quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Balanço das eleições 3 - A "surpresa" do Senado em São Paulo

Apurados os votos, contabilizados os números, uma das principais surpresas das eleições 2010 se deu na disputa pelas duas vagas do Senado em São Paulo. Até um ou dois dias antes do pleito, Netinho (PCdoB) e Marta (PT) eram dados como eleitos; mas aí a vitória ficou com Aloysio Nunes (PSDB), e Marta obteve ao menos a segunda vaga. Netinho foi o grande derrotado.

Foi a senha para que se iniciasse uma temporada de caça aos institutos de pesquisa, que, em tese, falharam abruptamente ao não identificar o sucesso da candidatura do tucano.

Mas será que as pesquisas falharam mesmo? Ou o que ocorreram foram sucessivos erros de interpretação?

Quando se noticiava a liderança de Netinho e Marta, se baseava em pesquisas que divulgavam as porcentagens dos votos válidos. Ou seja, que desprezavam os votos em branco, os nulos e - o mais importante! - os indecisos.

Segundo o Datafolha, havia, no dia 2 (um dia antes das eleições), 24% de indecisão em relação ao segundo voto, e 11% em relação aos dois para o Senado. Já o Ibope, também no dia 2, constatou também 11% de indecisos e 17% que tinham apenas um nome.

Ou seja: 24%, 17%, 11%... é muita, mas muita coisa. É uma batelada de gente com possibilidade mais que ampla de reverter um quadro eleitoral.

Agora paremos para pensar para onde migariam esses indecisos.

O primeiro lugar no primeiro turno para Geraldo Alckmin (PSDB) para o governo do estado era uma certeza - a única dúvida que permanecia era se o seu percentual seria suficiente para vencer a eleição já de cara ou se haveria necessidade de segundo turno. Também era sabido, com base em eleições anteriores, que era mais provável que José Serra (PSDB) tivesse mais votos que Dilma Roussef (PT) em São Paulo.

Surgia então um paradoxo. São Paulo teria um imenso número de eleitores que votariam da seguinte forma: Serra para presidente, Alckmin para governador, Marta e Netinho para senadores. Faz sentido? Você conhece alguém que votou assim?

Marta e Netinho dispararam na frente das pesquisas pelo recall que ambos têm, uma como ex-prefeita e sempre presente em eleições e o outro como "celebridade". Aloysio, apesar de vasta vida pública, é uma pessoa de certo modo desconhecida do eleitorado.

E a eleição para o Senado - embora menos que as para a Câmara e para a Assembleia Legislativa - atrai menos holofotes que as para o Governo e a Presidência. Não se discute tanto os possíveis senadores quando se discute os possíveis presidente e governador.

Aí, à medida que a eleição foi se aproximando, o eleitor de Serra e Alckmin foi obrigado a pensar: "ei, eu preciso votar em alguém para o Senado!". E foi nessa toada que a candidatura de Aloísio subiu. Foi se solidificando nas pesquisas e, certamente, houve muitas pessoas que no próprio dia da eleição questionaram: "quem é o senador que é contra o PT?".

É essa situação, aliás, que explica a bela votação de Ricardo Young (PV), o quarto colocado na disputa. Young se beneficiou com o segundo voto dos eleitores de Aloysio e até mesmo de alguns que votaram em Marta - a rejeição ao nome de Netinho de Paula sempre foi das maiores.

No fim das contas, antes de demonizar os institutos ou creditar ao "acaso" o sucesso de Aloysio, fazer uma leitura adequada do cenário político e dos números das pesquisas acaba resolvendo a situação. Indecisos: nunca os despreze.

2 comentários:

Eduardo disse...

Boa matéria Olavera ....

Júlio disse...

Grande texto, Mestre... Sem precisar comentar com o senhor, li uma crítica à "demonização" dos institutos de pesquisa depois do resultado final da eleição para o Senado que nós faríamos...

Bem colocada a menção aos indecisos... É aí que eu situaria a "inconsistência" da opção pelo Netinho que acabou determinante para a sua derrota... Algo que ele poderia perceber com pesquisas (qualitativas) e ter resolvido a tempo... Por isso acredito que a dianteira de Marta se deva a seu eleitorado mais fiel e ao seu esquema político mais arraizado... E ela mexeu na campanha com receio de ter menos votos que Netinho...


Só acrescentaria que, a meu ver, o impulso dado pela desistência do Quércia foi decisivo, seja pelo capital eleitoral que Aloysio herdou (especialmente no interior) ou pela redefinição de prioridades que provocou na campanha tucana...

De resto, estamos contigo e não abrimos: não desprezemos os indecisos e saibamos ler as pesquisas...