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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Palin, um paradoxo político

Sarah Palin não é assunto inédito neste blog. Já falei sobre ela outras vezes, diretamente e também numa referência ao fato dela ser a principal liderança de um movimento político que cresce nos EUA.
sskennel/flickr
Agora, neste presente momento, não há um motivo específico para falar sobre ela - acredito que não seja justo relacioná-la ao ataque do Arizona, que vitimou a congressista democrata Gabrielle Giffords.

É só uma divagação a qual cheguei a pensar um pouco sobre a figura de Palin e seu posicionamento político.

Como dito no post de julho do ano passado, Sarah Palin é, de longe, a mais forte candidata a ser "a primeira mulher presidente dos EUA", ao menos no tempo corrente. A matemática é simples: os EUA têm dois partidos fortes, o Democrata e o Republicano; se Barack Obama fizer um bom governo, será candidato natural à reeleição, e então Hillary Clinton (ou outra liderança do partido) terá que esperar; se fizer um mau governo, é pouco provável que seja sucedido por um republicano; e entre os republicanos, que podem chegar à Casa Branca já em 2012 ou na eleição seguinte, não há mulher mais forte do que Palin.

Prossigamos.

Quando minorias conquistam posições importantes, é natural tratar o acontecimento como "histórico", "emblemático", "fruto de uma nova época" e assim por diante. As barreiras vêm caindo, chegará um dia em que estes acontecimento serão (felizmente) vistos como "normais", mas ainda não o são.

Então o mundo ainda se exalta quando os EUA têm seu primeiro presidente negro; o Brasil, sua primeira chefe de estado mulher; e não tardará muito para vermos presidentes/governadores/lideranças em geral abertamente homossexuais, ou com deficiência física, seguidores de religiões menos populares, entre outras.

Mas voltamos às barreiras. A da Presidência dos EUA - o cargo político mais importante do mundo - foi quebrada para os negros com a vitória de Barack Obama. Falta ainda a das mulheres.

E é aí que chego ao ponto curioso. Não será interessante ver tal barreira histórica ser rompida por uma candidatura... de direita?

Nos habituamos a ver as transformações sociais sendo conduzidas pelas lideranças de esquerda. E aí se encaixam desde as revoluções, como as de Cuba e da URSS, até as lutas cotidianas empreendidas pelos militantes das minorias - feminismo, luta LGBT, campanhas pela igualdade religiosa são causas que, embora em sua essência não atendam às diretrizes direita/esquerda, costumam ser tocadas por gente que é mais simpática a Karl Marx do que a Adam Smith.

Por tudo isso será um tanto quanto estranho caso Palin se torne presidente do EUA considerar que "um tabu está quebrado". O tabu das mulheres estará; mas da política empreendida, não. Será difícil cravar o possível acontecimento como uma vitória das "minorias" - ou, como a própria ex-governadora republicana se define, do "conservadorismo".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vitórias e derrotas femininas em eleições

E então no domingo aconteceu o que as pesquisas já indicavam há tempos: Dilma Rousseff (PT) venceu as eleições presidenciais, derrotando, com larga margem, José Serra (PSDB).

Muito já se falou sobre a vitória de Dilma, em especial sobre o fato dela ser a primeira mulher a chegar à Presidência da República. De fato, é um tabu que se quebra, e é algo cujos efeitos somente se solidificarão daqui a muitos anos.

Gostaria de trazer a vitória de Dilma a outra ótica: a do debate sobre o preconceito nas campanhas eleitorais.


Aos fatos: o Brasil elegeu para a Presidência uma mulher divorciada. Mais: a votação mais expressiva da candidata se deu na região Nordeste, o pedaço do Brasil com os piores índices de desenvolvimento humano.

Volta e meia o Brasil é tido como um país "machista". Desde o excesso de nudez no Carnaval até a baixa presença de mulheres no Congresso, tudo vira argumento para justificar essa opinião.

Mas aí, como dito, o país elege uma mulher divorciada para a Presidência da República. Como fica tudo isso, então?

O necessário a ser feito para compreender a questão é diferenciar o machismo cotidiano do comportamento eleitoral. O primeiro está aí, forte e firme, e não será a vitória de uma mulher na eleição presidencial que irá eliminá-lo.

Já o segundo tem muito mais nuances do que uma análise simplista focada unicamente na questão do machismo poderia traduzir. Em primeiro lugar: Dilma foi eleita, acima de tudo, por ser a representante de um governo muitíssimo bem aprovado pela população. Não há muitas invenções a serem feitas a partir daí. O eleitor costuma votar favoravelmente aos governos que lhe agradam; o governo Lula foi bem avaliado; Dilma era sua representante; então nada mais natural que escolhê-la. Isso transcende a questão da "mulher".

Em segundo lugar, uma mulher na Presidência é um fator novo. E quando falamos de política, essa "coisa" tão rejeitada pela população, novidade sempre cai bem. O povo em geral está cansado dos políticos e da classe política como um todo. E como é o estereótipo do político corrupto? Um homem, de terno e gravata, cabelos ajeitadinhos, fala mansa. Ou seja: uma mulher está do lado oposto disso tudo.

O debate sobre o peso do machismo nas campanhas eleitorais se faz necessário porque, volta e meia, lideranças de candidaturas femininas atribuem ao preconceito toda a responsabilidade pela derrota. Em São Paulo, isso se viu de maneira muito forte quando Marta Suplicy (PT) perdeu, em 2004, a prefeitura para José Serra (PSDB). Apurados os votos e consumada a vitória do tucano, iniciou-se a gritaria: "é por causa do machismo". Ora, uma cidade que havia eleito, anos antes, uma nordestina (Luiza Erundina), um negro carioca (Celso Pitta) e a própria Marta Suplicy, não poderia ter virado machista, reacionária e preconceituosa de uma hora pra outra. Certamente há questões políticas e da campanha propriamente dita que explicam as derrotas de maneira muito mais precisa do que a fácil apelação para o preconceito.

(Foto: Marcello Casal Jr / ABr)