segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A mídia ao lado dos "outros"

Há uma coisa que me intriga muito na relação entre os veículos de comunicação e a população em geral: o consenso de que a mídia está do lado dos "outros", dos seus opositores, seja lá quem você ou seus adversários sejam.

No futebol, paulistas dizem que a mídia é favorável aos times do Rio, os cariocas retrucam dizendo que os de São Paulo são os beneficiados; católicos afirmam que sua religião é atacada dia após dia - evangélicos retrucam dizendo que são eles os perseguidos, enquanto os não-religiosos contestam citando um suposto "conservadorismo" da mídia nacional, sendo eles então as vítimas. Quanto à política, não preciso nem me estender: buscas rápidas no Google para "imprensa petista" e "imprensa tucana" revelam um desesperado interesse de um lado em dizer que o outro tem a "máquina" a seu favor.

O jornalista André Kfouri, da ESPN e do Lance, escreveu certa vez texto monumental a respeito, dizendo que "confessava" fazer parte da organização secreta denominada “Imprensa Unida para Prejudicar o Seu Time”. Vejam o texto no site do Lance.

Falo disso porque tive conhecimento de texto do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) a respeito do assassinado da juíza Patrícia Acioli - ou melhor, da cobertura da imprensa sobre o caso. No texto, Jean diz que a ação da mídia sobre o crime esteve mais focada na vida pessoal da juíza do que na tragédia em si. Ou, nas palavras de Wyllys, "A cobertura jornalística do assassinato da juíza Patrícia Acioli, em Niterói (RJ), deixa claro que as mulheres ainda têm, no espaço público, a vida avaliada a partir de suas vidas privadas. "

Jean não fala isso à toa. Se cita o ocorrido, é porque ele realmente aconteceu. Mas é curioso como as percepções são relativas. Tudo o que li a respeito do assassinado de Patrícia tinha como principal foco a insegurança da qual todos os brasileiros são vítimas - em especial os que combatem o crime. Justamente sob esse prisma, Acioli foi vista como uma espécie de heroína ou mártir, alguém que morre em nome de uma causa. O trabalho de Patrícia na justiça foi (justamente) valorizado e sua morte foi vista como uma espécie de contra-ataque do crime a alguém que o deteriorava - algo do que o brasileiro médio adora ter conhecimento, aliás.

Ligado a questões como o combate à homofobia e ao sexismo, Jean acabou se portando como um torcedor afetado pela “Imprensa Unida para Prejudicar o Seu Time” neste caso. Puxou um aspecto negativo da cobertura e deu a ele uma dimensão maior do que o devido.

É curioso, mas bem curioso mesmo, como tal fenômeno acaba tendo características onipresentes.

2 comentários:

gutierrez disse...

Puxa, engraçado você escrever isso agora. Acabo de ler a página do Gilberto Dimenstein. Os internautas estão entupindo o espaço de comentários com manifestações de apoio aos policiais do caso estrebucha (a defesa é que "eles estavam esperando o socorro, que mal faz xingar o bandido?"). Trecho de comentário de verdade: "Essa coisa de meter pau na polícia já cansou. parece coisa de jornalista recém formado, com um baseado na mão, camiseta do Che, boina e enbornal..."

Anônimo disse...

Olavo, gostei muito da maneira como vc expõe o assunto em seu texto mas discordo da conclusão.

Cabe diferenciar aquele que usa da artimanha do 'todos contra minha causa' daqueles ingênuos que constituem o dito fenômeno.

O primeiro tipo não passa de RETÓRICA. Em outras palavras, no futebol, os acéfalos se convencem desta maneira. Na política, principalmente na esquerda que precisa ser alimentada pela existência do vilão direitista (vide o PN choramingando com o PT há 10 anos no poder central), essa retórica é o pão de cada dia.

Iossi (da FnA)