segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Balanço das eleições 2 - Tiriricas e afins

"Tiririca é o deputado mais votado do Brasil! Isso é a desmoralização completa da política nacional! E ainda tem a Mulher-Pêra, o Kiko do KLB, a Cameron Brasil! Onde vamos parar!?"

Calma, calma. Vamos com calma nessa análise. É preciso compreender o que realmente significa o fenômeno Tiririca - e, mais que isso, dar a ele a dimensão correta.

Sim, Tiririca está eleito justamente por ter feito uma candidatura à base do escracho, que jogou justamente com a insatisfação que o brasileiro tem com a situação da política como um todo. Isso não é novidade para ninguém.

Mas Tiririca é o único palhaço das eleições? É a primeira pessoa a se candidatar com esse tipo de "plataforma"? Que nada! A cada eleições há dezenas de tipos como ele. Uns ainda mais escrachados, a maioria menos famosa, mas todos apostando na mesma estratégia: a palhaçada como 'marketing político'. E quantos são eleitos? Nenhum, ou praticamente nenhum.

"Ah, teve o Clodovil e o Enéas...". Não, não é por aí. Embora Clodovil e Enéas fossem, também, candidatos escrachados - na minha visão e na da maioria das pessoas - eles levavam-se a sério. E quem votou neles (ou grande parte dessas pessoas) o fez achando que ali estaria um parlamentar de verdade - ou no mínimo alguém que "não tinha medo de dizer a verdade".

Tiririca ganhou a eleição porque contou com um ótimo aparato partidário. Foi o principal candidato de um partido médio. Teve recursos, tempo na TV, e a principal legenda (o 2222) do partido. Não fosse isso, ele certamente não seria eleito - seria apenas mais um integrante do folclore eleitoral, como tantos outros.

Todos - reitero, todos - os outros eleitos para deputado federal em São Paulo não são nem famosos nem "engraçadinhos". Há os políticos de carreira, como João Paulo Cunha (PT), José Aníbal (PSDB) e Aldo Rebelo (PCdoB). Há outros que se beneficiaram por circunstâncias extra-políticas, como o delegado Protógenes (PCdoB) e Iolanda Ota (PSB), a mãe do menino Yves Ota, barbaramente assassinado anos atrás. Todos os outros famosos que tentaram a Câmara e causaram frisson por aí naufragaram nas suas tentativas.

Portanto, um pouco mais de calma ao decretar a falência do sistema político brasileiro e/ou a ignorância total do povo ao analisar os números de Tiririca. Fosse tão feia assim a situação, mais gente "errada" triunfaria.

As aspas no "errada" acima são para ressaltar outro ponto que também merece reflexão. A grande quantidade de candidatos 'famosos' despertou indignações exacerbadas nessa eleição, como nunca vistas. Mas vale pensar: é proibido que alguém que seja famoso queira entrar na política?

Discordo e muito desse dogma. Rejeito - como é óbvio - alguém que não tenha plataforma nenhuma e queira somente se beneficiar da fama. Mas acho possível que um famoso tenha a disposição de contribuir para a coisa pública. E, se isso for bem feito, pode gerar um bom trabalho.

3 comentários:

doisesquerdos disse...

Olavo,

Dá vontade de defender o Tiririca. Uma vez eu estava no refeitório durante o horário eleitoral e uma mesa atrás de mim se levantou e gritou de ódio quando chegou a propaganda dele na TV. Acho que a raiva que o Tiririca enfrenta é a mesma que o Lula enfrentou. Se não for a mesma, é parecida. O fato de eles serem pobre, cearense (no caso do Lula, pernambucano) e, ainda pior do que o Lula, semi analfabeto. A classe média tradicional tem nojo dessa gentalha.

Por conta desse preconceito que ele enfrenta dá vontade de ficar do lado dele.

Mas por outro lado a campanha (que foi bem engraçada) assusta um pouco. Sei que era piada. Mas e agora, que a piada foi eleita? Ele vai ser do baixo clero numa boa, ficar quietinho, acatar o que o partido manda? Ou vai querer indicar gente para a Petrobrás?

Júlio disse...

Muito precisa a observação do "aparato partidário" - inclusive porque o PR é bem maiorzinho que o PRONA e o PTC, que elegeram os saudosos Enéas e Clodovil - acreditas que Tiririca será vítima de uma maldição?...

Esse aparato fez Tiririca se encaixar naquilo que chamo de "protesto focalizado", que não prescinde desse tipo de estímulo... Vide o rinoceronte Cacareco... Como lembra o Blog do Paulinho, ele teve 90 mil votos para vereador em São Paulo em 1959 porque os autonomistas de Osasco imprimiram as cédulas (nessa época elas tinham de ser fornecidas pelos candidatos) para protestar contra a não emancipação da cidade...

Estamos esperando uma análise do resultado da eleição para o Senado em São Paulo? Por que Aloysio Nunes ganhou? Por que Marta Suplicy não perdeu? Porque Netinho perdeu? Fica a dica...

Diogo de Lima disse...

Também acho que o fenômeno Tiririca é algo pra ser analisado com mais calma. Mas acho sim que ele representa a falência do sistema político brasileiro - ou ao menos do modo como se encara a política no Brasil.
Assim como vc, eu escrevi um post mais detalhado dando a minha análise (http://ideiasinsolitas.blogspot.com/2010/10/tiririca-e-o-amadurecimento-da-politica.html)
Mas sem dúvida, ele é um ponto fora da curva.