale Roma quanto da estação de trem Santa Lúcia, que foi meu ponto de saída de Veneza.

Na cidade, além dos passeios de 'exploração', entramos no Palazzo Ducale, o principal monumento. É caro (19 euros), mas vale a pena. O palácio é bem grande. Foi usado como sede administrativa de Veneza quando a região era uma poderosa república. Na visita pode se ver tanto os escritórios administrativos quanto as cadeias da Ponte dos Suspiros, uma das mais célebres da cidade. E o ponto alto do passeio é o grande salão.

Recomendo muito dois restaurantes: um é o Ai Tre Archi, que fica em uma região um pouco menos turística, mas facilmente acessível com uma caminhada a partir da estação de trem. A tábua de entrada de frutos do mar é excepcional! O macarrão também com frutos do mar é outra ótima pedida. E o vinho da casa não faz feio. Já o outro restaurante é a Trattoria la Rosa dei Venti - também em uma área menos cobiçada pelos turistas. Fui lá na noite do reveillon e comi muito, mas muito bem. E fica ainda mais perto da estação de trem.

Sobre o reveillon em Veneza: fui à Piazza San Marco, o principal lugar da cidade, que estava bem cheia, principalmente nos lugares mais próximos do canal grande. Ambiente seguro, bacana, mas a festa se resumiu aos fogos que explodiram longe dali. Claro que foi legal, mas pelo que vi em outros anos, esperava mais coisa. Não sei se foi uma decisão da cidade de fazer uma festa mais humilde.

De todo modo, fica o registro: Veneza é uma cidade MUITO legal. Mesmo. Não é pegadinha para turista. E resumi-la a um "destino romântico" é um grande, imenso erro. Veneza, pelo seu desenho, é única, incomparável, vale conhecer. É repleta de curiosidades. Então é bacana para famílias e crianças, e para qualquer um que queira explorar um lugar bem diferente de tudo.

Rimini / San Marino
O destino seguinte da minha viagem foi a República de San Marino, um país pequenininho encravado dentro da Itália. Mas como San Marino não tem ligação ferroviária direta e eu também não tinha a intenção de passar uma noite lá, usei a cidade de Rimini como base. Então foi em Rimini que cheguei por trem e pernoitei.

Fiquei no Hotel Trieste. Eu só teria elogios a fazer ao hotel, não fosse por um detalhe: ele é mais distante da estação de trem do que parecia ser pelos mapas. E a estação de trem seria o local onde eu pegaria o ônibus que liga Rimini a San Marino. Com isso, mudei os planos e fui a San Marino de táxi. Ficou 50 euros por trecho. Como estávamos em três pessoas, acabou não sendo tão salgado assim.

No fim das contas, ficar em Rimini foi um errinho estratégico. Dava para ter ido a Bolonha (que foi meu destino seguinte na viagem) e ter feito um bate-volta a Rimini, saindo direto da estação de trem para o ponto de ônibus, e retornando no mesmo procedimento. Por outro lado, o que compensou de Rimini foi que lá tive, talvez, a melhor refeição de toda a viagem, no Fratelli La Bufala. Depois ainda passamos no Bounty, que é uma mistura meio doida de restaurante, bar e balada. Rimini valeu ainda para adicionar outra cidade ao currículo...

Bem, mas falemos de San Marino. Como já dito, fui para lá de táxi. O taxista me deixou na entrada do Centro Histórico, que é onde se faz o turismo por lá. Aliás, uma observação: quem vai para San Marino e não está muito atento (ou não liga muito pra essas coisas) não percebe que está em outro país. A 'divisa' entre San Marino e Itália é, na prática, inexistente; na estrada, de repente as sinalizações começam a mencionar San Marino, e fica nisso. Como todo mundo fala italiano e a culinária é italiana, pode se achar que está simplesmente em outra cidade da Itália.

Enfim: o Centro Histórico de San Marino é um lugar ótimo e vale muito a visita. Tem aquele jeitão das vilazinhas medievais europeias, com ruas de pedra, construções com cara de castelo, bares e restaurantes com cara boa a cada esquina. E muitas, mas MUITAS lojas. Por conta de impostos mais reduzidos, lá se vende de tudo. Roupas de marca, artigos esportivos, souvenires de tudo quanto é tipo e até mesmo armas (que não sei até agora se são autênticas ou não).

O ponto alto da visita a San Marino são as três torres de lá, Guaita, Cesta e Montale. Nas duas primeiras se pode entrar e subir; na outra, só ver pelo lado de fora. Subir nas torres é divertido, e a vista compensa. A visão que se tem do alto (de qualquer uma delas) é muito bonita. Além disso, o trajeto entre elas, coisa de três minutos a pé entre uma e outra, é igualmente belo. Vale ir às três.

A entrada é paga. Eu paguei 10,50 por um bilhete que incluía, além das torres, acesso ao Palazzo Pubblico, Museo di Stato e Museo San Francesco. Não fui a este último museu; o Palazzo Público é bacana, por ser a sede administrativa do país, e o Museo di Stato eu vi muito pouco, já que cheguei minutos antes do fechamento. De todo modo, acho que valeu a pena ter pegado esse ingresso conjunto.

Outra despesa que tive em San Marino foi de 5 euros para carimbar o passaporte com o "Visto Turístico", o que fiz em um posto de informações. É algo que não serve para nada prático, se faz apenas por diversão. Fica legal no passaporte.

Não fui a outras atrações de lá, como o Museu de Cera e o da Tortura (!). Também não peguei o bondinho que liga o Centro Histórico à cidade de Borgo Maggiore, que parece ser um lugar mais convencional, pouco interessante para o turismo.

Voltei a Rimini de táxi, que, como já dito, custou 50 euros.

Bolonha
No dia seguinte fui a Bolonha de trem, uma viagem rápida e tranquila. Na cidade, me hospedei no Hotel Paradise. Muito recomendado. Não é luxuoso (longe disso), mas é limpo, confortável e tem um bom café da manhã. Além disso, fica a uma distância tranquilíssima da estação de trem e da Piazza Maggiore, o principal lugar da cidade.

Um dos passeios que fiz na cidade, logo no primeiro, dia, foi correr atrás dos sete segredos de Bolonha. É um roteiro bacana porque, mais do que ver os segredos (alguns deles nem são tão grande coisa assim), permite conhecer bem a cidade, marcar alguns lugares para depois serem visitados novamente com mais calma. Ah, sim: mas assim como indicado no link, não achei o último segredo...

Vale bem a pena ir na Torre Asinelli. O ingresso custa apenas três euros, e é comprado na hora, sem burocracia. Quando fui, havia uma fila, mas que se resolveu rapidamente. A subida é cansativa? Sem a menor dúvida. Não é um passeio recomendado para idosos, crianças pequenas ou pessoas com dificuldade de locomoção. Mas para quem não se encaixa nesses grupos, compensa bastante ir. A vista lá de cima é bem legal. E ao lado da Torre há uma praça simpática, restaurantes e a sorveteria Gianni, amplamente recomendada.

Outros lugares em que entrei em Bolonha: Basílica de Santo Stefano (gratuita, com uma praça bonita na frente e uma série de coisas para se ver); Basílica de San Petronio (gratuita, mas cobra-se 2 euros para ter o direito de tirar foto); Teatro do Archiginasio (3 euros para ver o teatro de anatomia, é interessante; ver a biblioteca é de graça); Biblioteca Salaborsa (é grátis e parece ser bem legal, mas cheguei minutos antes do fechamento, então não aproveitei o espaço).

Falemos agora sobre comida. Gostei muito do restaurante Il Moro. Já no badalado La Montanara a experiência foi um pouco menos legal. Não que a comida tenha sido ruim, mas foi menos boa que a do Il Moro e o atendimento foi PÉSSIMO, o pior que encontrei em toda a Itália.

Uma experiência gastronômica bem bacana foi o Mercato di Mezzo. Fica numa região super agradável, próxima à Piazza Maggiore, e o ambiente é bem legal, com vários restaurantes que têm comidas de vários perfis. Não fiz nenhuma refeição "pra valer" por lá, apenas bebi vinho/cerveja e comi alguns petiscos. Onde também fui beber vinho e curti foi no bar da Eataly, em frente ao Mercato. O legal da Eataly é que os vinhos ficam expostos como em um mercado, e você aponta ao garçom qual quer beber. Há petiscos também bons.

Já o Mercato delle Erbe é um pouco menos legal para quem quer beber e petiscar. Esse é mais um mercado no sentido estrito da palavra, com bancas de frutas, verduras e legumes. Há duas praças laterais com bares e restaurantes. Os preços não são baratinhos (também não são no Mezzo, cabe registrar). Além disso, fica um pouco mais distante da região central. Vale ir para quem tem muitos dias na cidade; caso contrário, não colocaria entre as prioridades.

Hospedado em Bolonha, fiz dois passeios externos, relatados nos próximos itens.

Ferrari & Pavarotti Land
O primeiro foi o Ferrari & Pavarotti Land. O nome já diz do que se trata o percurso, que é completado por partes gastronômicas.

Antes de mais nada, registro que o site do Ferrari & Pavarotti é tão completo, mas tão completo que chega a ser confuso. Quando comecei a pesquisar, achei que o visitante tinha a possibilidade de escolher qual roteiro gostaria fazer, dentro do mesmo dia; depois entendi melhor que o calendário é fechado por dia, e a escolha do turista se dá sobre o dia em que quer passear, sem modificações dentro do dia escolhido.

O ponto de partida e chegada do passeio é a rodoviária de Bolonha (Stazione Autolinee). Embora seja próxima da estação de trem, trata-se de um outro lugar - isso é importante para não chegar à estação de trem e ficar perdido... No dia em que fui, o ônibus estava na plataforma 25. É tudo bem sinalizado, não tem como errar. O passeio saiu e retornou na hora prevista (saída 9h, chegada 19h). Outra informação prática: comprei o ingresso pela internet e não precisei fazer nada além de imprimir o voucher e mostrar ao motorista.

Agora o passeio em si. No dia em que fui, eram esses os destinos, em ordem: Museu Casa Pavarotti; Gavioli Antica Cantina; Museu Enzo Ferrari; Museu della Salumeria; Museu Ferrari de Maranello.

Falemos sobre eles. O museu do Pavarotti é bem interessante, até mesmo para quem, como eu, não conhece nada do cantor a não ser o óbvio. O local é a casa onde ele passou grande parte da vida e também onde morreu. Então lá estão preservados o banheiro, a cozinha, a sala de brinquedos da filha, entre outros cômodos. Há também muitas fotos, cartazes e prêmios e outros itens que deixam clara a grandeza do cantor. Ah, e o ingresso contempla um audioguia que tem português entre as opções.

Já a Gavioli não foi um passeio dos mais bacanas. A visita não é ao local onde se plantam as uvas, e sim a um galpão/loja. A primeira parte do passeio é em uma espécie de museu histórico da produção de vinho, com equipamentos antigos. Depois, carros históricos patrocinados pela empresa (inclusive uma réplica da Williams de Senna). Por fim, os tonéis dos vinhos. Quando eu fui, a má impressão se acentuou por conta de um funcionário um tanto quanto grosseiro, que tratou mal sua jovem colega.

O Museu Enzo Ferrari é SENSACIONAL. Eu nem tinha tantas expectativas pra ele, porque achei que seria mais sobre a vida de Enzo e menos sobre a escuderia. Mas vale cada centavo do passeio. A recomendação é ver os dois filmes projetados em 360 graus no espaço principal do museu.

O Museu della Salumeria é interessante. Mas a visita com o tour acabou sendo meio atropelada. A guia - super disposta e com conhecimento do assunto - se desdobrava para atender um grupo imenso que chegou todo junto. Certamente o passeio seria mais legal se feito com mais calma.

Por fim, o dia foi muito bem concluído com o Museu Ferrari de Maranello, que é ainda mais legal do que o Museu Enzo Ferrari. A primeira parte dele é dedicado à marca Ferrari; depois, a prioridade vai para a escuderia de Fórmula 1. Quem gosta só um pouquinho de automobilismo já vai achar muito legal - para um apaixonado, então, é a perdição. Além disso, conta com uma loja muito bacana. Espetacular!

Enfim, o veredicto final sobre o Ferrari & Pavarotti Land é: a parte Ferrari e Pavarotti é excelente, as demais nem tanto. Mas recomendo a todos, porque os eventuais defeitos são compensados pelas virtudes. Só cabe uma ressalva importante: não há nenhuma parada 'oficial' para almoço. A dica é levar um lanchinho consigo ou aproveitar a cafeteria do Enzo Ferrari para se alimentar.

Parma
O outro bate-volta que fiz a partir de Bolonha foi para a cidade de Parma. Ida e volta de trem, com grande tranquilidade.

Saímos bem cedo (7h05) de Bolonha porque fomos visitar uma produtora de queijo, o Caseificio San Pier Damiani. A visita tem que ser agendada e se inicia às 8h30. Agendei pelo email info@caseificiosanpierdamiani.it, quatro meses antes da viagem - não sei se é necessária tanta antecedência, mas como estava me planejando, precisava saber se o passeio estaria ou não disponível. Cheguei em Parma por volta de 7h50 e fui de táxi até o Caseificio. Ficou 12 euros, tanto na ida, quanto na volta. É um trecho rápido, coisa de 15 minutos.

A visita ao Caseificio foi bem bacana. Cabe um alerta inicial: é um passeio NADA artificialmente turístico - o que é muito bom por ser bem autêntico, mas pode inibir pessoas que curtam programas mais estruturados. Quem conduz a visita é a proprietária do espaço, que se divide entre os turistas e a necessidade de colocar a mão na massa para ajudar o marido e o funcionário do estabelecimento, que trabalham todos os dias da semana, sem folga. Ela dá as explicações somente em italiano. Mas creio que mesmo quem não fale o idioma tende a achar legal o passeio. Afinal, é possível ver todas as etapas da produção do queijo, e acabar com uma degustação bem interessante.

Saí do Caseificio e fui até a região central da cidade. Tomei um café e comi lanches na Sorelle Picchi, um espaço bem agradável. Depois, curti a bela Piazza Garibaldi e fiz uma caminhada rápida para o Duomo de Parma e, por fim o Palazzo Pilotta. Não entrei no Duomo, que é pago.

O Palazzo Pilotta é legal de se conhecer. Por 10 euros, têm-se acesso à bela Galleria Nazionale (de quadros), o interessantíssimo Teatro Farnese e o Museo Archeologico. É um passeio que pode levar cerca de duas horas.

Depois retornei à Piazza Garibaldi onde almocei em um restaurante cujo nome não estou localizando, mas do qual gostei bastante da entrada e dos cappeletti em brodo.

Por fim, fechei o dia na cidade passando em uma simpática feirinha na Piazza Ghaia. Não sei se é algo diário ou se demos sorte por estarmos lá no dia 6 de janeiro, em que havia uma série de celebrações pela cidade.

Milão
Depois de deixarmos Bolonha, nosso destino foi Milão, onde ficamos pelos dias seguintes.

O hotel foi o Windsor. Boa escolha, sem dúvidas. Bonitão, confortável, com café da manhã excelente, ao lado de uma estação de metrô (Repubblica) e a uma caminhada bem razoável da estação central. Em frente ao hotel há uma linha do bondinho da cidade; li algumas críticas no TripAdvisor, dizendo que o barulho do bondinho era excessivo. Não me atrapalhou de dormir, e olha que tenho sono leve. Nada que janela fechada e o ar condicionado ligado não resolvam.

Como foram muitos dias na cidade e, por consequência, muitos passeios realizados, os locais serão citados em forma de tópicos. Mas antes de entrar na citação dos espaços, uma dica geral: o Milano Card não foi uma boa. Ao contrário do que se diz no site, ele não foi aceito no Duomo, no Museo del Risorgimento e na Pinacoteca di Brera. Não sei se eu deveria ter batido o pé para forçar o uso, mas não deu jeito. Só serviu no Estádio San Siro, com desconto de 3 euros. E o transporte incluído é algo que pode ser comprado em qualquer estação de metrô. Não recomendo a ninguém.

Bem, aos passeios:

- Duomo: o grande símbolo de Milão, que merece e muito ser visitado. A catedral é linda, a praça é bem bacana e a vista que se tem do teto é ótima. Pagamos 15 euros para a visita e a subida ao teto por elevador (embora depois tenhamos ficado com a impressão de que dava para ter encarado as escadas a pé numa boa). Cheguei lá por volta de 9h30, e praticamente não havia fila, e eu comprei o ingresso na hora. Mas, pela estrutura lá montada, deve haver fila grande em determinados dias/horários. Enfim, tem que ir.

- Piazza Degli Affari: um pouquinho para a frente do Duomo. Vale ir para ver a escultura engraçada que domina a vista.

- Galeria Vittorio Emanuele: é ao lado do Duomo, então é meio impossível não vê-la/visitá-la. Mas cabe um registro: apesar de linda, não tem muito o que se fazer dentro. É contemplar e seguir o passeio.

- Luini: lanchonete na região do Duomo que serve os 'panzerotti', uma espécie de sanduíche frito ou assado. Sempre tem fila, tem que comer de pé, mas é muito bom! Vale encarar a fila, até porque costuma andar rápido.

- Casa degli Omenoni: pertinho da Luini. Vale uma passada para ver, de fora, as curiosas esculturas.

- Pinacoteca di Brera: muito interessante. Tem um acervo imenso. Segundo diz a história, Napoleão fomentou o lugar, com a expectativa de torná-lo o "Louvre da Itália". O ingresso se compra na hora, a 10 euros.

- Museo del Risorgimento: fica ao lado - ou melhor, nas costas - da Pinacoteca. É sobre a unificação da Itália, portanto recomendado a quem gosta de história. A visita é rápida.

- Teatro alla Scala: é um dos mais importantes espaços para ópera de todo o mundo, com interior impressionante. Tem um museu, cujo passeio permite ver um pouco do grande salão. Eu não fui ao museu; dei uma sorte danada de, pouco antes da viagem, receber pela mala direta do Vivaticket.it o aviso de que o teatro receberia um concerto-ensaio, com preços baratos. Comprei minha entrada por 5,50 euros. O lugar era péssimo - não dava nem para ver o palco! Mas valeu a visita de toda forma, por permitir ver a atmosfera do teatro e curtir a música. A dica que dou é ficar de olho nas promoções.

(esse trajeto foi todo feito em um dia, com tranquilidade e sem cansaço. Mapa: https://goo.gl/maps/oqD4Z1hZtdz)

- San Siro: a visita ao campo de Inter e Milan e ao museu do estádio custa 17 euros (14 com o Milano Card; foi o único lugar em que consegui usar o desconto). Não precisa comprar o ingresso com antecipação. Abre às 9h30 e, quando eu fui, não peguei fila alguma. Fica ao lado do metrô, facílimo de chegar. Sobre a visita, o que tenho a dizer é o seguinte: para os apaixonados por futebol (meu caso), qualquer ida a um estádio é bacana. Mas para quem não gosta muito, o museu decepciona bem. Tem praticamente só camisas, e nada mais. E a visita não tem guia fixo, o visitante fica um pouco largado. Repito: impossível quem gosta de futebol não curtir; para os não apaixonados, não sei se sugeriria.

- Fabbrica Vapore: indicações muito positivas me animaram a visitar esse lugar, de fácil acesso, ao lado dos metrôs Cenisio e Monumentale. Lá, vi a ótima exposição The Art of The Brick.  Paguei 16 euros pelo ingresso, comprados na hora. A exposição foi muito bacana, valeu ter ido, mas o espaço decepcionou um pouco. Não havia nada lá para ser visto além da exposição propriamente dita. Talvez ser uma segunda-feira influenciou um pouco.

- Cemiterio Monumentale: por eu ter ido lá numa segunda-feira, não consegui entrar no cemitério. Mas ele de fora impressiona. Acredito que por dentro deva ser ainda mais bacana.

- Gae Aulenti: uma praça modernosa em uma região um pouco menos central de Milão. Vale conhecer, por ser um lugar bonito e ter uma série de lojas e restaurantes. Além disso, é perto dos outros dois lugares que citarei, bem famosos.

- 10 Corso Como: lugar que mistura loja, galeria de arte e restaurante. É um ambiente totalmente diferente do que pensamos em relação a uma loja, como este post do Ricardo Freire descreve bem. Acho que é possível fazer uma análise similar à que fiz para o San Siro: para quem gosta de moda, deve ser imperdível; para quem não gosta (meu caso), não trataria como um passeio recomendado. De todo modo, estando perto, cabe ir lá e dizer que viu.

- Eataly: como já existe uma Eataly no Brasil, o espaço não chega a ser uma novidade. Ainda assim, recomendo bastante a visita. A parte inferior é um mercado (onde pode se comprar tudo quanto é coisa ligada à gastronomia) e, nos pisos superiores, há restaurantes e bares. Não fiz uma refeição por lá; bebi vinhos e comi petiscos sensacionais em uma dessas cantininhas.

(o roteiro, feito da Fabbrica Vapore à Eataly, tranquilamente percorrível: https://goo.gl/maps/Pxfi43mFm252)

- Castello Sforzesco: um dos cartões-postais da cidade. Abriga um monte de museus (todos pequenos, de visitação rápida, com um único ingresso de 5 euros) e é a porta de entrada para o Parque Sempione. Vale muito ir ao castelo e conhecer os museus, até pelo ingresso barato. Dá para ir - e é um passeio bacana - do Duomo até o castelo numa boa. Quanto ao parque: é bonito, mas nada de excepcional. Não fui à Torre Branca e a arena Gianni Brera, primeira casa da Internazionale, só pode ser vista do lado de fora.

- Cenacolo Vinciano: é a igreja que abriga o muro onde está pintada a famosíssima última ceia do Leonardo da Vinci. Recomendo bastante a visita. Sim, todos conhecemos a obra de cor e salteado, mas ver de perto é outra coisa - e, vai por mim, é muito mais legal do que a Mona Lisa. Os ingressos, via de regra, precisam ser comprados com muita antecedência. Eu comprei o meu três meses antes da visita, mas curiosamente, no dia em que fui, um homem comprou na hora; a funcionária disse que foi pura sorte. Compra-se no site Vivaticket. Ah, é um pouquinho longe do metrô, mas nada de mais.

Agora, comentário sobre dois bairros:

- Brera: o bairro onde fica a pinacoteca e que é próximo do Duomo reúne um bom número de restaurantes e tem um ambiente bem legal. No entanto, faço uma ressalva: Brera não me pareceu tão 'boêmio' quanto as informações que li na rede sugeriam. Diria que é adequado para um jantar a dois, não para beber cerveja ou curtir uma balada.

- Navigli: já esse bairro, um pouco mais longe da região central, supre as carências de Brera que mencionei antes. Há bares de tudo quanto é tipo e restaurantes de qualidade. E chegar lá é muito fácil, o metrô Porta Genova dá praticamente na cara dos canais.

Agora que já mencionei restaurantes, dicas:

- Alla Cadrega e Il Paiolo: cito os dois em conjunto porque são restaurantes parecidos. Menu italiano clássico e preços justos. Além de ambos serem próximos ao Hotel Windsor e à estação central. Recomendados.

- Pizzeria di Gennaro: esse restaurante fica ao lado da Luini e, por isso, acaba sendo escondida pelas filas da lanchonete durante o dia. E é uma ótima opção para pizzas e pratos italianos clássicos. Não é dos mais caros.

- Kawa: sim, eu fui a um restaurante japonês na Itália! Sei que é meio heresia, mas ele parecia uma boa opção para comer a valer em Navigli. E deu certo. Menu "all you can eat" a 18 euros, que funciona direito, sem regulação. Acho que os melhores restaurantes japoneses do Brasil ganham do Kawa, mas isso não faz de lá um mau lugar.

Bernina Express
A indicação de um amigo me deu vontade de fazer o passeio turístico Bernina Express. É uma linha de trem que liga os Alpes Suíços a diferentes pontos da Itália (alguns links: aqui e aqui).

Pesquisa daqui, pesquisa dali, acabei ficando meio receoso em produzir o passeio por conta própria e acabei comprando essa excursão aqui na Viator.

Trata-se de um roteiro que se inicia em Milão às 7h e volta à cidade 20h. Começa com uma viagem de ônibus a Tirano, que é o ponto de partida do trem; depois, vai-se de trem a Saint Moritz, na Suíça; fica-se na cidade por cerca de uma hora, e, por fim, ocorre o retorno, de ônibus, a Milão.

Essa foi a descrição objetiva, agora passemos aos comentários. A viagem é operada pela Zani Viaggi, agência cujo escritório fica em frente ao Castello Sforzesco (facílimo acesso). Lá é o ponto de chegada e saída do rolê.

O passeio tem, sim, uma dinâmica de excursão. Guia falando no ônibus, hora marcada para sair de cada lugar, essas coisas. Mas as guias que conduziram o passeio no dia em que fui foram muito corretas. Explicaram as informações com conteúdo e sem afetação, foram simpáticas na medida certa e não forçaram a barra para haver interação entre os passageiros.

Chega-se a Tirano na hora do almoço. Não à toa, um pouco antes de alcançar a cidade a guia começa a falar sobre as maravilhas gastronômicas da região e sugere um restaurante que atende especificamente o que foi dito. Aceitamos o almoço, no restaurante Ai Portici, que custou 16 euros, com pizzochero (o macarrão típico da região de Valtelina), um presunto diferente de entrada (cujo nome não lembro) e uma garrafa de vinho por mesa. Foi ruim? Não! Valeu 16 euros? Não sei. O pizzochero estava ótimo, mas contemplar apenas um prato disso, uma entradinha pequena e uma garrafa de vinho por mesa (e um vinho ruim) por 16 euros pareceu meio injusto.

Bem, depois do almoço iniciou-se a viagem no Bernina Express. O trem anda pouca coisa pela Itália e depois de uns 10 minutos já está em território suíço. Aliás, sobre isso cabe um comentário: não há nenhuma fronteira física entre os países e nem mesmo controle de passaporte - a guia disse que há ocasiões em que os funcionários pedem os documentos, mas isso me pareceu uma exceção.

E sobre a viagem em sim... bem, é espetacular, sensacional, linda, ou insira aqui o adjetivo que você quiser. As paisagens são sensacionais. São praticamente duas horas de "oh", "uau", "caramba" e afins - ainda mais para quem vai no extremo inverno, o que foi o meu caso. É tudo muito bonito mesmo. Parece que, sei lá, estamos em outro planeta.

O rolê de trem é a grande atração da excursão. Em Saint Moritz, fica-se apenas uma hora - tempo suficiente para ver o lago da cidade (que estava completamente congelado) e comprar uns chocolates na parte superior. É claro que dá vontade de ficar mais, mas é compreensível.

Depois, o retorno a Milão é feito por ônibus. Com direito a algo assustador no começo da brincadeira - a Maloja Pass, uma rodovia tão bela quanto temida.

Como já dito, chega-se a Milão por volta de 20 horas, lá no escritório da Zani, em frente ao Castello Sforzesco.

Esse passeio foi uma das coisas mais bacanas que já fiz, em todas as viagens. Valeu muito a pena. Por outro lado, não sei se recomendaria essa excursão via Zani. Se por um lado é bom ter tudo organizadinho, por outro ficar com o tempo muito contado é algo chato. Talvez, se tivesse tempo sobrando, iria e voltaria de Bernina a Tirano, dormiria uma noite na cidade e só depois retornaria a Milão. Bem, cada um monte o seu.

Saída de Milão
Fui embora de Milão pelo aeroporto de Malpensa. Peguei um ônibus, o Malpensa Shuttle, que liga a Estação Central ao aeroporto. Comprei online e bastou mostrar o voucher impresso ao motorista, sem mais burocracias - como fui de madrugada, não precisei marcar hora no site. O ônibus leva 50 minutos para chegar ao aeroporto.

Frio
Um comentário que vale para todo esse meu período na Itália: FAZ MUITO FRIO!!! Minha nossa, o frio que peguei lá nessas primeiras semanas de janeiro foi absurdo. Creio que a temperatura variou entre +5 e -5. E em Saint Moritz foi para algo em torno de -10. Ou seja, o bicho pegou. Não subestime o frio da Itália!

Trenitalia
Outro comentário geral. Li em mais de um blog relatos falando sobre como era difícil comprar passagens pela Trenitalia. Olha... essa foi minha segunda viagem para a Itália, e posso afirmar sem medo de errar que o processo foi bem simples. Basta fazer um cadastro simples e pronto. É, talvez, mais fácil do que comprar passagens de avião. Ah, sim: falando nisso, vale a mesma dica que serve para a compra dos bilhetes nas aéreas - antecedência! As passagens variam muito de acordo com horário, dia, etc., etc.. Mas a antecedência garante preços baixos. Todas, literalmente todas as viagens que fiz custaram 9,90 euros (por trecho). Um deslocamento bem mais barato (e fácil!) do que se fosse por avião.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Resumo-resenha da reportagem "Why data-driven campaigns should think like Facebook"

Link para o texto: http://www.campaignsandelections.com/campaign-insider/2407/why-data-driven-campaigns-should-think-like-facebook

O texto fala sobre como pensar os dados na campanha. O autor fala que existe muita confusão e nenhum consenso sobre o que seria uma campanha de 'big data', ou seja, uma campanha baseada em dados. E diz que nesse universo é melhor pensar em qualidade do que em quantidade.

Então vem o X da questão do artigo: a apresentação dos conceitos de first-party data, second-party data e third-party data. Confesso que não entendi muito bem a diferença entre second e third, mas a do first para os outros é essencial.

First-party data são aqueles dados que a campanha coleta diretamente, sem intermediários. O autor resume que são aqueles dados que o eleitor QUER compartilhar com a campanha. Por isso, são extremamente ricos - ainda que não sejam tão amplos e vastos.

Já os second e third (por isso que não entendi tanto a diferença) são os que vêm de outras fontes. Acredito que a principal diferença entre eles seja que os second sejam os first que foram obtidos (com cessão voluntária) de outra fonte - por exemplo, um partido dando dados a determinado candidato, ou dados precisos do governo indo a uma campanha. Os third, por sua vez, são (acho eu) os dados estatísticos, como por exemplo o percentual de praticantes de uma religião em determinada cidade.

O autor diz que o pulo do gato, então, é transformar os third em first. Um erro comum nesse processo é achar que pessoas encontradas no first querem, de fato, ser o seu público - alguém pode estar na faixa de renda que você prevê, ter votado como você gostaria, mas isso não se converte em uma adesão automática à sua plataforma. Não se deve mandar spam a essas pessoas. Um contato intermediário é um caminho melhor.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A urna eletrônica brasileira é segura? É, dentro do possível

E a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras volta a ser posta em xeque. Agora, as desconfianças têm mais consistência que a média - saem do papo do "isso aí tem mutreta" e chegam a um patamar mais verossímil. Um hacker, segundo noticiado pelo site Gizmodo, fraudaria as eleições atuando na transmissão dos dados entre as urnas e o Tribunal Regional Eleitoral. Sua base seria o Rio de Janeiro. As investigações já estariam a cargo da Polícia Federal, e a nós, agora, caberia apenas aguardar.

Se procedente, a situação leva o questionamento sobre a confiabilidade da urna eletrônica - ou melhor, sobre o sistema de votação - brasileiro a outro patamar. Digo isso porque, desde a implantação do sistema, em 1996, não houve ameaças críveis sobre o método. Não leve a sério as teorias conspiratórias e nem a mentalidade do "no Brasil nada dá certo". Pode acreditar: nosso sistema eleitoral é, sim, de ponta, é, sim, um dos melhores do mundo.

Diria mais: as falhas que há no sistema brasileiro estão no limite do impossível, na fronteira do "melhor do que está aí não dá pra ficar".

A matéria do Gizmodo cita como problemas do sistema nacional: a falta de auditorias independentes e o fato de o voto ser integralmente digitalizado, não possuindo um correspondente em papel. E sugere que outros países têm alternativas de segurança positiva, como a impressão do voto ou de um código que possibilite a conferência entre o registrado na urna e o idealizado pelo eleitor.

Pois bem: com exceção das auditorias independentes, nada do que o Gizmodo cita contribui para o aumento da segurança no processo de votação. O motivo disso é simples: "segurança na votação" não é algo que se resume ao processo estritamente de inserção do voto e apuração. Não basta manifestar o voto e ver sua contabilização precisa. Um sistema seguro garante que os eleitores não serão pressionados. E um papelzinho pós-voto acabaria com isso sem muito esforço. Aquele comprovantezinho idealizado para dar segurança ao eleitor vira a ferramenta perfeita para que o voto de cabresto / com coerção se manifeste. Basta apresentar o documento a quem é de interesse e, pronto, está feito o processo.

Acende-se a luz amarela para as eleições no Brasil, mas não creio que iremos além disso. Até porque, reitero, nem há muito o que avançar - ou melhor, não há um ideal pré-definido nos esperando.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Teste de civilidade

Brasileiro adora viajar pelo mundo e retornar contando, maravilhado, o que viu de bom por lá. Não é por menos: em muitos lugares do planeta há um sem-número de coisas bacanas que não encontramos em terras nacionais (e a recíproca é verdadeira). Entre os itens elogiados, estão as belezas naturais, avanços tecnológicos, gastronomia especial e... noções de civilidade e cortesia. Não se trata de ser puxa-saco de estrangeiros, nem de aderir ao famigerado complexo de vira-lata; o fato é que há alguns costumes que, sim, são mais legais do que os que temos aqui.

O problema é que, em muitos casos, a pessoa que se encanta com a outra realidade não se esforça muito para implementá-la no Brasil. O que costuma ocorrer é um endeusamento do que é feito seguido de críticas intermináveis aos "brasileiros", como se a própria pessoa não fosse ela mesma um brasileiro e pudesse dar a sua contribuição para que as coisas melhorem. Parece ser mais fácil criticar a amorfa e inidentificável categoria chamada "povo" e dizer que "o povo precisa de mais educação". Impreciso, no mínimo.

Pois bem: começa em São Paulo um grande teste para que a população paulistana (e da região metropolitana da capital como um todo, e até de outros locais, já que São Paulo recebe diariamente milhares de pessoas de outros municípios) mostre que quer ser civilizada, que tem noção de coletividade, que se preocupa em aderir ao primeiro mundo de suas utopias. Primeiro com uma campanha "educativa", e agora na base de multas, as autoridades do trânsito de São Paulo vão tentar fazer com que os motoristas da cidade efetivamente respeitem as faixas de pedestre.

Afinal, em São Paulo (e acredito que em tantas outras cidades, aqui e fora) as faixas são apenas meros objetos decorativos no meio das ruas. O pedestre até opta por utilizá-las, mas não existe motorista em sã consciência que pare quando vê alguém pronto para atravessar a rua pisando nas listras brancas.

Como é tudo recente, ainda não temos como aferir se a medida deu ou não resultado (eu torço para que dê). Mas já arrisco uma previsão: um imenso número de motoristas furará as regras, receberá uma multa, ficará indignado com "a indústria das multas" e elogiará a civilidade "que se vê no primeiro mundo". A aguardar.

Abaixo, matéria da Globo a respeito:

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Da pancadaria emerge uma lição

Eu não gosto de MMA. Não chego a ser como meu amigo Eduardo Maretti, que repudia o esporte com todas as forças, mas o fato é que não vejo graça, não me entretenho vendo uma luta do UFC.

Mas independentemente do que eu ache, o fato é que o MMA pegou no Brasil. Deu certo. O esporte é um sucesso. Frequenta capas de jornais e, o mais importante, conversas na rua. Os brasileiros gostam de MMA, os brasileiros assistem ao MMA, os brasileiros têm real interesse no MMA. A prova disso se vê em números. A transmissão do UFC Rio, no final de agosto, deu à RedeTV! a liderança no Ibope.

A ascensão do MMA chama a atenção. Por muitas vezes, nos acostumamos aqui no Brasil a um discurso - e preparem-se, ano que vem é ano de Olimpíada, ele aparecerá fortemente - de que o esporte precisa de "apoio". Por essa análise, é preciso que patrocinadores em geral e, principalmente, o poder público, deem suporte técnico e financeiro a diferentes modalidades esportivas, para que elas possam cair no gosto do público e desenvolverem plenamente seu potencial de formar campeões. Ainda nessa linha de raciocínio, só assim se conseguiria superar a cultura "monoesportiva" do Brasil, onde supostamente só o futebol interessa.

Pois bem, enquanto na maioria dos esportes olímpicos o patrocínio estatal impera - alguém se lembra de algum atleta expressivo que não ostentava as marcas de Petrobras, Caixa, Banco do Brasil ou similares nos uniformes? - o MMA conseguiu caminhar com suas próprias pernas. Seus competidores são financiados por empresas particulares. Anderson Silva, a principal estrela nacional na categoria, tem feito propaganda atrás de propaganda, além de ter se tornado uma figura quase que permanente nos programas esportivos.

É claro que o MMA tem uma gigante estrutura profissional por trás. O negócio gera dinheiro, expressivas quantias, em especial nos EUA, a terra do marketing e dos bons negócios. Ainda assim, não se pode tirar o mérito do esporte. Se uma fábrica de motos ou restaurante fast-food se propõe a ter Anderson Silva como garoto-propaganda dos seus produtos, é porque vê nele um bom chamariz, acredita que ele tem potencial de mercado. "Merece", portanto, ter seu esporte financiado.

A demanda por apoio por parte dos praticantes dos esportes olímpicos é justa - afinal, financiar o esporte é uma obrigação governamental, está na Constituição e tudo o mais. Mas o exemplo do MMA merece ser anotado e ponderado por cada um dos esportistas que irá ao público reclamar por verbas nos próximos meses. Sem apoio governamental, o MMA deu certo. Se consagrou como entretenimento. Será que é "só" de apoio que os outros esportes precisam para caírem no gosto popular?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre o voto distrital

Tem ganhado força o debate sobre o voto distrital. Há um movimento organizado - que se diz apartidário - de nome #EuVotoDistrital, que mantém um bom site e que almeja o recolhimento de um milhão de assinaturas para que o projeto seja analisado com mais força pelos congressistas.

A discussão sobre o voto distrital é bacana, e por dois aspectos. O primeiro é por ser um debate essencialmente político, no sentido mais preciso do tema. Não se tratam daquelas mobilizações vagas "contra a corrupção" ou "por mais educação e saúde", temas nos quais todo mundo concorda. É uma discussão concreta, em que se apresenta um problema e uma solução prática a ele. A outra virtude é que discutir o voto distrital é algo que vai com precisão a um dos maiores problemas da política nacional, o Poder Legislativo - muitas vezes, a culpa é jogada unicamente nas costas no Executivo, sendo que sabemos que são os congressistas os principais responsáveis por defeitos que aparecem por aí.

Mas apesar dessas virtudes, eu discordo do movimento. Acho que o voto distrital não é uma solução (aliás, serei justo: o site em nenhum momento trata a questão como a panaceia universal; só aponta que algumas falhas serão diminuídas se o sistema for adotado). E aponto isso por dois motivos:

- segundo seus defensores, o voto distrital, por eleger deputados federais ligados a distritos específicos, faria com que os representantes estariam mais próximos da população, que assim poderia cobrá-los com mais eficácia. A premissa é até válida, mas analisemos na prática: nas cidades, com os vereadores, existe tal cobrança? Será mesmo que as populações de municípios de 200, 100 e até mesmo 50 mil habitantes são tão vigilantes assim a ponto de impedirem desmandos? Sabemos que corrupção existe no Brasil em entes de tudo quanto é porte. Acreditar que a população passará a ser ativa de uma hora pra outra apenas por uma questão de "proximidade" é algo utópico demais. E nega o que já acontece na realidade.

- acredito - e isso é uma visão pessoal - que deputados federais não têm que representar "minha cidade", ou "meu bairro". Na Câmara e no Senado se votam assuntos de interesse de toda a nação - acordos internacionais, leis relativas a questões familiares como adoção e casamento homossexual, legislações penais, políticas tributárias... ou seja, a maior parte dos assuntos transcende uma comunidade em especial. Aliás, nestes debates maiores, não se vê - numa suposição - os deputados do Amapá votando de um jeito e os do Rio Grande do Sul de outro, apenas para citar dois extremos geográficos do país. Os parlamentares acabam se posicionando mais de acordo com suas convicções pessoais e outros interesses. A representação atual permite que categorias - evangélicos, homossexuais, esportistas, mlitantes da cultura, etc - elejam seus representantes, o que é muito bom! Esse tipo de vínculo pode ser muito mais forte do que o local, em muitos casos.

Além disso, acho que o movimento se equivoca ao pautar parte de suas críticas ao sistema atual tendo como base algumas distorções - a mais célebre delas a eleição de candidatos que receberam menos votos do que os demais, caso no qual Enéas Carneiro é o maior exemplo. O sistema proporcional, críticas à parte, ainda é válido. Se tivéssemos partidos "pra valer", seria ainda melhor, mas acaba sendo adequado dentro das nossas circunstâncias.

De qualquer modo, vai aí um vídeo do #EuVotoDistrital para que vocês vejam e formulem suas próprias opiniões.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rejeição, mais importante do que a intenção

A Folha divulgou e inúmeros veículos repercutiram pesquisa do Datafolha sobre a corrida para a eleição municipal do ano que vem em São Paulo. A manchete do levantamento seria o fato da senadora e ex-prefeita Marta Suplicy aparecer em primeiro lugar em todos cenários em que ela é a candidata do PT, numa perfeita oposição ao fraco desempenho de Fernando Haddad, o candidato preferido do ex-presidente Lula.

A meu ver, dados sobre intenção de voto pouco ou nada revelam, quando obtidos em um momento tão distante da eleição. É só lembrarmos das eleições presidenciais: Lula venceria no primeiro turno em 1994 e 1998, e Serra faturava fácil em 2010; ainda em São Paulo, Gilberto Kassab dava traço nas pesquisas ainda em 2008.

O eleitorado ainda não pensa na eleição, os nomes não estão claramente definidos e assim acaba sendo natural que as personalidades com mais recall acabem sendo mais beneficiadas.

Não se enganem: Marta ou Haddad, Serra ou Bruno Covas ou José Aníbal, todos eles terão cerca de 30% dos votos quando se apurarem as urnas em outubro do ano que vem. É inconcebível que PT e PSDB tenham percentual tão inferior a esse. Não faz sentido, agora, tratar Fernando Haddad como um candidato minúsculo.

Ao contrário das análises em geral, que viram um bom desempenho de Marta, a visão que tenho dos números é oposta. Porque as manchetes se apegaram à intenção de voto e deixaram de lado os índices de rejeição. Neles, Marta tem 30% - perde apenas para Netinho (PCdoB, 33%) e Serra (32%). Já Haddad nem citado é - o que é natural, já que quem é desconhecido não pode ser rejeitado.

Pouco menos de um terço do eleitorado paulistano, portanto, não votará em Marta de maneira alguma. É muita coisa. É praticamente impossível uma vitória com tal cenário (o que também inviabilizaria a candidatura de José Serra).

A liderança atual de Marta se deve mais ao recall do que qualquer outra coisa. Foi ele, inclusive, que a colocou na dianteira de todos os levantamentos até a apuração do primeiro turno de 2008. Não chega a ser um grande feito. Ou melhor: pode até ser algo considerável, mas é muito menos significativo do que a rejeição que ela tem.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A mídia ao lado dos "outros"

Há uma coisa que me intriga muito na relação entre os veículos de comunicação e a população em geral: o consenso de que a mídia está do lado dos "outros", dos seus opositores, seja lá quem você ou seus adversários sejam.

No futebol, paulistas dizem que a mídia é favorável aos times do Rio, os cariocas retrucam dizendo que os de São Paulo são os beneficiados; católicos afirmam que sua religião é atacada dia após dia - evangélicos retrucam dizendo que são eles os perseguidos, enquanto os não-religiosos contestam citando um suposto "conservadorismo" da mídia nacional, sendo eles então as vítimas. Quanto à política, não preciso nem me estender: buscas rápidas no Google para "imprensa petista" e "imprensa tucana" revelam um desesperado interesse de um lado em dizer que o outro tem a "máquina" a seu favor.

O jornalista André Kfouri, da ESPN e do Lance, escreveu certa vez texto monumental a respeito, dizendo que "confessava" fazer parte da organização secreta denominada “Imprensa Unida para Prejudicar o Seu Time”. Vejam o texto no site do Lance.

Falo disso porque tive conhecimento de texto do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) a respeito do assassinado da juíza Patrícia Acioli - ou melhor, da cobertura da imprensa sobre o caso. No texto, Jean diz que a ação da mídia sobre o crime esteve mais focada na vida pessoal da juíza do que na tragédia em si. Ou, nas palavras de Wyllys, "A cobertura jornalística do assassinato da juíza Patrícia Acioli, em Niterói (RJ), deixa claro que as mulheres ainda têm, no espaço público, a vida avaliada a partir de suas vidas privadas. "

Jean não fala isso à toa. Se cita o ocorrido, é porque ele realmente aconteceu. Mas é curioso como as percepções são relativas. Tudo o que li a respeito do assassinado de Patrícia tinha como principal foco a insegurança da qual todos os brasileiros são vítimas - em especial os que combatem o crime. Justamente sob esse prisma, Acioli foi vista como uma espécie de heroína ou mártir, alguém que morre em nome de uma causa. O trabalho de Patrícia na justiça foi (justamente) valorizado e sua morte foi vista como uma espécie de contra-ataque do crime a alguém que o deteriorava - algo do que o brasileiro médio adora ter conhecimento, aliás.

Ligado a questões como o combate à homofobia e ao sexismo, Jean acabou se portando como um torcedor afetado pela “Imprensa Unida para Prejudicar o Seu Time” neste caso. Puxou um aspecto negativo da cobertura e deu a ele uma dimensão maior do que o devido.

É curioso, mas bem curioso mesmo, como tal fenômeno acaba tendo características onipresentes.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mr. Postman

A Campaings & Elections traz texto interessante sobre outra faceta da crise dos EUA, e suas consequências em cascata.

O que a reportagem diz é que os correios de lá amargam prejuízo atrás de prejuízo - segundo o texto, serão mais de 8 bilhões de dólares só em 2011 - e, com isso, a entidade terá que fazer mudanças para sobreviver. E uma das mais cotadas é modificar o sistema de distribuição das correspondências. Em um primeiro momento, eliminando as entregas aos sábados e, futuramente, realizando o serviço apenas três dias por semana.

Como é voltada às campanhas eleitorais, a Campaings & Elections aborda o quanto essa modificação alteraria o jogo político por lá. Nos EUA, o uso de correspondência para as campanhas é fortíssmo. Inúmeras consultorias são especializadas no serviço. São duas as principais preocupações dos profissionais: a eliminação do envio de materiais às vésperas das eleições, que ocorre justamente aos sábados, e o fato de que, com menos dias de entregas, os eleitores recebam muito conteúdo de uma vez só, tendendo assim a desprezar a propaganda.

Parece anacrônico falar em propaganda eleitoral via correio para nós, porque aqui no Brasil ela é muito frágil e porque nossa tendência é achar que com a internet, os celulares e etc o que chega via carteiro passa a ter relevância quase nula. Fica então curioso ver como um país mais avançado tecnologicamente que o nosso ainda se baseia neste recurso. Questões culturais, sempre elas, jamais devem ser desprezadas.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobre eleições em meio de mandato

A Folha de S. Paulo publicou ontem boa matéria falando sobre as movimentações para a eleição para a prefeitura de São Paulo, que ocorre no ano que vem. Indiscutivelmente, o pleito do ano que vem tende a ser o mais incerto e equilibrado, talvez, desde a redemocratização.

O PT pode lançar Fernando Haddad, Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante; no PSDB, os pré-candidatos são José Serra, José Aníbal, Bruno Covas e Andrea Matarazzo; o nome do recém-fundado PSD é Guilherme Afif Domingos; o PCdoB tem Netinho de Paula; e o PMDB oscila entre Gabriel Chalita e Paulo Skaf. Todos são candidatos competitivos, em maior ou menor grau.

Mas mais do que falar sobre a disputa eleitoral paulistana, gostaria de chamar atenção para outro ponto. Da lista dos pré-candidatos mencionados acima, todos, com exceção de Paulo Skaf e José Serra, ocupam atualmente algum cargo público. E seis deles - Marta, Aníbal, Covas, Afif, Netinho e Chalita - obtiveram o cargo após vitória em eleições anteriores.

Sobre isto que gostaria de centrar o debate, até porque vejo que esta questão costuma ser pouco aprofundada: como a população lida com o fato dos políticos que elegeu abandonarem os cargos na metade (ou antes, ou depois) para buscarem outro posto?

Aparentemente, exemplos nos sugerem que isso não parece ser um problema dos maiores, ao menos não no contexto eleitoral. A trajetória de José Serra é um bom exemplo: foi eleito senador por São Paulo em 1994 e jamais exerceu o cargo, preferindo ministérios no governo FHC; em 2004, foi eleito prefeito de São Paulo e abriu mão do posto dois anos depois, para buscar o governo estadual; foi eleito e não pleiteou a reeleição em 2010, porque foi candidato à Presidência. Ou seja: a população paulista votou em um candidato que neste sentido foi, digamos, "reincidente". A expressiva votação de Netinho de Paula (vereador paulistano, só para lembrar) na eleição para o Senado no ano passado reforça caráter semelhante - de todos os fatores que fizeram Netinho perder a eleição embora tenha liderado por muito tempo as pesquisas de opinião, certamente o fato de ser rejeitado por já ter um mandato foi um dos menos importantes.

O cenário descrito para as eleições paulistanas em 2012 sugere que não deveremos ter o assunto trazido à tona. Afinal, todos os grupos partidários, de uma forma ou de outra, têm "falha" neste aspecto. Mas seria interessante ver o tema ser discutido de maneira mais viva, e mais utilizado nas campanhas eleitorais. É uma arma ainda de certo modo desprezada.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Entrevista com diretor do Partido Libertário, a terceira força dos EUA

Democrata e Republicano, os dois únicos partidos que existem nos EUA, certo? Errado. Embora os dois dominem - com larga vantagem - a política do país de Barack Obama, há outras agremiações de relativo peso que também militam por lá.

O mais forte dentre os outros é o Partido Libertário. A sigla existe desde 1971 e, nestes 40 anos, consolidou sua posição de "terceira força" - detém uma série de mandatos em todo o país, como pode ser conferido em seu site oficial.

O diretor-executivo do partido, Wes Benedict (foto: divulgação), concedeu uma entrevista exclusiva ao Blog Olavo Soares, na qual expôs a visão e a linha ideológica dos libertários. Segundo Benedict, o partido está "igualmente distante" de Democratas e Republicanos - não podendo, portanto, ser comparado a nenhuma das siglas maiores.

De fato, o programa do Partido Libertário é não apenas distante dos partidos que comandam a política local como, de certo modo, foge até do que nós brasileiros estamos habituados a definir como política. Pense em uma disputa eleitoral brasileira, por exemplo. Por mais que os partidos se digladeiem e façam o maior esforço possível para se mostrarem diferentes, ambos dirão que querem "melhorar saúde e educação", não é mesmo?

Pois bem: os libertários não querem "melhorar saúde e educação". Ao contrário, o que eles querem é acabar com saúde e educação fornecidas pelo governo. E com grande parte dos serviços públicos. A filosofia do partido é que o estado deve aceitar que é incompetente para tocar estes serviços, assim delegando-os para a iniciativa privada. Com isso, na visão deles, os impostos se reduziriam drasticamente e a população pobre seria a maior beneficiada.

Para quem está acostumado com a direita clássica, não há muita novidade no dito acima. Então como os libertários se diferenciariam dos republicanos, os mais tradicionais defensores do liberalismo nos EUA? A resposta vem por meio da posição firme que o partido tem em relação a questões como casamento homossexual e uso de drogas - é inflexivelmente a favor de ambos.

Resumindo, a filosofia do Partido Libertário é a do estado mínimo (pela qual está mais próximo da direita) e das liberdades individuais (o que o aproxima da esquerda). Leia a entrevista exclusiva e forme sua opinião a respeito das convicções do partido. Poderiam ser aplicadas no Brasil?

O Partido Libertário completa 40 anos em 2011. Como o partido se vê, 40 anos após a fundação? É uma trajetória de mais conquistas ou insucessos?
Mesmo que não tenhamos vencido muitas eleições, o Partido Libertário gerou um tremendo impacto na política nacional. Recentemente, o congressista Ron Paul (Texas) e seu filho, o senador Ran Paul (Kentucky) alcançaram grande sucesso. Ron Paul foi candidato à Presidência da República em 1988 pelo Partido Libertário. Ainda que ele e seu filho sejam, hoje, republicanos, o Partido Libertário preparou o caminho para seu sucesso e o de suas ideias.

Os EUA se tornaram mais libertários em alguns aspectos, como se pode ver com a expansão dos direitos dos homossexuais e a legalização da maconha, ocorrida em alguns estados. O Partido Libertário esteve à frente dessas disputas. Mas em questões econômicas, infelizmente, impostos e gastos públicos subiram de maneira significativa.

Quais são as principais dificuldades vividas pelo Partido Libertário? Seria o fato dos americanos pensarem apenas nos Republicanos ou Democratas como opção de voto, ou há outras questões?
Democratas e Republicanos fazem um ótimo trabalho, ao convencerem a população a votar “no pior dos dois males”. Além disso, ambos produzem leis que tornam ainda mais difícil a trajetória de um terceiro partido rumo às urnas.

Quais são os objetivos concretos do Partido Libertário? O partido realmente busca a eleição de parlamentares, governadores e até mesmo um presidente da República, ou a ação política tem outras metas?
O Partido Libertário trabalha para promover liberdade. Ganhando ou perdendo, cada voto em um libertário faz diferença. Quando disputamos eleições maiores, como as para governos estaduais ou Presidência, as campanhas têm como primeiro objetivo transmitir a mensagem libertária para o público e forçar Democratas e Republicanos a falarem sobre questões importantes.

A principal bandeira do Partido Libertário é o “governo mínimo”. O que isso significa na prática? O que segue sob controle do Estado, quando da aplicação desta filosofia? Como seriam os EUA com um presidente libertário?
Cortaríamos taxas e gastos públicos, encerraríamos a guerra contra as drogas, acabaríamos com programas como Medicare e Social Security [equivalentes estadunidenses ao SUS e ao INSS], acabaríamos com as guerras no Iraque e Afeganistão, não subsidiaríamos nenhuma empresa, finalizaríamos a educação provida pelo governo – em suma, deixaríamos de fazer quase tudo o que o governo faz.

Legalizaríamos prostituição, casamento homossexual e protegeríamos uma liberdade religiosa que contemplasse todas as religiões. Manteríamos um pequeno exército para defesa, além do sistema judicial e uma polícia suficiente para assegurar a liberdade individual e os direitos de propriedade. Todas as outras questões – e até mesmo algumas dessas últimas mencionadas – seriam oferecidas de acordo com as necessidades de mercado. Acreditamos que os pobres sairiam ganhando com este sistema, embora eu saiba que os políticos tentem nos convencer que os pobres sofreriam sem o governo para ajudar.

Como é a relação do Partido Libertário com as minorias dos EUA – homossexuais, latinos, negros e outros? O partido está mais próximo ou mais distante delas do que Republicanos e Democratas?
O Partido Libertário defende liberdade para todos. Somos o partido mais próximo da comunidade LGBT, além de fortes apoiadores dos ideais de fronteiras abertas e imigração facilitada. O que não defendemos são privilégios específicos para alguma minoria em especial.

Qual é a visão do Partido Libertário para política externa? Um governo libertário, neste sentido, estaria mais próximo do de Barack Obama ou do de George W. Bush?
O partido é antiguerra e a favor do livre comércio e da imigração facilitada. Somos bem diferentes de Bush e Obama nessas questões. Obama, inclusive, nos desapontou bastante com sua postura pró-guerra, ao atacar a Líbia e estimular a guerra no Afeganistão.

Na sua avaliação, a maneira de conduzir a administração pública defendida pelo Partido Libertário poderia ser aplicada em um país pobre? Ou ela é apenas viável para nações que já alcançaram um status melhor de desenvolvimento?
O libertarianismo é o oposto do autoritarismo. A administração pública defendida pelo Partido Libertário faz países pobres se tornarem ricos, e liberta a população oprimida. É ótima para todos – e perigosa para ditadores.

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O site do Partido Libertário tem um quiz no qual é possível verificar se você se identifica com as propostas da sigla. Vale ver o World's Smallest Political Quiz.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pão, circo, emprego e renda

À parte de casos mais polêmicos como a denúncia sobre corrupção no Ministério dos Transportes, um pequeno escândalo eriçou a opinião pública nos últimos dias: a divulgação do fato que o Ministério do Turismo investiu R$ 22 milhões em festas juninas neste 2011 (veja matéria do Congresso em Foco).

Foi a senha para que bradassem os costumeiros sinais de indignação contra o "mau uso" do dinheiro público no Brasil. "Com tanta gente passando fome, com escolas sofríveis e hospitais precários, como que o governo investe em festa junina?", questionaram muitos. Outros já empregaram o irritante chavão do "pão e circo" para dizer que a população brasileira só quer saber de festa e não se importa com a realidade do país.

Hum. Talvez seja o caso de refletir um pouco mais sobre o ocorrido antes de despejar críticas. O primeiro a se fazer é investigar de onde veio a verba - do Ministério do Turismo. O Ministério do Turismo tem como obrigação... investir no Turismo, certo? E o que é investir no Turismo? Conservar museus, cuidar de paisagens naturais, capacitar pessoas e promover eventos.

No Nordeste, as festas juninas geram repercussões de certo modo comparadas às dos carnavais. Movimentam muita gente - e, por consequência, recursos. Não tenho números, mas acredito que o carnaval deve representar um fator importantíssimo para cidades como Salvador e Rio de Janeiro. Sem o evento, municípios como estes passariam por problemas no orçamento. Com as festas juninas, acontece a mesma coisa, talvez em escala menor.

Ou seja: é muito mais que "pão e circo". Investir em festa junina - e carnaval, e rodeio, e festa do leite, e etc - é mobilizar a cidade, garantir renda ao setor hoteleiro, aquecer o comércio e por aí vai. Resumindo, gerar emprego e renda. A obrigação de qualquer governo, estamos de acordo?

Em tempo: há críticas sobre a maneira como essas verbas foram distribuídas (para privilegiar aliados do ministro) e denúncias de corrupção ligadas ao caso. Isso é sério, mas pertence a outro escopo da discussão, completamente diferente. Aí falamos de apadrinhamento e desvio de dinheiro público - o que não muda nada no que tange à importância do objetivo inicial.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PTB vai bem ao colocar dedo na ferida

Como já falei em outras postagens, eu gosto de campanhas partidárias que marquem posição. Ainda que não concorde com o que é dito, aprecio quando um partido dá uma opinião sobre um assunto, e não que fique com aquele discurso vago e patético do "vamos lutar para melhorar a saúde e educação", como se alguém fosse contrário a isso, ou como se o eleitor fosse se despertar por palavras tão vagas...

E é isso que o PTB tem feito com uma campanha que começou a circular nessa semana, nas inserções partidárias no rádio e na TV. O partido foi bem ao ponto, e tenho certeza que a inserção trará resultados positivos. Vejam:



Falando sobre o conteúdo propriamente dito: embora eu seja contra o financiamento público exclusivo de campanha (acredito que o privado, em especial de doadores menores, é um grande fortalecedor da democracia), ele existe e tem muito valor. A publicidade diz que "Estão querendo que você pague as campanhas eleitorais". Cá entre nós, isso já é (parcialmente) feito, por meio do fundo partidário, composto por recursos públicos e que é distribuído a todas as siglas. E ao tratar o assunto assim o PTB simplifica muito a questão, que é mais complexa do que parece.

Mas de qualquer forma, o partido faz barulho. Pega uma causa que tende a ter aceitação nacional e se identifica com ela. Muitos brasileiros verão o vídeo e associarão a ideia ao PTB. Que o partido saiba trabalhar com isso nas eleições do ano que vem.

Em tempo: ao bancar a luta contra o financiamento público, o PTB se coloca diretamente em rota de colisão com o ex-presidente Lula, de cuja base participou. Lula é defensor do financiamento exclusivamente público, como podemos ver a partir de 1:35 neste vídeo.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Jean Wyllys, sobrevivente do paredão

Ainda com menos de seis meses completados, a atual legislatura da Câmara de Deputados tem em Jean Wyllys (PSOL-RJ) um dos seus maiores destaques. Jean encampou a luta dos gays e tem recebido grande destaque nos tempos atuais, marcados pelo debate sobre os direitos dos homossexuais no Brasil.

Ao se consolidar como militante de uma causa, Jean vai aos poucos fazendo com que ele deixe de fazer parte do "baixo clero", aquele grupo de parlamentares cujo destaque na Câmara é irrisório.

Além disso, o deputado merece também méritos por outra razão: vai detonando a ideia de que os "famosos" que chegam ao poder nada têm a acrescentar à política nacional.

Para quem não sabe, este Jean Wyllys é o mesmo cidadão que, em 2005, foi o vencedor da quinta edição do Big Brother Brasil. Embora desde o início Jean destoasse do perfil típico dos participantes do programa - era professor universitário, militante gay, e dizia que sua entrada no Big Brother se devia a uma "pesquisa" - não dá para negar que Jean, é, sim, um "ex-BBB", categoria de brasileiros tão atacada nos últimos tempos. Afinal, por mais que Jean tenha todo esse currículo e militância, possivelmente jamais o conheceríamos se não fosse o programa global.

E ao fincar seu pé e mostrar serviço na Câmara, Jean diz que, sim, é possível que um "famoso" trabalhe. Ressaltar esse 'feito' é de certo modo uma obrigação, quando lembramos que, ano passado, a candidatura de Tiririca e outros famosos causou verdadeira revolta entre os brasileiros. Se dizia, à época, que a presença dessas pessoas nas eleições seria a confirmação de que a política nacional estaria virando uma bagunça.

Mas com exceção da de Tiririca, esculachada por definição, qual é o problema de um "famoso" se candidatar? Por ser ou ter sido cantor, ator, jogador de futebol ou ex-BBB, uma pessoa se torna menos cidadã, menos apta à vida pública? Não, e Jean Wyllys nos mostra isso.

Não defendo todas as posturas do deputado. Aliás, por mais que acredite em atuações setoriais, sou relativamente contrário a parlamentares que permaneçam restritos a determinadas causas - espero, que nos três anos e meio que virão, que Jean atue também para melhorar a saúde, emprego, meio-ambiente, relações internacionais e todos os outros temas que passam pela Câmara. Mas não dá para negar que sua postura merece ser elogiada.

terça-feira, 3 de maio de 2011

PP investe no repetitivo

O Partido Progressista está transmitindo suas inserções no rádio (ao menos em São Paulo). Lembrando que, como 2011 não é ano de eleição, não teremos o horário político clássico, e sim aqueles comerciais rápidos inseridos nos intervalos das rádios e televisões, que se parecem e se misturam com os comerciais dos produtos em geral.

Iria abrir o texto dizendo que se tratava da nova propaganda do PP, mas... se tem uma coisa que o anúncio não é, é novo. Seu formato é o mesmo que o partido tem adotado há uns 10 anos: uma voz em off fala algo como "Quando o Partido Progressista está no governo, o que acontece é isso", e se destila um rosário com as intermináveis ações de Paulo Maluf como governador e prefeito. Por fim, o próprio Maluf volta ao vídeo para falar mais algumas coisas e garantir que a propaganda se encerra com a sua imagem.

Maluf ainda é uma força política em São Paulo - seus mais de 490 mil votos e a terceira posição entre os candidatos a deputado federal mais votados na eleição passada demonstram isso. Porém, é inegável que o deputado já foi mais expressivo do que é nos dias atuais. Novamente recorrendo a números, seu pífio desempenho nas disputas municipais em 2004 e 2008 deixam a questão clara.

Não cabe ao PP, evidentemente, desprezar sua principal liderança e "puxador de votos". Porém, é nítido que o partido precisa se reciclar, apresentar novas lideranças - aliás, a própria candidatura de Celso Russomano a governador nas eleições passadas foi algo nesse sentido. Até mesmo o uso da figura de Maluf poderia ser repensado. Será mesmo que o eleitorado precisa saber o que é "obra de Maluf"?

Foto: pp.org.br

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Embu vota e muda de nome

Aconteceu ontem, na Grande São Paulo, uma eleição interessante: a população da cidade de Embu foi às urnas para decidir se o nome da cidade permaneceria como é ou se seria modificado para "Embu das Artes". Veja matéria da Rede Globo a respeito:



Para quem não conhece, Embu é uma cidade na região sudoeste da Grande São Paulo caracterizada por uma grande feira de artesanato realizada aos domingos, que a deu o sufixo "das Artes". De apelido, agora a derivação passa a ser nome oficial da cidade, constando em registros de nascimento e chapas de veículos, entre outras ocorrências oficiais.

A mudança de nome teve como principais justificativas a diferenciação da vizinha Embu-Guaçu e a ampliação de um chamariz para os turistas - a feira que deu fama à cidade atrai um considerável número de pessoas e movimenta de maneira definitiva a economia do município.

Sobre a eleição em si, é possível até dizer que a quantidade de votos válidos a favor do "não" surpreendeu. Foi de 33,52%, quando se esperava menos (é até possível reparar, na matéria da Globo, que o entrevistado pró-não fala para dois microfones, o que deve ser explicado pela dificuldade de achar alguém que estivesse do seu lado). Durante os meses que antecederam a votação, a campanha da administração municipal a favor do "sim" tinha como slogan o ótimo "Todo mundo quer". Ou seja: não havia oposição organizada.

Curioso é ver o grande número de abstenções. Foram 31,48% de ausentes, segundo a prefeitura - o número impressiona ainda mais se contrastado com a abstenção nas eleições municipais de 2008, que foi de pouco mais de 13%.

Mas a explicação é simples. Ao contrário do ocorrido ontem, nas eleições em geral há a presença maciça do assunto nos meios de comunicação. Por outro lado, por mais que tenha havido uma boa divulgação do pleito por parte das autoridades eleitorais e do Embu (das Artes?), é difícil falar sobre eleições sem que haja um contexto maior conspirando para tal. Ainda mais em cidades da região metropolitana, o que é o caso de Embu, cuja programação televisiva é dominada pelo noticiário da capital, tradicionalmente menos interessado no que acontece nos municípios próximos.

De qualquer modo, boa sorte ao povo de Embu - das Artes! Que a votação marque o início de uma nova fase na cidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Dominados e dominantes

Uma discussão bem comum é aquela a respeito dos estrangeirismos na língua portuguesa. Há quem os veja como inimigos do nosso idioma, há os que exageram em seu uso e há o meio termo - no qual eu me encaixo - que defende a adoção de alguns, mas sem forçar a barra e nem substituir palavras ótimas no português por outras similares em inglês só pra ficar mais chique ("orçamento" por budget, "reunião" por meeting e por aí vai).

E um argumento que sempre pinta nessas discussões é o fato da "dominação cultural" que o uso excessivo de estrangeirismos causa. "Desse jeito o português vai acabar!", diz um; "dominar a língua é apenas o primeiro passo para que eles nos dominem por completo!", adiciona outro. (Confesso que já estive também desse lado.)

Curioso é ver que a trajetória do mundo tem nos mostrado exatamente o oposto. Ao invés da "língua de país rico" se impor sobre a "língua de país pobre", o que se vê é o efeito contrário.

Os EUA são o principal campo dessa nova batalha. Estive em Nova York em 2009 e reparei uma semelhança entre as propagandas no metrô de lá e as daqui: em ambos os lugares, um dos tipos de anúncio que mais se vê é o de... escolas de inglês! Lá, tal qual aqui, o apelo da publicidade é falar que estudar inglês "abre portas no mercado de trabalho". Isso em um país majoritariamente falante da língua inglesa, que fez com que este idioma percorresse todo o globo e se tornasse praticamente uma língua universal.

Claro que a situação se deve à imensa quantidade de imigrantes que os EUA recebem há décadas. Ou melhor: os EUA atraem imigrantes desde sua fundação, mas de uns anos para cá o número mais expressivo que chega ao país é o composto por latinos. Esta camada acaba não aprendendo o inglês como fizeram os estrangeiros de antes (não sei o motivo disso, não perguntem), e com isso cresce de maneira impressionante o número de cidadãos norte-americanos (sim, não estamos falando de imigrantes ilegais, e sim de gente que tem o passaporte do país) que não falam o inglês, ou o têm apenas como seu segundo idioma.

As campanhas eleitorais nos EUA, já há alguns anos, trazem peças em espanhol, e a publicidade de tantos outros segmentos também adere ao idioma latino. Há redes de TV e rádio com programação unicamente em espanhol, enfim: é possível ser americano sem falar inglês.

E ontem, ouvindo o ótimo podcast The World In Words, tomei conhecimento da reação que muitos americanos têm empreendido contra esta situação. Os EUA não têm o inglês como sua língua oficial - e estes grupos têm lutado para que isso passe a ser realidade. Emendas individuais nos estados que compõem a federação têm sido aprovadas, e a tendência é que a coisa avance.

O momento atual da política dos EUA, com o avanço do Tea Party e de outros movimentos conservadores, acaba sendo perfeito para que este debate se fortaleça.

O podcast foi finalizado ao som de "Press One For English", canção do grupo country Rivoli Revue que se tornou uma espécie de hino do movimento. O título da música é uma referência a algo que tem causado irritação máxima nos puritanos - o fato de que, ao ligar para algum serviço com atendimento automático de chamadas, a primeira mensagem que se ouve é um pedido para a escolha de qual língua se dará a conversação. "Como assim eu tenho que apertar algo para falar em inglês?!", questionam.

Vejam a letra, com uma tradução por minha conta, e abaixo confiram o vídeo. Façam seus julgamentos.

Press 1 for English

Hey, I can't read that sign out there
Please tell me what's it say
We have to have subtitles
In five languages these days

Now we don't ask too much
To share this land of liberties
But if it's not too much to ask
Could you please speak English

(Chorus)

English is my language
It's the language of this land
And every sign that's posted here
I should understand

I do not live in China, Mexico
No foreign place
And English is the language
Of the United States

Now I'll speak very clear for you
So there'll be no mistake
My family fought and died
Protecting freedoms in these states

Now we all welcome those who come
But when you reach our shores
Folks you should speak our language
Not the one you spoke before

(Repeat chorus)

Now I'm proud of this country
And this great Democracy
And I believe an open door
Should be our policy

But for these opportunities
We'd simply ask you this
Hey you're the one who chose to come
Now choose to speak English

Now here's one thing I question
And try to understand
Hey why must I press one for English
When it's the language of this land

Aperte 1 para inglês

Ei, eu não consigo ler aquele aviso
Me explique o que ele diz
Nós temos que ter legendas
Em cinco idiomas hoje em dia

Nós não exigimos muito
Para dividir esta terra de liberdades
Mas por favor, se não for pedir demais
Você poderia falar inglês?

Refrão

Inglês é minha língua
É a língua deste país
E cada aviso que é colocado aqui
Eu deveria entender

Eu não moro na China, nem no México
Nem nenhum outro país
E inglês é a língua
Dos Estados Unidos

Agora vou te falar bem claramente
Para não haver confusão
Minha família lutou e morreu
Protegendo a liberdade nestes estados

Agora nós recebemos bem todos que chegam
Mas quando vocês alcançarem nossas entradas
Caras, vocês deveriam falar a nossa língua
E não a que vocês falavam antes

(Repete refrão)

Eu tenho orgulho deste país
E sua grande democracia
E acredito que portas abertas
Devem ser nossa política

Mas para essas oportunidades
Apenas pedimos isso
Ei, você que escolheu vir
Agora escolha falar inglês

E agora uma pergunta que eu faço
E tento entender
Porque tenho que apertar 1 para inglês
Se inglês é a língua deste país?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Há uma revolução pouco notada em curso

Tem passado meio batida uma questão que, se levada à frente, mudará toda a cara do cenário eleitoral brasileiro: a aprovação das candidaturas avulsas.

Resumidamente, as candidaturas avulsas são aquelas que não têm vínculo com partido algum. Nos dias atuais, para que um brasileiro se lance candidato, é preciso que pertença a alguns dos nossos 27 partidos. Caso este sistema avance, no Brasil poderão aparecer candidaturas como as "independentes", muito populares nos EUA.

A ideia foi aprovada pela Comissão da Reforma Política do Senado e ainda terá que ser apreciada pelo plenário do próprio Senado e também pela Câmara dos Deputados. Ou seja: deve demorar muito para que seja posta em prática, e muito provavelmente não vigorará nas eleições do ano que vem.

Seja como for, cabe discutirmos o que acontecerá caso se torne uma realidade.

As principais vítimas das candidaturas avulsas serão, sem dúvida, os partidos pequenos. Daria até para dizer que muitos entrariam em vias de extinção caso o novo sistema vingue. Pelo seguinte: a necessidade do vínculo entre candidato e legenda faz com que a imensa maioria dos partidos nacionais sejam simplesmente balcões de registros de candidatos. Ou alguém acredita que a maioria dos partidos nacionais represente mesmo as correntes ideológicas da sociedade brasileira?

Sem seu poder "carimbador", os partidos menores não iriam muito adiante. E talvez a democracia ganhe, já que os partidos que sobreviveriam teriam que se destacar, que efetivamente representar algo mais do que um simples fornecedor de números.

Há que se pensar também como ficariam as eleições propriamente ditas, em termos mais práticos: qual será o critério para a atribuição de números a estes candidatos? Como será a sua aparição no horário eleitoral? Para as eleições proporcionais, como ficaria a questão do coeficiente? Cada candidato teria que atingi-lo por conta própria?

É difícil também entender como a novidade se dará em termos de marketing eleitoral. Ao estarem desvinculados a partidos, os candidatos terão mais "legitimidade" para se proclamarem uma novidade, surfando assim no consenso de que "político é tudo igual". Já os partidos atuais poderão aproveitar o fato para fortalecer a campanha pelo voto de legenda, apostando na unidade e na legislação da fidelidade partidária - que, embora ainda entre alguns tropeços, ganhou a aprovação da população.

Ainda há muito o que se discutir - e, como dito no início do texto, tenho verificado que a importantíssima questão não tem recebido a atenção que deveria. Tomara que isso se modifique.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Falando em novo partido...

Ontem, ouvindo rádio, levei um susto quando uma propaganda partidária entrou no ar. A propaganda começava com um narrador que questionava: "o que você espera de um novo partido?" Na sequência, pessoas respondiam dizendo que gostariam que este novo partido lutasse por mais emprego, promovesse a sustentabilidade, fosse composto por pessoas honestas, e assim por diante.

Ao ouvir sobre o "novo partido", me surpreendi com o fato do PSD já estar com uma campanha em cadeia nacional. "Caramba, o partido foi fundado esses dias e já está sendo divulgado na rádio, que rapidez, eu achava que ainda faltava o registro no TSE e....". Até que, na conclusão da peça, anuncia-se que a propaganda é do PMDB. O "novo partido", então, é o tradicionalíssimo do número 15, do vice-presidente Michel Temer.

Não sei se a peça do PMDB - direcionada ao público de São Paulo - foi planejada antes da confirmação da criação do PSD. Bem possível, já que o calendário das inserções é definido com bastante antecedência e, em anos não-eleitorais, é costumeiro que o teor das inserções seja mais "frio" e menos relacionado a eventos momentâneos. Caso esta hipótese seja a verdadeira, é nítido que o PMDB adotou a marca de "novo partido" para se desvincular da figura de Orestes Quércia, que presidiu a sigla por décadas até a sua morte, no ano passado.

Apesar de ter sido governador e de deter imensa influência no jogo político estadual, Quércia era uma figura com muita rejeição em São Paulo. A propaganda sugeriria, com base nisso, que o partido está deixando para trás a figura do ex-governador - algo como "pode vir, o Quércia não está mais aqui, agora estamos traçando novos rumos". Curioso.

E, caso a ideia do "novo partido" tenha sido cunhada após a criação do PSD, das duas uma: ou houve muita inocência por parte dos seus criadores, que não pensaram na possibilidade de associação com o partido de Kassab, ou desenvolve-se uma tentativa de marcar o nome do PMDB no embalo da agitação causada pelo PSD. Aguardemos uma explicação oficial.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Novo partido é um problema?

Nestes últimos dias foi formalizada a criação do Partido Social Democrata (PSD), o mais novo partido brasileiro. A sigla, como já é sabida, nasceu da insatisfação do prefeito paulistano Gilberto Kassab com o DEM, partido ao qual era filiado há anos. Kassab queria ter mais autonomia dentro de um partido - e também se aproximar do governo federal -, viu que não poderia consegui-lo no DEM, temeu mudar de partido e ser acuado pela lei da fidelidade partidária, e então constatou que a criação de uma nova sigla seria o caminho mais adequado.

Um dos principais aliados de Kassab na nova sigla será o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, também ex-DEM.

Ao contrário do que se previa inicialmente, o PSD disputará eleições em 2012 (as primeiras conversas sugeriam que o partido se fundiria imediatamente com o PSB). Ou seja, teremos um partido novo na próxima disputa, que elegerá prefeitos e vereadores.

Cabe então discutir como se dará o trabalho de marketing de um partido que enfrentará sua primeira eleição.

Poderíamos dizer que o PSD passará apertos, já que, justamente por ser novato, não é conhecido do eleitorado e não tem um recall de eleições anteriores. Mas acredito que o que tende a ocorrer é justamente o oposto. Com exceção de PT e PSDB (e também o PMDB, mas em menor grau), há algum grande partido, em termos de conhecimento do eleitorado? Percebam que não estou falando em número de filiados, muito menos fazendo um juízo de valor sobre as siglas. Me refiro ao peso de suas marcas.

Questiono: haverá muita diferença, para o eleitor comum, entre PSD e PSB, PTB, PDT, DEM, PR e as outras siglas que compõem o espectro político nacional?

O eleitor brasileiro não vota em propostas e nem em partidos, e sim em pessoas - e aí não estou fazendo nenhum raciocínio genial, mas apenas inferindo sobre o que a história das eleições nos mostram. E pessoas o PSD tem - o prefeito da maior cidade e o vice-governador do maior estado do Brasil não são pouca coisa.

Durante as eleições de 2008, Kassab venceu em uma São Paulo recebendo votos de eleitores que não estavam interessados em votar em ninguém do PT nem do PSDB, e sim em alguém cujo estilo administrativo os agradava. A formalização do novo partido faz de Kassab candidatíssimo ao governo de São Paulo em 2014 (ainda que pesquisas recentes apontem que sua popularidade na capital paulista vai de mal a pior).

De todos os problemas que Kassab enfrentará nas suas próximas empreitadas, o fato de ser de um partido novo tende a ser o menor deles.

E cobrem-me, leitores: assim que o PSD divulgar sua logomarca e seu site, farei uma análise aqui.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A primeira marca do governo Dilma

Foram anunciados na semana passada os novos logomarca e slogan do governo federal. Eles substituem o "Brasil - Um país de todos" que, intocado durante os oito anos da gestão Lula, às vezes parecia mesmo uma marca de Estado, e não de governo. Oito anos não é pouca coisa. Confira:

Agora vamos às opiniões. Aliás, antes delas, uma contextualização. Como disse o amigo Alan Kardec Borges no Voto é Marketing, em post de 2009, logomarca e slogan costumam figurar entre as prioridades dos políticos que assumem seus mandatos. As peças estabelecem um dos primeiros sinais de uma mudança real, tangível; o cidadão que se depara com uma obra (ou propaganda na TV, ou qualquer outra coisa relacionada) que traz a nova identidade visual percebe que a administração se modificou, que há um novo governo em curso. É, por isso, vital.

(Pequeno parêntese: não sei como funciona em outros países, mas aqui no Brasil acredito que haja um pequeno abuso na utilização das logomarcas. A cada quatro anos, uma cidade/estado/país está sujeita a ter sua identidade visual por completo, e aí lá se vão consideráveis somas de dinheiro para adaptação aos novos padrões. Sem contar os logotipos que se utilizam, sem muito disfarce, das marcas dos partidos do governante da ocasião. Mas isso é uma opinião pessoal, que não serve para mudar o quadro atual. Prossigamos.)

A nova logomarca do governo federal, intencionalmente, traduz o que Dilma Rousseff propôs o tempo todo em sua campanha - continuidade, mas com um toque pessoal e de evolução. É o que se observa. A peça é, de certo modo, parecida com a do governo Lula (ao lado). Prosseguem as letras grandes, o "BRASIL" em caixa alta, exposto de maneira horizontal.

Onde se vê a diferença - e gritante - é no uso das cores. A logomarca de Dilma é mais sóbria do que a de Lula, e bem menos ousada. Enquanto a do governo anterior abusava de cores distintas, para reforçar mesmo a ideia da pluralidade, a atual fica no verde-amarelo, com o losango da bandeira nacional exposto sobre o A de Brasil. Fica a impressão que a nova marca quer ser vista como mais séria, mais "disciplinada" que sua antecessora. Comparação pura e simples? A de Lula ganha. Em duas palavras (ou é uma só por conta do hífen?), é possível definir a marca atual como sem-graça.

Quanto ao slogan... bem, aí arrisco dizer que a gestão anterior ganha, e de goleada. "Um país de todos" é uma frase simples, direta, precisa e de muito conteúdo. Lula assumiu o poder pregando a inclusão, e fez disso a marca de seu governo. "Um país de todos" traduz essa filosofia como talvez nenhuma outra marca conseguiria.

"País rico é país sem pobreza" é, também, outra tradução de uma meta de governo - já que o Brasil se tornou mais "rico" e "desenvolvido" nos últimos anos, é hora de transformar essa condição em uma melhoria efetiva na qualidade de vida dos brasileiros, acabando com a pobreza. Até aí tudo bem. O principal problema está no fato da frase ter, digamos, pouco apelo publicitário. "País rico é país sem pobreza" é uma frase mais longa, mais rebuscada, que não soa tão imediata quanto "Um país de todos". Além de ter um caráter meio até de certo modo marcial - parece um lema de exército, uma declaração de fé, um trecho de hino. Quebrou a "simpatia inclusiva" da marca anterior para uma pegada mais agressiva, mais forte.

As intenções da marca são boas - como já dito, frase e logotipo reforçam bem a ideia da continuidade com progressão. Mas talvez a escolha das peças pudesse ser feita com mais capricho. É claro que não é isso que determinará (e nem de longe!) o sucesso ou fracasso do governo Dilma, mas um pouquinho mais de qualidade viria bem.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Já conhece o Partido Militar Brasileiro?

Em novembro, joguei aqui uma dúvida no ar sobre como seria um "Tea Party brasileiro". O post da ocasião foi inspirado pelo sucesso que o movimento ultraconservador Tea Party, liderado por Sarah Palin, estava (e ainda está) fazendo nos EUA. Questionei o fato do Brasil não ter um partido político assumidamente de direita.

E parece que a resposta foi encontrada: no final de janeiro, uma convenção nacional foi o impulso que faltava para a consolidação da ideia do Partido Militar Brasileiro (PMB). Agora, o PMB aguarda os trâmites burocráticos para ser juridicamente um partido político e já disputar as eleições de 2012.

(Curiosidade: se realmente utilizar a sigla PMB, o Partido Militar Brasileiro trará de volta ao cenário político o acrônimo do Partido Municipalista Brasileiro, que existiu durante a década de 1980 e cujo feito de maior notoriedade foi ter atraído Silvio Santos para a campanha presidencial de 1989, em candidatura que viria a ser cassada.)

Como já falei naquele post sobre o Tea Party e em outras ocasiões, acho, sinceramente, que faz falta ao Brasil um partido que se assuma de direita, que não tenha medo de encampar a bandeira do conservadorismo. Não são as minhas ideologias, mas acredito que faz bem ao Brasil saber quem defenda essas posturas.

O que há, hoje, são pessoas de direita pulverizadas entre as inúmeras siglas, que defendem uma ou outra causa direitista durante as campanhas eleitorais, de maneira difusa.

E há muitos partidos no Brasil? Sem dúvida! Mas o PMB - se cumprir o que está prometendo - será um partido que "valerá", que terá uma razão de existir. Tal qual PCO e PSTU, seus inversos ideológicos, defenderá uma causa que não é contemplada por outras siglas. O problema do excesso de partidos no país não tem a ver com as siglas do tipo do PMB e das pequenas de esquerda, e sim das dezenas de partidos fisiológicos com base programática nenhuma e que só servem como balcões de candidatura.

Um aspecto interessante sobre o PMB é que ele tende a ser o partido brasileiro com a maior proporção de mulheres entre seus filiados - como, pela lei atual, os militares não podem participar de partidos políticos, é possível que suas esposas entrem na sigla e a administrem, como ocorre com os sindicatos da categoria.

Veja mais a respeito no site do Partido Militar Brasileiro, e vá formulando sua opinião.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Freakonomics e o tostines eleitoral

Estou lendo Freakonomics, livro de 2005 escrito por Steven Levitt e Stephen Dubner que já tem um quê de clássico. Virou sucesso instantâneo, gerou sequências (e obras nele inspiradas) e deve estar garantindo um bom rendimento aos seus autores.

Em síntese, o que o livro traz é uma série de pesquisas produzidas por Levitt que buscam contestar algumas verdades absolutas e apresentar relações entre fatos aparentmente distantes entre si. Por exemplo: lá se diz que a probabilidade de uma criança morrer em uma casa com piscina é muito maior do que a que há em uma casa com uma arma de fogo; que professores mentem para que seus alunos tenham melhores resultados em exames que avaliam o desempenho das escolas (e que tal fraude pode ser descoberta com apenas um pouquinho de esforço); e que a redução da criminalidade nos EUA é fruto da liberação do aborto décadas atrás, e não de políticas de combate ao crime, e por aí vai.

Como disse Ubiratan Leal em texto em que analisou Soccernomics (uma obra inspirada em Freakonomics), "números não são subjetivos, mas a escolha deles e o modo de usá-los são". É por isso que se deve ter uma bela dose de cautela ao analisar conclusões que Freakonomics trata como verdades absolutas. Números são inquestionáveis e revelam muita coisa, mas colocar um pé atrás sobre o que se vê nunca é mau negócio.

E é sobre um dos dados também apresentados em Freakonomics que eu queria debater. O livro cita uma pesquisa de Levitt que analisou a relação entre o dinheiro das campanhas eleitorais e o sucesso dos candidatos. Há o consenso geral de que quanto mais dinheiro tem uma campanha, mais provável que ela seja bem sucedida; Levitt contesta isso, dizendo que, de fato, as campanhas com mais dinheiro são as que se dão bem - mas isso se deve ao fato de que os doadores já sabem que as campanhas tendem a ser vitoriosas, e utilizam isso como critério para investir suas quantias. Ou seja, a campanha tem dinheiro porque deverá dar certo, e não o oposto.

É mais uma representação clássica do "dilema de Tostines". Levitt crava que "são fresquinhas porque vendem mais", ou seja, têm dinheiro porque vencerão a disputa. E aí?

Admito que, tentando transpor o caso à realidade brasileira, ainda não formulei uma opinião derradeira a respeito. É fato que o comportamento eleitoral aqui, para as campanhas majoritárias (presidente, governadores, prefeitos) é mais previsível do que parece. Era óbvio que PT e PSDB polarizariam a disputa nacional em 2010, como vêm fazendo desde 1994; nos planos estaduais e municipais, há situações que são também bem previsíveis, de modo que um doador já pode saber para que lado a disputa tende a pender.


Por outro lado, nós não convivemos aqui com a figura das doações individuais (a menos não em caráter expressivo). Ou seja, a tal "motivação" para doar em uma campanha não é uma questão decisiva.

Tendo a acreditar que a opinião de Levitt valha para as eleições majoritárias brasileiras, mas não para as proporcionais (deputados e vereadores), porque neste universo específico o desconhecimento dos candidatos por parte da população e o excesso deles faz com que ter dinheiro seja um fator essencial para o triunfo.

Algum outro palpite?