quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Esse anúncio é um oferecimento de..."

Corre na Justiça dos EUA um projeto de lei para alterar as campanhas eleitorais. Entre uma série de medidas, uma proposta interessante: grandes financiadores terão que ter seu nome divulgado nos anúncios (veja matéria da Politics Magazine a respeito).

A situação norte-americana em termos de financiamento de campanhas é diametralmente diferente da brasileira. Lá, as doações são mais presentes, mais volumosas e, ao mesmo tempo, mais transparentes. Não que aqui não sejam - descontando os casos de caixa-dois, às margens da lei, todas as doações para candiaturas são registradas e disponíveis por consulta pela internet. Mas é que lá a cultura para isso é mais forte, e as doações são mais divulgadas e conhecidas por todos.

Pois bem, a mudança à qual me refiro no início do post teria um efeito dos mais interessantes. Imaginem só: após uma propaganda convencional, de um candidato falando suas propostas ou criticando um adversário, teríamos marcas como GM, Wal Mart, Microsoft ou sei lá o quê dando seu nome, logotipo e cara à tapa como patrocinadores da empreitada.

Eu insisto que doações para campanhas são um belo instrumento para a consolidação da democracia. Todos têm interesse - maior ou menor, é claro - na vitória de algum candidato. Então qual o problema de materializá-lo em uma transferência legal, transparente e honesta de recursos?

E se falarmos de pessoas físicas, então, a questão ainda se amplifica. O cidadão que doa parte de seu salário - ainda que 50, 100 dólares, como o que se viu muito na campanha de Obama em 2008 - a uma candidatura acaba por se interessar mais pelo que acontece. E a democracia ganha com isso.

A proposta ainda está em tramitação na Justiça dos EUA, e não há garantias de que seja aprovada. Se for, causaria uma modificação interessante. Vocês acham que faria sentido uma ação dessas no Brasil?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Marta-Netinho: inédito e desafiador

A Folha Online deu ontem que o PT deve oficializar, nos próximos dias, sua dupla de candidatos ao Senado: Marta Suplicy, ex-prefeita paulistana e uma das principais lideranças do partido no estado, e Netinho de Paula, ex-pagodeiro e atual apresentador e vereador, e filiado ao tradicional aliado PCdoB.

Se confirmada, a dupla fará com que São Paulo veja uma campanha pelo Senado como jamais ocorreu aqui.
Explicando: são duas vagas em disputa na eleição de agora. Tradicionalmente, aqui e em grande parte dos outros estados, as coligações não mandam dois candidatos "de verdade" para a briga. Se teme que um roube votos do outro, e nenhum termine eleito. É mais usual ver um candidato saindo com toda a força (e apoio partidário) e outro que tenha como principal função "compor chapa" e fazer seu próprio nome para eleições seguintes.

Em 2002, o PT lançou em São Paulo, pela sua coligação, Aloizio Mercadante (pelo próprio PT) e Wagner Gomes, pelo PCdoB. Mercadante arrebentou a boca do balão e teve mais de 10 milhões de votos. Gomes? Foi escolhido pelos que queriam votar "PT de ponta a ponta", teve uma até que expressiva marca de 3 milhões de votos, mas nada que impedisse a tranquila reeleição de Romeu Tuma (à época, no PFL).

Quando Netinho começou a se posicionar como pré-candidato ao Senado, se dizia que a opção desagradava ao PT pelo fato dele e de Marta terem eleitorado semelhante. De fato, são dois nomes cuja principal base está na periferia urbana. Há, sim, a tendência que roubem votos um do outro - e aí os candidatos de outros partidos poderiam usufruir dessa vantagem.

Mas Marta-Netinho vão para o pau. E, na minha avaliação, têm totais condições de serem eleitos. O PSDB, aparentemente, não terá um nome dos mais cativantes. Romeu Tuma (PTB), o atual senador, tem atuação discreta e pode estar abalado pelas denúncias que atingem ao seu filho. Orestes Quércia (PMDB) é forte, mas é difícil crer que ele conseguirá captar o voto anti-PT (que, a princípio, é tão forte quanto o pró-PT e tem condições de eleger um nome em uma eleição com dois vencedores).

Se Netinho e Marta ganharem, um novo paradigma para eleições para o Senado estará lançado.

A foto que ilustra o post é de reportagem do Terra sobre as eleições de 2008. Na ocasião, Marta disputava a prefeitura de São Paulo e Netinho tentava ser vereador. Apesar de dois anos passados, a imagem soa mais atual que nunca!

terça-feira, 4 de maio de 2010

É preciso melhorar

A polêmica fajuta da vez é a declaração na qual Dilma Rousseff, falando sobre o livro Vidas Secas, fala sobre "a saída das pessoas do Nordeste para o Brasil". Pretexto para começarem a chamar a candidata de preconceituosa, de alheia, de desconhecedora da realidade nacional e por aí vai.

Bobagem, é claro. Dilma deu só uma derrapada nas palavras, coisa inevitável a quem tem muitas e muitas declarações registradas e disseminadas por aí. Fazer juízo de valor com base nisso é algo sem sentido.

A meu ver, mais "grave" do que a fala de Dilma é o lugar de onde ela foi extraída. É do vídeo abaixo, entrevista sobre cultura com a candidata produzida pela sua equipe para a internet. Vejam:



Cá entre nós: o vídeo é de qualidade sofrível. Dilma - com exceção da frase sobre Vidas Secas - não fala nada de errado, nada que comprometa sua candidatura. Pelo contrário, elenca números e informações sobre o tema sem muita dificuldade.

E é aí que está o erro. Qual a principal dificuldade da candidatura Dilma? É dar à candidata personalidade própria, alma, vigor, fazer com que ela seja interpretada pelo eleitorado como uma pessoa responsável e apta para conduzir o Brasil, e não um fantoche - ou "o Pitta" - de Lula.

Produções como essa reforçam uma Dilma dura, não-espontânea, incapaz de ter uma franca e sincera conversa com o eleitorado. A maneira como ela olha o teleprompter (ou um assessor, ou outro recurso) é feia, errada - ainda mais em um vídeo que, pela sua descrição, pretende ser o registro de "um bate-papo descontraído".

Compreensível para quem faz sua primeira campanha, inaceitável para uma das duas principais candidaturas presidenciais brasileiras. Dilma precisa evoluir.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Trecho Sul do Rodoanel: primeiras impressões

Que o Rodoanel é uma obra importante para o estado de São Paulo, ninguém discute. Tanto que as críticas que o projeto recebe são de naturezas como "poderia ser melhor", "veio tarde", "foi inaugurado às pressas" e por aí vai. Ninguém, rigorosamente ninguém, contesta a necessidade da capital paulista ter um anel viário que una as estradas que a ela cheguem e tire da cidade grande parte do seu tráfego.

O Trecho Sul do Rodoanel foi inaugurado formalmente na terça-feira passada (30) e aberto para circulação na quinta-feira (1).

Hoje, fiz um teste na via. Percorri o Rodoanel da Anchieta à Raposo Tavares, e vice-versa, de manhã e à tarde.

Diariamente, vou de São Bernardo do Campo à Cidade Universitária, onde trabalho. Vou de carro ou ônibus, dependendo das necessidades do dia. Quando vou de carro, sigo um trajeto que se inicia na Rodovia Anchieta e termina na Ponte Cidade Universitária, passando pela famigerada Avenida dos Bandeirantes, uma das mais vitimadas pelo tráfego paulistano. Das quatro faixas da Bandeirantes, duas são habitualmente tomadas por um infindável paredão de caminhões, que vão de Santos ao interior paulista, e vice-versa; e as duas faixas restantes não dão conta do enorme número de pessoas que procura a avenida. O resultado são congestionamentos praticamente incessantes.

A chegada do Trecho Sul do Rodoanel tem por objetivo dar uma nova alternativa aos moradores do ABC que vão a pontos como interior e Zona Oeste de São Paulo e também tirar os caminhões de vias como a Avenida dos Bandeirantes.


Introdução feita, vamos às impressões que tive dessa jornada no novíssimo Trecho Sul do Rodoanel.

Ida
Antes de mais nada, as informações-chave: sim, a viagem pelo Rodoanel é muito mais longa do que a que corta a cidade de São Paulo. O percurso São Bernardo do Campo - Cidade Universitária, pelas vias convencionais, tem 30 quilômetros; hoje, no Rodoanel, andei mais que o dobro. 76 quilômetros, para ser mais exato. Muita, muita coisa.

Porém, a outra informação-chave deixa a questão um pouco mais equilibrada. O tempo que levei para fazer a viagem foi pouco maior do que o que gasto no caminho convencional. 1h20 na ida, uma hora na volta. E, na ida, esse tempo a mais se deve a um acidente ocorrido na Raposo Tavares que deu à região um tráfego muito superior ao habitual para o horário.

Ou seja: em termos de tempo, ir pelo Rodoanel e pelo circuito Anchieta-Maria Maluf-Bandeirantes-Marginal acaba sendo algo similar.

Condições da via
Se pela questão do tempo as duas "viagens" acima citadas são semelhantes, em termos do estilo do percurso a diferença é abissal. Andar pelo Trecho Sul do Rodoanel é uma experiência completamente diferente para quem está acostumado a cruzar semáforos, bairros e vias importantes da capital paulista em seu dia-a-dia. Porque o Rodoanel é uma estrada. E andar por ele é como fazer uma viagem ao interior. Passa-se por trechos demasiadamente longos em que a paisagem do lado é tomada por árvores, montanhas, morros e por aí vai. Natureza, algo que quem está na Grande São Paulo não tem o hábito de ver em seu cotidiano. A impressão que se tem é que a viagem se encerrará em uma cidadezinha do interior. É diferente do habitual, bem diferente.

Falando da pista propriamente dita, o Rodoanel está em condições ótimas. São quatro pistas, com asfalto perfeito, e até mesmo cimento em alguns trechos. Não há curvas perigosas, pontos-cegos nem nada desse tipo. Arrisco dizer que acidentes lá só ocorrerão por falhas mecânicas ou imprudência dos motoristas.

Sinalização
Taí o ponto mais fraco do Trecho Sul do Rodoanel, ao menos inicialmente. Na Avenida Lucas Nogueira Garcez, do centro de São Bernardo, e que é o principal corredor central da cidade rumo à Rodovia Anchieta, não há menções ao Rodoanel. Para quem cai na Anchieta sentido Santos (e só o faz por saber que é lá que está o Rodoanel, já que não há sinalização), as primeiras referências ao anel viário só aparecem nas proximidades das entradas para os bairros Jardim das Orquídeas e Parque Espacial. Só na altura da fábrica da Volkswagen que a sinalização se faz presente e o motorista é bem informado que, sim, aquele caminho leva ao Rodoanel.

Logo após deixar a Anchieta e entrar efetivamente no Rodoanel, o motorista vê placas informando sobre a distância até as rodovias dos Imigrantes, Régis Bittencourt e Raposo Tavares. A dica é decorar bem as distâncias que lá são informadas, porque... não há outras menções ao longo do caminho. A não ser que eu tenha me enganado, simplesmente não se vê nenhuma outra referência a quanto falta percorrer para se chegar nas estradas ligadas pelo anel.

Também não há sinalização sobre as possíveis entradas/saídas que há do Rodoanel aos lugares por ele cortados. Com exceção das placas de divisas de municípios (e são tantas, já que da Anchieta até a Raposo Tavares se passa por São Bernardo, São Paulo, Itapecerica da Serra, Embu, Cotia, Osasco e novamente São Paulo), não se informa ao motorista onde ele está situado.

A chegada ao Trecho Oeste também é feita com relativa "surpresa". Após tanto tempo vendo apenas mato e a água das represas Guarapiranga e Billings, o motorista começa a ver sinais de relativa civilização e subitamente é informado que as saídas para Régis Bittencourt se aproximam. Caberia, ao meu ver, mais uma sinalização prévia, para evitar mudanças bruscas na atitude dos condutores.

Trânsito
Minha entrada no Rodoanel, saindo da Anchieta, se deu por volta das 9h20; às 10 horas eu estava na Raposo Tavares. Nesse período, o tráfego que testemunhei, tanto de carros quanto de caminhões, foi muito pequeno. Nem de longe houve uma modificação que pudesse sugerir a ocorrência de qualquer sombra de congestionamento. Observei isso nos dois sentidos.

Provavelmente, efeito da novidade que ainda é a via; certamente há muitos motoristas que não sabem que ela foi inaugurada, ou que não têm noção de sua rota. Vejamos como essa questão ficará à medida em que o Trecho Sul do Rodoanel for sendo mais conhecido.

Volta
Inicialmente, meu plano era fazer a jornada Cidade Universitária-São Bernardo no período da noite. Mudança de planos no meu dia profissional fizeram com que eu decidisse voltar para casa de tarde, deixando a Cidade Universitária por volta das 16h30.

A princípio, já se vê aí mais um benefício da existência do Rodoanel. O fato da via não cortar regiões centrais de São Paulo faz com que ela não integre as regiões onde vigora o rodízio de carros e caminhões. Ou seja: caminho liberado para quem precisa circular entre 7/10 e 17/20 horas nos dias de semana.

Condições da via
As observações feitas no percurso de ida se aplicam também ao da volta - ou "pista externa", como é chamada a que sai da Raposo e vai para as estradas litorâneas. A condição do asfalto/concreto é perfeita.

Além de falhas humanas, outro ponto que pode ser um possível causador de acidentes são as condições climáticas. O Rodoanel está situado na Serra do Mar e, portanto, tem o clima típico da região - caracterizado por garoa e serração, especialmente ao entardecer. É preciso que o motorista tenha atenção redobrada.

Sinalização
Mais uma vez, repetem-se as críticas. E com aspectos adicionais.

O primeiro foi detectado logo na Raposo Tavares. Quando o motorista sai da Raposo e entra no acesso ao Rodoanel, se vê obrigado a escolher entre duas opções: ou pega o caminho que o leva a Bandeirantes/Castello Branco ou... Régis Bittencourt. Cadê a menção à Anchieta e à Imigrantes? Ou, de maneira ainda mais didática: por que não se cita ali as cidades de São Bernardo, Santo André, Mauá e Santos, prováveis destinos de quem pega o Rodoanel naquele sentido? Sugere-se que a obra foi entregue e o Trecho Oeste ainda não foi sinalizado para tal. O motorista que conhece menos o caminho pode se complicar.


Em todo o caminho que percorri, não vi placas trazendo aos motoristas a distância até as rodovias que quer alcançar. Ou seja: o condutor entra no Rodoanel e segue ad eternum até chegar ao ponto que precisa.

Há também outro problema em relação à sinalização. Mas esse ataca muito mais a língua portuguesa do que a segurança dos condutores. Em mais de uma ocasião, a cidade de Embu tem seu nome grafado como "Embú" e Itapecerica vira "Itapecirica". Infelizmente, não consegui fotografar as pérolas. Feio, muito feio, hein?

Trânsito
O horário no qual fui para São Bernardo era mais propício ao aumento na circulação de veículos, e foi o que encontrei. Mais uma vez, nada que sugerisse um congestionamento; mas um grande número de carros e caminhões, especialmente em direção ao Trecho Oeste (oposta da qual eu seguia).

Acho improvável que o Trecho Sul, ao menos antes do início dos pedágios, tenha tráfego pesado.

Observações gerais
O que verifiquei nessa primeira experiência foi um Rodoanel em ótimas condições. Que tem como principais falhas a sinalização ainda insuficiente e a falta de pontos de parada para os motoristas. Não há um único posto de combustível, lanchonete ou qualquer outro ponto de apoio para quem está na via. Pode-se dizer que isso é uma opção, que o Rodoanel não pode ter as características de uma estrada normal, mas certamente esses itens farão falta ao longo do tempo em que o trecho for sendo mais usado.

Cabe dizer: o Trecho Sul ainda não tem pedágio. O motorista que sai da Anchieta e vai para a Raposo Tavares só pagará pedágio (de R$ 1,30) quando acessar a Raposo; e quem vem da Raposo rumo às litorâneas pagará R$ 1,30 logo após ingressar no Rodoanel propriamente dito. São R$ 2,60 no total.

Há umas três ou quatro praças de pedágio em construção ao longo do Trecho Sul. Elas estão localizadas em pontos como a saída de Anchieta e Imigrantes. Acredito que, quando todas estiverem em operação, o motorista pagará dois pedágios na ida e dois na volta em todo o trajeto.

Conclusão
Meu veredicto final (ou inicial, já que foi minha primeira jornada pelo Trecho Sul): o Rodoanel é ótimo, mas não se converterá no meu caminho de dia-a-dia. A distância mais que o dobro da convencional faz com que o consumo de combustível seja superior. Isso, acrescentado aos pedágios que já existem e aos que existirão, faz com que o caminho não seja propriamente muito econômico.

Encaro o Rodoanel como uma alternativa. Para aqueles dias em que São Paulo está um verdadeiro nó, em que ninguém anda na Bandeirantes, em que todas as alternativas estão tomadas, em que só os motoqueiros - e olhe lá - conseguem circular.

E, claro, espero que o Rodoanel absorva o tráfego dos caminhões e seja a válvula de escape que São Paulo tanto precisa.

E vocês? Já passaram por lá? Concordam ou discordam dessas minhas avaliações? Contem o que acharam!

Fotos: Olavo Soares

A eleição paulista mais emocionante em 2010

Com os nomes já postos à mesa, já não vivemos mais aquela fase da especulação sobre quem serão os candidatos aos determinados cargos. Agora é hora de se debruçar sobre pesquisas e análises para ver como andarão os nomes já apresentados pelos partidos.

A situação faz com que em São Paulo a eleição para o governo estadual seja transformada, até terceira ordem, num baita marasmo. Como José Serra foi confirmado o candidato tucano à Presidência da República, não tentará a reeleição ao governo; e o PSDB não deu bola à possíveis pressões internas e confirmou o nome de Geraldo Alckmin. Tarimbado, bem-visto pelo eleitorado paulista, Alckmin será eleito novamente e tem tudo para levar a fatura no primeiro turno.

O PT lançará Aloizio Mercadante para disputar com o ex-governador. Apesar de ser uma candidatura mais lógica, mais coerente e mais respeitável que a de Ciro Gomes, está fadada ao fracasso. Há quem diga que o PT precisa repetir candidaturas para ter sucesso na busca pelo controle do estado; já eu avalio que Mercadante abrirá mão de uma tranquila reeleição ao Senado para apanhar feio de Alckmin e prejudicar sua reputação política.

O prejuízo não ficará pior para o PT porque, pelas pesquisas que têm sido divulgadas, o partido tem tudo para faturar com facilidade uma vaga no Senado. E na pessoa de Marta Suplicy - ex-prefeita paulistana que, embora tenha deixado o cargo bem-avaliada, fracassou na busca de sua reeleição e também na tentativa, em 2008, de retomar o cargo.

Os números são impressionantes e deixam claro que Marta vencerá, sim, a eleição (e formará uma interessante bancada ao lado de seu ex-marido Eduardo - caso único na política nacional?).

O bicho pegará para a segunda vaga - e é ai que entra a "emoção" que cito no título do post.

Pelo levantamento do Datafolha, Romeu Tuma (DEM, o atual senador), Orestes Quércia (PMDB), Netinho de Paula (PCdoB) e Soninha (PPS) estão próximos entre si, com vantagem para os dois veteranos.

O que Tuma e Quércia têm de superior em relação a Netinho e Soninha é justamente o fato de representarem um eleitorado mais à direita, que talvez não queira abrir mão de se ver representado no Senado - Aloysio Nunes (PSDB), que poderia ser o outro nome dessa categoria, não tem um bom desempenho e é difícil imaginá-lo indo muito mais além do que o registrado atualmente (o fato de ser o nome dos provavelmente vitoriosos em São Paulo Alckmin e Serra não muda muita coisa - é só ver o desempenho pífio que José Aníbal teve em 2002).

Por outro lado, o potencial de crescimento de Tuma e Quércia é menor que os de Netinho e Soninha. Tanto Tuma quanto Quércia são velhos na política e não é muito crível imaginar que seus eleitorados possam evoluir muito. Netinho e Soninha desfrutam de uma fama à parte da política que pode contribuir, e muito, para que eles voem mais nessa caminhada.

Taí uma eleição que tem tudo para ser decidida voto a voto.

terça-feira, 23 de março de 2010

Bola fora demagógica

Repercute notícia divulgada hoje em vários veículos sobre uma decisão da coordenação da candidatura de Marina Silva (PV) à presidência: a da não-contratação de um "marqueteiro" para a campanha. "A gente não acha que a imagem da Marina deva ser transformada ou vendida como um produto", é a declaração de Alfredo Sirkis, vereador do Rio de Janeiro e coordenador da campanha de Marina.

As falas de Sirkis e Marcos Mroz, também coordenador da campanha e citado no texto, sugerem que a campanha de Marina primará pela "naturalidade". Uma espécie de oposição à candidaturas "artificiais", "impostas", "fajutas" ou qualquer outro adjetivo similar.

Cá entre nós: a decisão - ou melhor, seu anúncio - só não é uma bobagem completa porque pode ter algum impacto eleitoral, por menor que seja.

Em primeiro lugar, pelo que segue no texto: No lugar do marqueteiro, haverá uma equipe de vários profissionais de comunicação. "Estamos trabalhando com tudo o que os outros terão. Teremos pesquisas, diretor de arte, redator etc. Só não teremos um cara acima do bem e do mal", diz Marco Mroz, outro coordenador da campanha. Ou seja: a campanha de Marina não será a "espontaneidade" toda que sugerem Sirkis e Mroz ao anunciar a decisão. Será uma campanha comandada por profissionais, baseada em suas decisões, em pesquisas, em levantamentos - ou seja, em marketing. Por mais que não haja um "marqueteiro" (ô palavra feia!), será, sim, uma campanha que terá o marketing como ferramenta das mais importantes.

E, pra completar, entristece ver gente importante como os coordenadores de duas campanhas de peso se referindo assim ao marketing político. Achei que já tivesse passado o tempo em que o marketing político fosse equiparado ao "vender sabonete", alegoria sempre citada quando se quer apedrejar a atividade. Não há democracia forte sem um marketing político consistente - ou é preferível que as boas ideias estejam restritas aos porões das casas de seus criadores? Marketing político é pensar uma melhor forma de comunicar a política, de se levar ideias aos eleitores, de aprimorar o contato.

Há gente que usa o marketing político pra maquiar pessoas ruins e enfiar maus candidatos pela goela dos eleitores? Evidentemente que há. Mas resumir o marketing político a isso é triste. E fazer demagogia com base nessa assertiva é tão triste quanto.

Emenda Ibsen, pré-sal e políticos paulistas

O assunto da política nacional é a questão do pré-sal - mais especificamente, a divisão de seus royalties -, por conta da emenda Ibsen, que prevê uma distribuição mais equalitária dos recursos em detrimento de uma proposta anterior, que beneficiava os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Sem querer entrar no mérito técnico da coisa - até porque, para ser sincero, ainda não formulei opinião precisa a respeito -, gostaria de avaliar o caso e seus desdobramentos para os políticos paulistas nas eleições de 2010.

Meu amigo Walter Martins escreveu que a questão, apesar das perdas financeiras, acabou sendo benéfica para o governador fluminense, Sérgio Cabral Filho. Walter tem razão; ao mostrar poder de mobilizar as pessoas de seu estado, Cabral se posiciona como líder e angaria (ainda mais) a simpatia das pessoas do seu estado.

Trago a coisa para o lado de cá da Via Dutra. Para nós, paulistas, a questão não tem o mesmo impacto que tem para a população do Rio - ainda que, obviamente, seja das mais relevantes.

O que eu acredito é que um candidato paulista precisa ter uma posição firme sobre a questão. Não acho que exista um caminho mais ou menos certo, em termos eleitorais; não arriscaria dizer algo como "ser a favor da emenda Ibsen traz mais votos" ou coisa parecida. Isso não faria sentido.

A questão é que o paulista - assim como qualquer brasileiro - quer ser representado por alguém que tenha convicções semelhantes às suas. As pessoas estão formulando opiniões sobre o caso e gostariam de vê-las tendo eco nos congressistas a quem elegeram.

Para quem vai se candidatar em 2010, o caminho a respeito da questão do pré-sal está delimitado por aí: criar com base nos acontecidos uma postura e defendê-la. Por exemplo, escrevendo artigos ou sendo fonte de entrevistas a respeito - a imprensa sempre quer ouvir a opinião de líderes políticos a respeito dos temas em relevância, colocar-se como um deles é algo que traz resultado.

Repito: o eleitor quer ser representado, quer votar em alguém que pensa como ele. Mostrar que se é uma dessas pessoas é a iniciativa ideal.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Lula, absurdamente Lula

O Ibope divulgou hoje a mais nova pesquisa com as intenções de voto para a disputa presidencial. O levantamento era dos mais esperados - afinal, ele determinaria a "chegada" de Dilma Rousseff ou mostraria que José Serra ainda é favorito.

Os números estão no blog do Fernando Rodrigues: Serra ainda lidera nas pesquisas estimuladas. Sua diferença para Dilma é, hoje, de 5 pontos. A pesquisa aponta que a candidatura de Aécio não desfruta de nenhum alicerce e que Ciro e Marina se consolidaram mesmo como nomes intermediários - gozando das benesses e problemas que tal condição traz.

Mas o mais interessante do levantamento não são os resultados das pesquisas estimuladas, e sim das espontâneas. E é com base nesses valores que o PT pode fazer uma baita festança para comemorar os resultados.

Qual o candidato que os brasileiros mais gostariam de votar para presidente? Acertou quem disse Luiz Inácio Lula da Silva! O atual presidente tem 20% das respostas na pesquisa espontânea. Um quinto do eleitorado nacional. E em segundo lugar vem Dilma Rousseff, com 14%.

Ou seja: mais de um terço dos brasileiros votariam no PT para a presidência hoje, em uma resposta espontânea. Isso é muita, mas muita coisa. Imensamente mais do que os 35% que Serra tem na pesquisa estimulada - na espontânea, o tucano tem apenas 10%, e é o terceiro colocado.

É claro que a exposição pública de Dilma em comparação à retração de Serra explicam parte desses números. Por outro lado, é bem difícil crer que quando Serra se lançar às ruas ele conseguirá reverter esses patamares.

Ainda há muita coisa para acontecer nessa campanha. Mas nunca a vitória de Dilma - e de Lula, e do PT - se mostrou tão tangível.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A vez do PSB

Ontem foi a vez de mais um partido com pré-candidato à presidência exibir seu horário eleitoral gratuito - o PSB de Ciro Gomes. Taí a peça:



Há muito o que se observar no programa. Pontos muito positivos, alguns negativos, e outros que deixam no ar algumas questões.

Entre os pontos positivos, está a precisa participação de Ciro Gomes. Ciro aparece como figura principal, mas de maneira mais sutil e mais bem-feita do que ocorreu com Dilma e Marina nos horários de PT e PV, respectivamente. Natural: dos quatro pré-candidatos à presidência, Ciro é, com sobras, o de melhor oratória e o que mais teria condição de conduzir um programa publicitário.

Então o "deputado" (é estranho chamá-lo assim) falou bem sobre as conquistas do governo Lula, deixou claro que foi fiel ao presidente e que defende a manutenção de suas conquistas. Acho que a maior riqueza do vídeo está justamente em seu início, quando ele cita o "Fla-Flu partidário". Ciro sugere que as disputas eleitorais no Brasil não podem se resumir à briga PT-PSDB e coloca o PSB - ou melhor, coloca a si próprio - como a melhor alternativa para isso.

Mas aí vêm os defeitos do vídeo. O maior deles é o excesso de sotaque nordestino. Calma, calma, não tô sendo racista. Só quero destacar o fato de que o Brasil é mais que o Nordeste. Alguém viu na peça alguma menção - por menor que seja - aos três estados do Sul do Brasil?

Não se pode esquecer que, em 2006, Lula perdeu nos três estados do Sul. E é lá que está a população menos simpática a algumas das políticas sociais do governo Lula. O programa do PSB simplesmente ignora a porção setentrional do nosso país e serve de argumento para que parte das pessoas de lá falem que o governo federal só "explora" os três estados.

É claro, é óbvio que isso se explica pelo fato do PSB não ter nenhum governador na região. Mas certamente têm lideranças gaúchas, paranaenses e catarinenses que poderiam aparecer no programa e dar um caráter mais nacional ao vídeo.

De certo modo, o PSB deixa clara qual será a sua linha de campanha caso Ciro Gomes efetivamente dispute a presidência. Ciro é bom, muito bom de discurso - repito, melhor que Marina, Dilma e José Serra - e tem tudo para dar uma bela dor de cabeça ao bipartidarismo que se sugere no pleito. Mas ainda há o que evoluir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Briga boa

Vem do Pará uma notícia interessante: o PMDB local teria oficializado sua ruptura com a gestão de Ana Júlia Carepa (PT), a quem apoiara na eleição de 2006, e por consequência teria também confirmada a ideia de lançar uma candidatura própria para o governo do estado.

O nome peemedebista para a disputa? Ninguém menos que Jáder Barbalho.

A informação aponta ainda que a candidatura de Barbalho teria como principal fiador o presidente nacional do PMDB, Michel Temer.

Ao que tudo indica, Ana Júlia Carepa não desistiria da disputa.

O que levaria a uma disputa "fratricida" dentro do estado - fratricida porque, apesar de rivais, Carepa e Barbalho dariam seus palanques para a candidatura presidencial de Dilma Rousseff. Ou seja: ainda que o bicho pegue em proporções astronômicas, a beneficiada será a indicada de Lula para o Planalto.

Se por uma eventualidade a tentativa de reeleição de Ana Júlia não decolar, os petistas do estado talvez se vejam obrigados a endossar a candidatura de Jáder Barbalho. E aí no Pará se desenrolará um cenário análogo ao do Maranhão: o PT local tendo que beijar a mão de antigos oponentes, algo de deixar enrubescidos os petistas históricos da região.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Hipocrisia que prejudica

O PV veiculou ontem seu programa partidário gratuito - aqueles dos quais os partidos dispõem e que, teoricamente, servem para que as legendas exponham suas diretrizes gerais, sem enfoque em um ou outro candidato. Vejam a peça:



Taí, belo "programa partidário", hein? A obra é uma propaganda descarada da pré-candidatura da senadora Marina Silva (AC). Um escritinho "vote Marina, número 43" no final é o que bastaria para que o filme se convertesse em um esquete perfeito do horário eleitoral, sem que nenhuma outra alteração fosse necessária.

Não chego a condenar os verdes por isso. A campanha de Marina não é a única na rua. Nem a mais explícita; Dilma Rousseff tem inaugurado até recapeamento de asfalto e esteve ao lado de Lula inclusive na ocasião em que o presidente deixou o hospital de Pernambuco no qual esteve internado (ainda que o TSE não entenda as ações como propaganda). O PSDB segue um pouco mais tímido - até porque o próprio partido ainda não conseguiu fechar, de maneira "redonda", a candidatura de José Serra.

Ao meu ver, o que Dilma, Marina e em breve José Serra estão fazendo pode suscitar outra discussão: até que ponto cabe essa hipocrisia de "pré-candidatura"? Por que a lei não pode permitir que o PV ou o PT exponham, com todas as letras, que têm nomes para a disputa presidencial? Pode-se alegar que ambas as candidatas têm mandatos (assim como José Serra) em curso, e que por isso têm atribuições específicas a cumprir; faz sentido, mas a restrição também se aplica a quem não tem mandato nenhum e pode se dedicar de corpo e alma a uma campanha.

Acho que seria melhor para todos os envolvidos - e para a democracia - se as candidaturas pudessem ser colocadas na mesa de forma transparente. Para que o eleitor pudesse, desde já, ir formando sua consciência e tendo ideia de como direcionará seu voto. Essas hipocrisias do período pré-eleitoral são chatas, bem chatas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O palestino que quer governar o Texas

A revista Politics Magazine, uma das mais famosas do EUA na área de campanhas políticas, divulgou na sexta passada os vencedores do Reed Awards, premiação que entrega àqueles que, na avaliação da revista, fizeram as melhores campanhas eleitorais no ano passado.

De cara, é interessante para nós brasileiros vermos as diferenças monstruosas que há no fazer política lá e aqui. Enquanto no Brasil a coisa é ainda tímida e restrita aos períodos eleitorais, nos EUA a atividade (como tudo por lá, aliás) é viva e se movimenta em diversas dimensões. O Reed Awards deu prêmios, por exemplo, para os melhores "vilões" e as campanhas mais "duras". Alguém imagina isso no Brasil?

Na categoria melhores anúncios para a TV, um prêmio chama a atenção. Foi o destinado à campanha de Farouk Shami. Vejam o anúncio:



Não chega a ser nada exatamente inovador. Mas, com uma googlezada rápida, vemos que Farouk é uma figura interessante e que seria digno de muitas, muitas análises.

Uma única característica de Farouk já justifica seu aspecto curioso: ele é palestino. E nascido na cidade de Ramallah. Tá bom ou quer mais?

É (obviamente) naturalizado americano e construiu sua fama no Texas como um bom empresário. Assim, inclusive, que alicerçará sua campanha - "as big as Texas" é o seu slogan, sugerindo que como governador fará pelo estado o mesmo que faz em suas empresas.

Ainda faltam muitas etapas para que Farouk efeitvamente governe o segundo estado mais populoso dos EUA. A primeira delas é vencer a disputa pela indicação do Partido Democrata para que ele seja o candidato da sigla. A eleição propriamente dita acontece apenas em novembro (aliás, isso também sugere outro tema para debate - os EUA têm essa transparência de se colocar uma pré-candidatura na rua, ao contrário da hipocrisia do "estou à disposição do partido" que reina no Brasil).

Mesmo que não seja o vitorioso, é interessante pensar que é viável imaginarmos que um palestino pode governar o Texas. Curioso.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A candidatura Gabeira é mais do que um "palanque de Serra"

Os jornais noticiam hoje que o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) topou sair candidato ao governo de seu estado. A aliança que sustentará sua candidatura deverá também ter a participação de PSDB, PPS e DEM.

A notícia é importante pelos vários desdobramentos que a cercam. O primeiro é que, vencendo ou perdendo, se realmente se confirmar candidato Gabeira não estará no Congresso a partir de 2011. Nos últimos anos, Gabeira tem sido um dos deputados de maior relevância na Câmara e se tornou uma espécie de "farol ético" na casa - principalmente após seu quebra-pau com Severino Cavalcanti.

É também surpreendente a participação de Gabeira na disputa pelo governo porque seu nome era dado como certo ao Senado - o próprio deputado havia dado declarações dizendo que não concorreria ao governo porque não teria como fazer frente à candidaturas mais estruturadas, principalmente à do atual governador, Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Mas, em nível federal, a principal consequência do anúncio de Gabeira será o peso de sua candidatura à corrida presidencial. Os partidos que devem apoiar o seu PV são os "três mosqueteiros" da oposição a Lula, e comporão a chapa de José Serra na disputa ao Planalto. Com a confirmação da aliança, Serra terá o famigerado "palanque estadual" que os tucanos temiam que não ocorresse no Rio.

Sabemos que o sucesso de uma candidatura não necessariamente leva a outra candidatura aliada a também desfrutá-lo. Ou seja: ainda que Gabeira arrebente na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, não se pode afirmar que José Serra também terá boa votação no estado. Claro que uma coisa não é totalmente incompatível da outra, mas também não é tão automática como muitos pressupõem. Serra terá que ralar no estado da segunda maior cidade do Brasil, até porque a popularidade de Lula por lá é das mais fortes.

Mais do que um "palanque para Serra", o principal resultado da aliança Gabeira-trinca oposicionista é a possibilidade de ver a união PV-PSDB-DEM-PPS se repetindo no plano federal. Muito se fala que a pré-candidatura de Marina Silva seria uma espécie de "suporte" ao projeto de José Serra; e até mesmo a possibilidade da senadora se inscrever como vice do paulista tem ganhado corpo. Agora, com o principal expoente do PV se unindo aos partidos de oposição na disputa por um governo estadual, as especulações fazem mais sentido que nunca.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sobre o filme do Lula... ou melhor, o filme e o que o cerca

Quando tomou corpo o fato de que estava sendo produzido o "filme do Lula", muitas análises já começaram a pipocar por aí. Elas ficaram ainda mais fortes quando se divulgou que o filme estrearia no início de 2010, ano em que o Brasil elegerá justamente o sucessor do atual presidente da República. Tornaram-se mais presentes quando o filme iniciou sua materialização em traillers na internet e nos cinemas. E agora, quando o filme já está em circuito comercial e pode ser visto por todos os interessados, estão abertas a quem queira fazê-las.

Grande parte delas não tem como objeto Lula, o filho do Brasil, e sim a carreira política do presidente e a eleição que determinará quem o sucederá. Ou seja: mais do que discutir o filme em si, o que mais se fala da obra é o contexto que a cerca.

Inevitável, claro. Lula não é o primeiro presidente/líder político a ter sua carreira retratada na dramaturgia. Nem mesmo no Brasil: há poucos anos, JK fazia sucesso na Rede Globo. Mas o filme é uma exceção por se tratar de uma personalidade política no auge de sua carreira. Ainda que a história contada na obra se encerre muito antes de Lula ser o que é hoje, e ainda que o atual presidente não dispute eleições em 2010, é uma situação, digamos, desconfortável.

Assisti ontem ao filme. Para não cair no senso comum de escrever laudas e laudas sobre a influência da obra sem conhecê-la.

E saí do cinema com a seguinte opinião: é pouco provável que Lula, o filho do Brasil influencie a corrida eleitoral de 2010. Não é preciso dizer que Dilma Rousseff nem nenhum outro pré-candidato deste ano não chega a ser sequer citado na obra - ou seja, uma relação direta não pode ser estabelecida. O máximo que a obra pode fazer é impulsionar um pouco mais o prestígio de Lula - o que, no cenário atual, no qual esse prestígio já está pra lá de elevado, não chega a ser uma consequência das mais determinantes.

Num Brasil em que não se consegue definir a inteligência do povo - ou melhor, se atribui inteligência ou burrice popular de acordo com o que queremos que o povo pense - a distância entre "assistir o filme do Lula" e "votar na Dilma" parece ser maior do que muitos consideram.

Talvez seja o caso de pensar no que o filme pode fazer em relação à corrida eleitoral de 2014 - quando, para muitos, Lula tentará a todo custo recuperar a presidência, para suceder seja sua cria Dilma ou um opositor. Mas ainda há muito chão até lá. E não falam que o brasileiro é um povo sem memória?

Sobre o filme em si, cabe destacar também a impecabilidade da produção, a atuação magistral de Rui Ricardo Diaz (o que pode ser um fardo para o ator) e, falando de maneira bem pessoal, um "orgulho bairrista" de ver as para mim tão comuns paisagens de São Bernardo retratadas em gravações de alta qualidade.

Ah, e pra fechar: um dos momentos mais importantes do filme acontece ainda antes do seu início, em uma citação que talvez não possa ser vista pelos adeptos de cópias piratas. Na tela preta do cinema, caracteres aparecem com soberania e autoridade para dizerem que "o filme foi produzido sem o apoio de leis de incentivo, graças ao apoio de patrocinadores". Interessante. Bem que mais grandes produções nacionais poderiam seguir a trilha, e não apenas um ligado ao universo político, não?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Senado paulista: balaio de indefinições

O início da semana para a política tem sido marcado pelas repercussões da desistência de Aécio Neves à candidatura presidencial e pela divulgação da pesquisa Datafolha que, também falando sobre a corrida ao Planalto, indicou uma aproximação entre José Serra e Dilma Rousseff.

O Datafolha divulgou mais índices. Na disputa pelo governo de São Paulo, nenhuma surpresa: Geraldo Alckmin lidera com folga. Arrisco que se nenhuma hecatombe acontecer (como até mesmo uma aparentemente improvável desistência de José Serra à sucessão de Lula), Alckmin e Dona Lu já podem ir pensando como decorarão seus escritórios no Palácio dos Bandeirantes.

Mas é sobre outra pesquisa divulgada pelo Datafolha que gostaria de me pautar. Falo da disputa pelas duas vagas no Senado, a serem renovadas agora. Acredito que aí está a eleição majoritária mais imprevisível para os paulistas no ano que vem.

Dois senadores encerrarão seus mandatos em 2011: Aloizio Mercadante (PT) e Romeu Tuma (PTB). Até terceira ordem, ambos buscarão a reeleição no pleito do ano que vem. Mercadante, apesar do péssimo desempenho na eleição de 2006 e de alguns tropeços (o mais recente foi o caso "irrevogável"), deve ser eleito. Tem muita visibilidade, condensará os votos paulistas para Lula, e é bom no jogo político.

O bicho deve pegar mesmo para a vaga de Tuma.

Ele tem hoje 27% das intenções de voto. É o segundo colocado - ou seja, estaria (re) eleito.

Mas a distância que tem para seus seguidores é pequena, muito pequena, o que deixa claro que seu favoritismo não é dos mais sólidos.

Analisemos quem vem atrás de Tuma, praticamente empatados com o senador. Orestes Quércia (PMDB) é uma figura curiosa. Venceu sua última eleição em 1986 mas exerce ainda uma liderança única em São Paulo - foi reeleito recentemente presidente do PMDB estadual, com votação das mais expressivas. Tem, agora, 24 das intenções de voto. Eu acreditaria que não tende a avançar mais que isso. Seu patamar inicial é alto, mas tem certa rejeição e, aparentemente, pouco a evoluir.

Acredito que as figuras mais interessantes da disputa sejam os "artistas" Netinho de Paula (PCdoB) e Soninha Francine (PPS). Ambos têm agora 22%. É muita, mas muita coisa para quem ainda não se posicionou formalmente como candidato e pertence a partidos de porte médio ou pequeno. Sem contar que ambos terão o respaldo de candidaturas de grande porte - Netinho deverá ser o "segundo nome" da chapa petista, enquanto Soninha pegará carona na candidatura do PSDB. Ainda não se sabe se os dois se formalizarão candidatos (Netinho parece estar mais disposto), mas eu veria neles nomes de expressivo peso.

Já mais distantes estão Gabriel Chalita (PSB) e Paulo Renato (PSDB). Apesar dos baixos índices que têm hoje, não devem ser descartados, pelo peso que ambos têm na política local - vale lembrar que Chalita foi o vereador mais votado em 2008 e Paulo Renato foi bem na disputa para deputado em 2006. Aliás, no caso de Renato, se deve pensar se ele realmente se arriscará a perder uma relativamente tranquila reeleição para a Câmara.

Desde já, a disputa para as vagas paulistas no Senado vai se marcando como uma das mais interessantes das eleições no ano que vem. Alguém tem algum outro palpite?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Sai Aécio, ganha Dilma - exagero?

A essa altura todo mundo já sabe que o Aécio Neves desistiu da pré-candidatura à presidência, certo? Caso contrário, vejam matéria do O Globo a respeito.

No Twitter, onde abordo as coisas mais em tom de brincadeira, comentei a renúncia de Aécio com apenas duas palavras: Dilma eleita. Agora desenvolvo um pouco mais o assunto, mas já adianto que o foco continuará o mesmo.

Aécio não permitiu perguntas na cerimônia em que anunciou a desistência. Mas, sobre os motivos dela, nem era necessário: ele vinha atrás de José Serra em todas as pesquisas e não estava conseguindo canalizar o apoio de setores consistentes do PSDB em torno dele. Por incrível que pareça, os principais incentivadores de sua campanha vinham do outro lado da disputa, como Ciro Gomes.

Acompanho raciocínios de muita gente sobre a ex-pré-candidatura de Aécio Neves. Assim como meu amigo Alan Kardec Borges, acho que Aécio tinha mais potencial de crescimento do que José Serra - se o paulista tem mais indicações do público agora, a pouco menos de um ano da eleição, é por ser mais conhecido. E o cientista político Gaudêncio Torquato fez outra análise que endosso: com a saída de Aécio, a disputa Serra x Lula passa a ser mais um capítulo da peleja Lula x Fernando Henrique que se desenrola no Brasil desde 1994, tendo agora como jogadores José Serra e Dilma Rousseff. Com a aprovação que recebe o governo petista atual, é praticamente impossível acreditar que o eleitor não queira optá-lo por sua continuidade.

Talvez a saída de Aécio da corrida também seja uma maneira de fazer com que ele se garanta no lugar de candidato a vice (mal comparando, é como a postura do estado de São Paulo de encher a bola do Rio de Janeiro como sede da final da Copa de 2014, buscando com isso receber apoio carioca para sediar a partida de abertura). Essa hipótese se fortalece se pensarmos que o DEM, com o escândalo de José Roberto Arruda, perdeu "moral" para ocupar uma vaga naturalmente sua.

De quebra, a saída de Aécio foi também muito comemorada pela família Alckmin: a corrida de Serra ao Planalto faz com que Geraldo se torne o candidato natural ao governo paulista, em uma disputa antecipadamente ganha.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Eymael: agora, candidatura é para vencer

Desde o final de novembro, Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva, Ciro Gomes e Aécio Neves têm companhia. José Maria Eymael, do PSDC, é mais um pré-candidato à Presidência da República.

Apesar de dois bem-sucedidos mandatos como deputado federal e de ter disputado a Presidência em duas ocasiões (1998 e 2006), Eymael é pouco conhecido do eleitorado – seu nome é mais atrelado ao jingle que o acompanha desde 1985 - e, até segunda ordem, sua candidatura dificilmente fará frente à dos nomes mais destacados na disputa.

Mas, apesar das condições inócuas, Eymael acredita em possibilidades concretas de vitória, pautadas em dois fundamentos: o primeiro é algo que ele identifica como sendo uma demanda popular para uma “candidatura de centro”; o outro é a transformação que a política nacional tem passado após a aprovação da minirreforma eleitoral ocorrida neste ano, que permitiu um uso mais amplo da internet para as campanhas. “Essa própria entrevista que estou te concedendo é um exemplo disso”, diz o pré-candidato.

Eymael e o Blog Olavo Soares conversaram no início do mês no escritório central do PSDC, em São Paulo. A motivação para a entrevista foi o post “... um democrata cristão”, em que a candidatura à presidência de Eymael fora criticada. “Acho que nosso trabalho não tem sido bem divulgado. Então eu quero dar mais e mais entrevistas, aproveitar todas as oportunidades”.

Por que mais uma candidatura à Presidência, se uma disputa por uma vaga de deputado seria uma alternativa mais viável?
Para responder, tenho que contar uma história. Você se lembra de quando eu fui candidato a prefeito em 1985? Foi para passar a imagem da democracia cristã. Em 1965, com o Ato Institucional número 2, os partidos políticos foram extintos, e a democracia cristã fica ausente no Brasil. Até 1985, com a abertura. O PDC [Partido Democrata Cristão] fora fundado e seus dirigentes sabem que em São Paulo havia um antigo militante – e me convocam para organizar o partido aqui. Eram as primeiras eleições diretas nas capitais, após 20 anos. Um momento mágico, uma ebulição. Decidimos disputar a prefeitura, para marcar que havíamos voltado. Concorri com Jânio [Quadros, que venceria a eleição], Suplicy [Eduardo, atualmente senador pelo PT], Francisco Rossi [ex-prefeito de Osasco]... Foi então recriada a democracia cristã, e em 1986 o PDC elegeu cinco deputados constituintes. Fui votado em todos os municípios, graças à mensagem da democracia cristã, passada em 1985 e repetida na eleição de 1986. Em 1990, fui reeleito deputado. Em 92, elegemos quase 500 vereadores no estado de São Paulo. E, só um ano depois disso, acontece a segunda tragédia da democracia cristã, uma decisão equivocada da direção nacional que promoveu a fusão do PDC com o PDS [atual PP, o partido de Paulo Maluf]. Nossos números eram impressionantes: tínhamos 22 deputados federais, dezenas de deputados estaduais, três governadores, quatro senadores, quase 500 prefeitos, quase 5 mil vereadores... e num estalar de dedos acabou tudo. Dois anos depois, juntamente com mais 114 companheiros, refundamos a democracia cristã, acrescentando o S na antiga sigla – e o partido passa a se chamar PSDC. Veio 1998 e eu tinha duas alternativas: ou vou para a disputa de deputado federal, volto pro Congresso, ou desfraldo a bandeira do PSDC no Brasil inteiro pra mostrar que a gente voltou...

Como aconteceu em 1985?
Exatamente. Fazendo o mesmo papel. Mostrando que nós tínhamos voltado. Começamos a crescer, fizemos um pouco de vereadores, um pouco de prefeitos... e o divisor de águas nesse processo de crescimento foi a eleição de 2006. Naquele ano, escolhemos uma estratégia. Precisávamos mostrar duas coisas: que éramos um partido organizado em todo o país, um partido nacional; e que nós éramos um partido independente, que não estava na folha de pagamento de ninguém. Então convocamos os principais líderes nossos, que tinham condição de se eleger deputados federais, e os lançamos a governador. E eu disputei, novamente, a Presidência da República. Não mais com o objetivo de dizer que tínhamos voltado, mas para dizer que o partido era nacional e independente. O resultado dessa estratégia já colhemos na eleição de 2008: mais de 1,330 milhão de votos para vereador. Hoje, o cenário é diferente. A democracia cristã cresce, e por quatro motivos. O primeiro é o compromisso com a defesa dos valores e atendimento das necessidades da família. O segundo é a história do partido, que foi por duas vezes destruído e ressurgiu. O terceiro é a proposta central do PSDC como partido político – transformar o Estado de senhor em servidor. E o quarto pilar do crescimento é a trajetória que vem tendo nas cidades.

E como isso leva até sua pré-candidatura presidencial para 2010?
Eu seria candidato a deputado. Meus companheiros diziam: “você tem que voltar para o Congresso”. Havia uma tendência, aqui em São Paulo, para isso. E eu já tinha concordado. Mas então tivemos o terceiro Congresso Nacional da Democracia Cristã [realizado em agosto], no Rio de Janeiro. No final dele, fiquei preocupado. Vi que o PSDC se tornaria uma “colcha de retalhos”, já que os líderes locais apóiam candidatos ao governo que têm, cada um, suas preferências para a disputa presidencial. Toda essa unidade nacional que temos poderia estar ameaçada. E aí nossa assessoria de marketing, pesquisando a internet, viu um blog chamado Mente Conservadora. O articulista do blog fez um raciocínio: todas as pré-candidaturas à Presidência já declaradas estão do mesmo lado, têm o mesmo discurso. Um discurso ou de esquerda, ou de centro-esquerda. E ele dizia: “na eleição passada, eu ainda tinha uma alternativa – no segundo turno votei no Alckmin [Geraldo, do PSDB], mas no primeiro votei no Eymael. Mas agora não tenho em quem votar”. Isso nos fez pensar muito. Foi um ensinamento que a sociedade nos deu: não tem ninguém no centro. E nós somos um país que precisa de uma alternativa no centro.

E o senhor se coloca como sendo um candidato precisamente de centro, ou de centro-direita?
De centro. Somos autores da maior parte das conquistas dos trabalhadores na Constituição de 1988. Esse é o nosso cenário. E a visão foi se cristalizando: não só o PSDC queria uma candidatura própria, mas a sociedade a queria. Em outubro, realizamos em Aracaju o encontro dos presidentes dos diretórios estaduais do PSDC. E lá, vários companheiros diziam o seguinte: “enquanto discutimos aqui, a sociedade exige que lancemos uma candidatura!”. Foi muito interessante essa observação. Fora da gente, a candidatura estava sendo impulsionada. No final do encontro, chegou-se à conclusão que o PSDC deve ter uma candidatura própria à presidente - numa resposta àquela parcela da população que não se sente representada naquelas candidaturas já colocadas. E não há nem mais o propósito de 2006, nem o de 1998. Agora é realmente uma campanha pra disputar. Não que a anterior não fosse, todas foram; mas nós sabíamos das nossas limitações. Agora não, nós vamos disputar para ganhar.

E como o senhor avalia as chances de vitória no ano que vem?
Temos um cenário novo, completamente novo. Essa entrevista que estou dando para você, se fosse realizada em 2006, poderia fazer com que o Ministério Público entrasse com uma ação contra mim por propaganda antecipada. Eu só podia dar entrevistas após a convenção – ou seja, a partir de julho. Teria julho, agosto e setembro. Agora eu posso dar entrevistas para rádio, televisão, jornal. Só não posso pedir votos; posso falar propostas, princípios, histórias. Então nossa primeira estratégia é usar essa abertura imensa que a reforma eleitoral permitiu. Falando, no Brasil inteiro, da temática da democracia cristã, da proposta de transformar o estado de senhor em servidor. Sabemos que quando as pessoas conhecem a democracia cristã o efeito que ocorre é fantástico. E a legislação estabeleceu isonomia de candidatos. Está no texto da lei.

Qual a expectativa do senhor para o dia-a-dia da campanha?
Vai ser uma campanha muito forte. E é uma candidatura que se espera [por parte da população], não uma utopia. Vai ter muita gente que vai querer se engajar, num processo realmente forte. Na última vez que fui para Brasília, tomei um táxi e o taxista me reconheceu. E disse: “na eleição passada, em 2006, eu e minha patroa gostávamos de você. Mas não votamos no senhor, e sim no Lula, porque tínhamos certeza que ele iria cuidar dos pobres. Mas essa Dilma... essa Dilma!”. E isso me faz pensar: quantas outras famílias podem ter essa mesma ideia?

Uma coisa que marcou o senhor na eleição passada foi a questão da cadeira vazia [nos debates para o primeiro turno da eleição presidencial de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu, e sua ausência foi criticada por todos os candidatos; José Maria Eymael fez menções, no horário eleitoral, à “cadeira vazia” deixada pelo presidente]...

Sim, a cadeira vazia... marcou mesmo. Mas eu tenho um bom relacionamento com o Lula. Fomos constituintes juntos. E, no segundo turno de 2002, o PSDC apoiou o PT. A frase “a esperança venceu o medo” tem origem na gente! A nota oficial que fizemos de apoio ao Lula foi emitida no dia seguinte em que a Regina Duarte, no horário eleitoral, disse que tinha “medo” do Lula. Na nota, falávamos: “no momento em que, na sucessão presidencial, a força da esperança se opõe às forças do medo, o PSDC apóia as forças da esprança e apóia Luiz Inácio Lula da Silva”. Quando passamos isso para o coordenador de campanha do Lula ele sacou que a frase era forte, e fez a junção em “a esperança venceu o medo”. No mesmo dia, à noite, a frase já estava no site do PT.

Como é a relação do senhor com o jingle que leva seu nome, o “ei, ei, Eymael”?
O jingle é a minha pele... Vou te contar como ele nasceu. Estávamos em uma reunião, em 1985, para definir com que nome eu seria candidato a prefeito. A reunião chegava ao seu fim, e com uma certeza: eu poderia ser candidato com qualquer nome, menos Eymael. Poderia ser JM, José Maria, mas Eymael jamais, o povo teria dificuldades em pronunciar. Nisso, um companheiro nosso, o José Raimundo de Castro, alfaiate e compositor de música popular, ergueu o braço e disse: “mas se a gente ensinar o povo a dizer Eymael, ele não esquece mais”. E pediu dois dias para tentar encontrar um jeito para isso. Se reuniu com amigos também compositores e, após dois dias, às 17 horas, ele me ligou. Depois ele me contou que pedira para um auxiliar na alfaiataria segurar o microfone enquanto ele tocava o violão. Mas aí ele cantou o jingle. Na hora, senti ali que ele tinha feito um sucesso. Eu disse: “Castro, a partir de hoje devo a você minha história na política”. Foi coisa de gênio! Ele teve a genialidade de ver no meu “Ey” o “ei” brasileiro. Mas, durante muito tempo, houve muita gente que conhecia o jingle, e não o candidato. Então houve um processo, com muito esforço, de mostrar também o candidato – e sem tirar a alegria do jingle. Afinal, ele é um instrumento, e não um fim em si próprio.

O senhor não teme que esse jingle possa criar um “Efeito Enéas” – ou seja, a existência de um voto “brincalhão” que seria direcionado ao senhor?
Sim, isso poderia acontecer. Mas é por isso que nós temos mudado a abordagem de nossos programas eleitorais. É um assunto que preciso administrar, para não cair na brincadeira.

O jingle será usado na campanha de 2010?
De maneira dosada. Agora, eu quero passar minha proposta. Sem tirar a alegria do jingle. Ele terá um lugar na campanha, mas administrado.

O senhor é a principal figura do PSDC, o expoente nacional da sigla. Não teme um partido centrado exclusivamente na sua pessoa?
Nós temos líderes muito fortes, em todas as regiões do Brasil. O partido não tem dono. Mas já cheguei à conclusão que os partidos precisam de líderes de referência.

E o senhor se sente confortável nessa posição?
Sim, me sinto. Isso me incomodava no passado, mas hoje não mais.

Nas últimas eleições, seu filho, que adotou o nome político de Eymael Filho, foi candidato, mas obteve poucos votos. Ele disputará de novo em 2010? Quais as suas expectativas sobre a carreira dele?
Não sei se ele disputa de novo. Ele tem uma aspiração política, mas precisa trabalhar mais. E não achar que só o nome Eymael vai levá-lo ao sucesso. Precisa ir para a rua!

Qual a postura do PSDC em relação ao aborto?
Somos contra, a não ser nas exceções já previstas pela lei hoje [estupro e risco à saúde da mãe].

Descriminalização das drogas?

Nossa postura é de apoio ao dependente, e dureza ao traficante. Mas sem descriminalizar.

Pena de morte?
Somos contrários, em todas as circunstâncias.

União homossexual?
Nossa postura é a mesma da Constituição Federal hoje. A Constituição diz que se deve respeitar a opção sexual das pessoas. Não temos nada contra um contrato civil entre dois homossexuais. O que não concordamos é que se dê a esse contrato a feição de um casamento.

O PSDC tem núcleos de homossexuais, como há em alguns partidos?
Não.

Poderia vir a ter?
Não, não é algo que se encaixa em nossas bandeiras. Por exemplo: a Parada Gay é uma livre manifestação; mas o PSDC não participaria. O PSDC não critica, mas também não integra.

E em relação à obrigatoriedade do voto, o que diz o partido?
Estou convencido que o voto deve ser facultativo. Sou um defensor disso. Hoje, com a obrigatoriedade, os eleitores são levados a uma não-reflexão. Quem vota porque quer, e não porque é obrigado, analisa, examina melhor os candidatos. O que temos hoje é um sistema de fundo partidário e de comunicação com uma profunda, imensa desproporção. Mas acredito que, para 2010, isso não terá tanta influência, por conta da possibilidade que temos de nos posicionar como pré-candidatos um ano antes do pleito.

E isso é mais um motivo para crer em vitória?
É. Será difícil? Claro. Mas há um espaço imenso, como nunca houve, para a democracia cristã. Será o ano mais importante da nossa história. Os brasileiros vão conhecer a democracia cristã.

Fotos: Olavo Soares

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

PT exibe programa caprichado

O PT exibiu, ontem, em rede nacional, seu programa partidário gratuito. Aquele do qual todos os partidos dispõem, com inserções em anos não-eleitorais e que são destinadas à promoção do partido, e não dos candidatos. Em síntese - as peças podem fazer de tudo, menos pedir votos a candidatos futuros.

E a peça impressiona. Sua qualidade técnica é simplesmente irretocável. Não concebo um programa, em termos técnicos, melhor do que esse. Enquadramentos precisos, efeitos especiais na medida, falas bem-estruturadas... enfim, uma obra prima. Sinal que teremos alta qualidade técnica no horário eleitoral do ano que vem. Não vi o programa das outras siglas, alguém pode comentar se o nível está tão alto ou se o PT é uma exceção?

Quanto ao conteúdo, há alguns aspectos interessantes a destacar. Em primeiro lugar: Lula e Dilma aparecem em quantidade quase que igual na peça. Não há muita prevalência de um sobre outro. A figura da "Dilma gerente", enfatizada pelo próprio Lula em entrevistas, é o que se destaca. Dilma aparece sendo a responsável pelos projetos Minha Casa Minha Vida, Pré-Sal e PAC - que curiosamente têm mais espaço na publicidade do que o Bolsa Família, colocado em certa coadjuvância.

Chama a atenção ver também que Dilma é simplesmente chamada de "ministra". Seu cargo completo - ministra-chefe da Casa Civil - não é em nenhum momento mencionado, tanto nas falas quanto nos créditos inseridos abaixo de sua figura. E, com exceção de uma pequena citação de Lula, a figura da "mulher" e seus estereótipos costumeiros também não se faz presente.

Outras figuras do governo Lula aparecem, mas com destaque ínfimo. Uma reunião ministerial forjada tem Dilma na cabeceira e os outros ministros à sua volta. Que não emitem sons, apenas simulam o debate.

Além de Lula e Dilma, as duas únicas "autoridades" a falarem são Ricardo Berzonini e José Eduardo Dutra, respectivamente presidente atual e futuro do PT nacional - suas aparições acontecem para justificar a questão "partidária" do programa.

Como crítica, acho que a menção ao PSDB foi exagerada. Lula e o governo PT gozam de aprovação tamanha que acredito não ser necessária a citação do nome de partido e presidente anteriores. Uma comparação do governo atual com "governos de antes" seria mais interessante. Sabem aquela coisa do "falem mal, mas falem de mim"? Acredito que ignorar o PSDB e FHC seria mais lucrativo.

Vejam abaixo o programa e emitam suas opiniões.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O povo que não concorda comigo é burro

Mais uma pesquisa positiva para Lula: levantamento CNI/Ibope diz que o governo federal tem aprovação (soma de ótimo e bom) de 72%. A mesma pesquisa indica que a figura de Lula é aprovada por 83% dos brasileiros. É a segunda maior aprovação já registrada para o governo, perdendo apenas para a aferida em dezembro de 2008.

Como os números serão avaliados pela classe política? Simples: petistas dirão que é o "reconhecimento popular pelas boas ações do governo", enquanto demo-tucanos retrucarão falando que "as massas estão sendo iludidas por falsas benesses e não conseguem captar a realidade". De quebra, petistas dirão também que Lula é popular apesar da mídia, e a oposição falará que ele é popular por causa da mídia. Ah, e a Globo também será citada como protagonista para tal.

Interessante é que se fizermos uma volta rápida no tempo - mais precisamente, 11 e 15 anos - veremos o "povo" dando uma resposta, nas urnas, diametralmente oposta ao que se vê agora. O candidato Lula era derrotado duas vezes, e em primeiro turno, por Fernando Henrique Cardoso. O que se dizia na época? Petistas falavam que o povo era burro e caía na conversa oficial, enquanto tucanos elogiavam a sabedoria popular em reconhecer um governo que fazia um bom trabalho.

Já está mais do que na hora de se perceber que não se pode cravar a inteligência (ou a falta dela) do povo de maneira tão simplista e abstrata. Nem o "povo" era inteligente em 1998 e emburreceu, e nem era idiota há 11 anos e evoluiu para uma sabedoria ímpar nos dias atuais. A questão é que talvez não exista um "povo" como tal, essa massa tão amorfa, volúvel e sem opinião própria como tradicionalmente é descrita.

Talvez seja o caso de se dedicar um pouco mais de tempo a pesquisas qualitativas, análises mais detalhadas e precisas para que se entenda, de maneira precisa, o que o tal do "povo" anda pensando. Para evitar julgamentos cujo maior parâmetro é a conveniência.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Resultados que ensinam

Ontem, o Santos FC elegeu um novo presidente. Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, com 1.882 votos, venceu Marcelo Teixeira, que teve 1.129. Teixeira tentava vencer sua sexta eleição consecutiva.

Falo mais sobre os aspectos "futebolísticos" da eleição no Futepoca. Aqui, queria abordar mais questões de marketing político que se fizeram presentes na disputa.

Antes de mais nada, é preciso entender como funcionam as eleições do Santos. No clube, votam associados com mais de três anos de filiação. É um universo de cerca de 10 mil pessoas. Mas, tradicionalmente, são cerca de 2.500 os votantes - o voto não é obrigatório.

Num cenário como esse, fica evidente que uma tarefa essencial para ambos os grupos que disputam o poder é a captação de novos eleitores - mais prioritária do que o convencimento e a tentativa de reversão de quem vota do outro lado. Afinal, é mais fácil convencer quem ainda não tem opinião formada do que tentar cooptar aquele que tem posição firme de outro lado.

A oposição do Santos tem atuado nesse sentido desde 2002. Já visando os próximos pleitos, se iniciou aí uma campanha pela associação de torcedores. Além dos benefícios relacionados ao cotidiano de torcedor (como meia-entrada e garantia de ingressos nos jogos), sempre foi enfatizada a possibilidade de colaborar para a modificação dos destinos do clube.

Toda essa situação explica a euforia que estavam apoiadores da oposição santista ontem, ainda antes da apuração, quando foi anunciado o total de votantes: 3.024 pessoas. Acreditava-se que grande parte desse contingente era formada por novos sócios, e, desse grupo, a ampla maioria deveria estar do lado da candidatura de Luís Álvaro.

Quando foi concluída a apuração, os números evidenciaram que a ideia fazia sentido.

Mas é quando comparamos os números de 2009 com os das eleições anteriores é que conseguimos ter certeza da eficácia da tática.

Em 2003, Marcelo Teixeira teve 1.525 votos; Luís Álvaro, 990. Em 2005, foram 1.335 votos para Marcelo Teixeira contra 748 para Paulo Schiff, o escolhido da oposição na ocasião. Teixeira e Schiff se enfrentaram novamente em 2007 - mais uma vitória de Teixeira, que teve 1.367 votos contra 617 do opositor.

E agora, em 2009, Luís Álvaro recebeu 1.882 votos e Marcelo Teixeira, 1.129.

Percebe-se que a votação de Marcelo Teixeira caiu, sim; mas de maneira muito, mas muito menos significativa do que o crescimento dos votos da oposição. Apenas numa comparação entre 2007 e 2009, vê-se que foi um aumento de mais de 200%.

Votos que eram de Marcelo Teixeira e que migraram de lado? Parte deles, talvez. Mas mais que isso, a chave foram os novos eleitores. Gente que não se fazia presente nos outros anos (por inúmeros fatores, entre eles restrições estatutárias) e que agora puderam depositar seus votos.

De certo modo, a eleição de Luís Álvaro lembra, nesse sentido, o triunfo de Barack Obama nos EUA em 2008. O "Yes, We Can" do americano se materializou muito mais com a atração de novos eleitores do que com a retirada de votos dos republicanos.

O recado que fica é um tanto quanto óbvio, mas que vale ser ressaltado: o foco tem que estar nos eleitores, sempre. De nada adianta fazer pirotecnias que só vão alcançar aqueles que não têm poder para reverter a eleição.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"... um democrata cristão"

Release que recebi hoje dizia: em reunião realizada em Aracaju, presidentes dos diretórios estaduais do PSDC assinaram uma conclamação para que o líder maior da sigla, José Maria Eymael (foto), se candidate à presidência da República. Se confirmada, a corrida presidencial de Eymael será a terceira de sua história - ele tentou o Planalto anteriormente em 1998 e 2006, quando obteve, respectivamente, o nono lugar (entre 12 candidatos) e o sexto (entre sete postulantes).

Mais uma vez, é evidente que Eymael disputará o pleito sem chances de vitória. Seu partido é pequeno e sua carreira política é inexpressiva - se pode falar, com sobras, que sua principal realização é ter emplacado o jingle "ei, ei, Eymael / um democrata cristão", um dos mais célebres da história do Brasil (sem exagero algum).

Curioso é que, ao disputar a presidência, Eymael abre mão de uma candidatura na qual poderia ter sucesso - a para a Câmara dos Deputados. Eymael foi eleito deputado federal por duas vezes, em 1986 e 1990. Ancorado na popularidade de seu jingle e nas propostas da democracia cristã, seria um candidato competitivo para a Câmara.

A insistência de Eymael chama a atenção também pelo fato de marcar uma trajetória diferente da que se vê entre os candidatos "nanicos". Geralmente, estes entram em disputas majoritárias para marcar posição, ganhar certa reputação e colher os frutos disso nas eleições proporcionais - Enéas e suas absurdas votações em 2002 e 2006 são exemplos disso. Já Eymael faz o oposto.

Também não se pode dizer que sua candidatura seja um "lançamento do partido", como a que de Heloísa Helena em 2006, quando abriu mão de uma relativamente garantida reeleição para o Senado para tentar a improvável vitória presidencial. O PSDC não é novidade e segue pequeno como fora desde 1998, quando Eymael tentou a presidência pela primeira vez.

De qualquer modo, boa sorte a Eymael. Em 2006, além do jingle, ele se fez presente na eleição presidencial quando, no debate, ironizou a ausência de Lula e fez inúmeras referências à "cadeira vazia".

E bem que o PSDC merecia um melhor site, hein? O atual dá vontade de chorar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

É pra isso?

Em momentos como o atual, marcado pela descrença nas instituições por parte dos cidadãos, os políticos precisam mostrar serviço. Mostrar que trabalham, que fazem coisas úteis para a sociedade.

E, por isso, o "jogar para a torcida" acaba acontecendo muitas e irritantes vezes.

É o que se passa agora, com a lei que isenta o pagamento das tarifas de estacionamento dos shoppings centers a quem consumir 10 vezes o valor da referida tarifa.

Não entendo nada de Direito, então não vou arriscar nenhum palpite sobre a possível inconstitucionalidade da lei - que é o que estão alegando os proprietários de shopping, que tentarão derrubar a medida.

O que discuto são as questões políticas relacionadas à lei.

Precisamos mesmo de uma lei que determine que um shopping não possa cobrar por um serviço que efetivamente presta?

É dessa "proteção" que o cidadão sente falta?

Não há outros pontos melhores para que os deputados da Assembleia Legislativa se debrucem?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Aécio vive

Números divulgados na semana passada evidenciam que a campanha presidencial está longe de chegar a um encaminhamento definitivo. Levantamento realizado pelo Vox Populi e divulgado pela IstoÉ mostra o governador mineiro Aécio Neves (PSDB) em segundo lugar em uma pesquisa espontânea de intenção de voto. Quem está à sua frente? Lula, que não participará da disputa.

Aécio teve 11%. O que, em uma pesquisa espontânea, e realizada a pouco menos de um ano da eleição, é muita, mas muita coisa. Porque as pesquisas espontâneas apontam o piso de uma candidatura. A não ser que haja escândalos ou algum outro fator externo, é quase impossível ver uma candidatura indo para patamares abaixo dos apontados em pesquisas espontâneas.

Isso, somado à baixa rejeição - Aécio tem 5%, contra 11% de Serra e 12% de Dilma, também segundo Vox Populi e IstoÉ - faz com que Aécio se encha de musculatura para uma eventual campanha.

Endosso a análise do amigo Alan Kardec Borges no Voto é Marketing. Serra lidera a maior parte das pesquisas hoje, mas grande parte desse triunfo pode ser seguramente atribuído ao fato dele ser o pré-candidato mais conhecido do eleitorado - foi ministro, candidato à presidência e é governador do estado mais populoso do Brasil.

Serra cresceria se conseguisse canalizar todos os votos de oposição a Lula. Acontece que o governo federal tem sido muito bem avaliado, então é mais lógico pensar que sua candidata sai à frente (lembrando que não se trata de "transferência de votos", e sim da avaliação de uma gestão, o que é bem diferente).

O quadro de 2006 também nos faz pensar que Aécio pode ser, para o PSDB, uma opção mais sólida do que Serra. Naquela eleição, lembremos, Lula perdeu nos três estados do Sul e também em São Paulo. Este eleitorado, via de regra, tenderá a votar novamente no candidato do PSDB, seja qual for. A chave, para os tucanos, seria reverter a boa margem que Lula tem no restante do Brasil.

Mais carismático, menos "paulista", mais acessível, Aécio parece ser mais viável do que José Serra.

E o Vox Populi dá sustentação a isso, pela primeira vez.

Serra segue sendo tratado como o principal candidato tucano à presidência. E declarações de Aécio, sinalizando uma candidatura ao Senado, já soaram como uma certa desistência. Mas uma dica ao mineiro é manter a toalha nas mãos. Ainda não é hora de jogá-la.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sai de baixo

Um homem qualquer bater em uma mulher qualquer já é coisa feia (e, mais que isso, crime). Se o homem é famoso, além de crime é motivo de grande repercussão. Agora, quando o cara é famoso, governador de um estado e pré-candidato a presidente do Brasil, aí a história ganha repercussões astronômicas.

A pessoa em questão é Aécio Neves, governador de Minas Gerais e que briga com José Serra para ser o candidato do PSDB à sucessão de Lula.

A "notícia" (as aspas, nesse caso, são necessárias) tem corrido a internet desde o início da semana. Seu emissor inicial foi Juca Kfouri - em seu blog, o jornalista esportivo afirmou que Aécio foi visto dando um empurrão e um tapa em sua "acompanhante" (mais uma vez, aspas essenciais) em uma festa no Rio de Janeiro. Mais do que divulgar, Juca bancou o fato: atualizou o post dizendo que havia recebido um comunicado da assessoria de Aécio desmentindo o ocorrido e que não mudaria uma só vírgula do que escrevera.

O anunciado por Juca Kfouri foi o complemento de história levantada por Joyce Pascowitch no Glamurama. Lá, a colunista dizia que numa festa do estilista Francisco Costa, "um dos convidados mais importantes e famosos" do evento havia dado um tapa em sua acompanhante.

A nota de Pascowitch não declarava e nem chegava a insinuar quem seria o cidadão praticante do ato. Pelo fato do seu site ser mais ligado ao mundo da moda, celebridades e afins, jamais se havia pensado em relacionar o dito com o governador mineiro. Mas Juca fez a ponte, e a confusão foi armada.

Agora começam as interpretações para o caso. Muita, muita gente na internet tem dito que a repercussão da notícia teria o dedo de José Serra - que, assim, detonaria de vez as chances de Aécio ser o candidato tucano.

Acho meio conspiratória a teoria. Serra está à frente nas pesquisas, tem recebido mais apoio das lideranças do PSDB e é bem improvável que perca o posto para Aécio (com ou sem agressão). Sem contar a possibilidade - que não deve ser descartada - da criação de uma chapa "puro sangue" tucana, com Serra para presidente e Aécio para vice. Assim, não seria muito inteligente, por parte do paulista, lançar mão de tal expediente para o mineiro.

Da minha parte, não levo muita fé nessa "armação orquestrada por Serra", como alguns têm sugerido.

Quanto a Aécio e à agressão em si... ah, isso eu deixo para a polícia, que é quem tem que tomar conta desse tipo de história.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Yes, os republicanos também can

Quando Obama venceu, muitos se ocuparam em celebrar seu triunfo como sendo um símbolo da "mudança de mentalidade" americana. Segundo essa análise, os estadunidenses, ao eleger o democrata, mostrariam ao mundo que são diferentes do que foram em 2000 e, principalmente, em 2004, ao eleger e reeleger George W. Bush.

Mas aí o tempo passa e mostra que tal análise foi um tanto quanto imprecisa. Ou que nem deveria ter sido feita.

Em eleições realizadas nessa semana, o Partido Republicano, de Bush e opositor a Obama, teve três vitórias das mais expressivas. Conquistou a prefeitura de Nova York (favas contadas, já que a reeleição de Michael Bloomberg era dada como certa) e os governos dos estados de Nova Jersey e Virginia, com Christopher Christie e Robert McDonell.

Nova Jersey e Virginia são estados importantes. Respectivamente, o nono e o 12º mais populoso da nação. E ambos localizados no Leste americano, tido como mais moderno e democrata.

Nos EUA, os republicanos têm celebrado suas vitórias como uma espécie de "ressurreição" do partido - combalido e até mesmo tido como morto após a vitória de Barack Obama no ano passado. E há quem julgue que as vitórias de Christie e McDonell são, acima de tudo, uma derrota do próprio Obama, acontecida na primeira grande eleição após a chegada do ex-senador à Casa Branca.

Vale lembrar que, também ontem, o Maine, estado no Nordeste americano, rejeitou o casamento gay em consulta às urnas.

O que tudo isso demonstra? Que o pensamento conservador nos EUA ainda é forte e não pode ser desprezado. E que não se modifica em apenas uma eleição. A vitória de Obama foi emblemática e expressiva, mas, se pegarmos a história - e não só dos EUA - veremos que regimes democráticos são assim mesmo, marcados por alternâncias sucessivas de governantes e, mais que isso, de linhas de pensamento. Nada fora do que é, ou deveria ser, o padrão.

Em tempo: não condeno, de forma alguma, a existência desse "pensamento conservador" estadunidense. Inclusive, o valorizo - a democracia tem que ter todas as correntes e acho interessante que, por lá, os conservadores não tenham vergonha de se assumir como tal (diferente da hipocrisia brasileira, quando os sujeitos mais direitistas recusam-se a se denominar assim).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O "caso Uniban" e o jornalismo

(Antes de mais nada: esse blog endossa quase que a integralidade das manifestações de repúdio aos estudantes da Uniban que expulsaram a moça da faculdade. Não tenho muito a acrescentar nesse sentido, e por isso o post abaixo segue outro foco.)

Já é de conhecimento geral o ocorrido na Uniban, campus universitário localizado em São Bernardo, semanas atrás - uma moça foi para a aula usando um traje, digamos, impróprio, foi hostilizada por colegas por conta disso, chamada a plenos pulmões de "puta" (e outros termos) e teve que deixar a faculdade escoltada por policiais.

Interessante é a trajetória que o assunto fez até chegar ao chamado "conhecimento geral" citado acima.

Eu - e a maioria das pessoas com quem falei a respeito - tive meu primeiro contato com a questão por meio das tais fontes virais. Minha primeira referência foi o Twitter - mais precisamente, o do Arnaldo Branco. Sua mensagem remetia ao post "Polanskis do ABC", do blog Boteco Sujo, criado no dia 28 de outubro, e "twittado" no mesmo dia.

Ainda no dia 28, o "caso Uniban" pipocou por Twitters e blogs dos mais diversos e se tornou, com sobras, o assunto mais repercutido na internet nacional.

E não tardou muito para que se tornasse pauta dos veículos da grande mídia nacional. Folha, Estado, TV Globo, as rádios de destaque, enfim; todos correram atrás do caso para darem suas versões do tema. Em um primeiro momento, com matérias tímidas, em que a estudante não citava seu nome nem mostrava seu rosto; depois, veio o "escancaramento" pleno, com a moça dando a cara a tapa. O ápice disso veio com a participação dela no Geraldo Brasil, na Record, e no Fantástico da Globo.

Isto posto, vamos às reflexões.

Ponto 1: a "blogosfera" (termo odioso, mas vá lá) teve sucesso. Conseguiu fazer com que um assunto que nela nasceu se tornasse o mais comentado no Brasil (e não só entre os blogueiros) em toda a semana. Inverteu o que habitualmente se faz na net, com as notícias dos grandes portais servindo de base para posts e outros trabalhos. É fato que o ocorrido jamais chegaria ao conhecimento público se não fosse o barulho que causou, inicialmente, a um grupo restrito de pessoas.

Daí vale também destacar que a repercussão do caso só se deu devido à extensa captação de imagens que se tinha em mãos. É fácil sacar que o peso de um vídeo que mostra uma pessoa sendo hostilizada por toda uma universidade é imensamente maior do que relatos que eventualmente digam a mesma coisa. Não foi necessariamente o fato que correu, e sim as imagens dele. Visíveis, chocantes e intrigantes - e por isso mesmo propensas à disseminação.

Mas agora vem uma conclusão de certo modo contraditória. Se por um lado registramos o "triunfo" dos blogueiros e da comunicação viral, por outro precisamos da mídia convencional para que ele seja sacramentado. Não apenas porque a ação de Record, Folha, Globo e outros dá uma certa "legitimidade" à questão, mas também porque o que os grandes grupos fizeram, no caso (com exceções, é claro), foi jornalismo. Foram à Uniban, buscaram mais depoimentos, ouviram fontes que deram novas visões ao caso, investigaram o tema a fundo.

Por limitações de diversas vertentes - financeira, de equipamento, de disponibilidade, etc, etc - os blogs não foram (e raramente são) capazes de dar uma continuidade a temas que levantam. Se têm potencial pra isso? Opa, têm e de sobra. Mas precisariam aderir, a seu trabalho, técnicas e preceitos do jornalismo convencional.

Muito se fala hoje que "a internet transformou o jornalismo" - e não apenas por ser um novo suporte tecnológico, mas sim por dar a ele uma nova mentalidade. De acordo, e quem questiona isso está cerca de 20 anos atrasado em relação ao resto do mundo. Mas o que casos como da Uniban sugerem é que deveria acontecer uma retroalimentação. O jornalismo ajudando os blogs a se transformarem, a se consolidarem como veículos efetivos de comunicação. E não somente "espalhadores" de assuntos.

Abaixo, um dos vídeos originais do caso - cada vez mais raros.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Bom para ambas as partes

Não deu tanta repercussão assim (eu pelo menos não vi) uma notícia interessante ocorrida na segunda-feira: o PP lançou o deputado Celso Russomano como pré-candidato ao governo de São Paulo.

É de certo modo compreensível o desprezo ao fato. O PP, em São Paulo, não é um partido com cacife para fazer um governador. E a eleição para o Palácio dos Bandeirantes deve mesmo ficar entre os nomes do PSDB (Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes Ferreira ou uma terceira opção) e o que contará com PT em sua chapa (Ciro Gomes ou algum petista de carreira), com vantagem para os tucanos.

Mas o que interessa mesmo é discutir quais seriam os interesses do PP com o anúncio.

Celso Russomano é deputado federal desde 1995. Na eleição passada, em 2006, foi o segundo candidato mais votado em São Paulo, com 573.524 votos - ficou atrás apenas de seu colega de legenda Paulo Maluf (a votação expressiva de ambos fez com que coubesse ao PP o "efeito Enéas" da vez, com Aline Correa conseguindo uma vaga na Câmara com míseros 11.132 votos). A fama de Russomano vem de sua trajetória como repórter, pautada pela marca de buscar a defesa do consumidor e eternizada com o bordão que dá nome a esse post no falecido "Aqui Agora", jornalístico do SBT.

O quadro descrito acima deixa ainda mais curiosa a pré-candidatura de Russomano ao governo do estado. Afinal, sua reeleição para a Câmara é certa - tão certa como o insucesso que terá na briga pelo cargo de governador. Russomano, inteligente que é, deve ter noção de tudo isso.

Parece que PP e Russomano querem mostrar certa força para se colocarem como alguém interessante a ser cortejado. Ganhar aparição na mídia, falar sobre seu "projeto de campanha", aparecer com alguns pontos nas pesquisas de intenção de voto... e na hora H abrir mão da candidatura e concorrer com folga à vaga de deputado.

Russomano não tem aparecido nas pesquisas para o governo. Paulo Maluf, eterno candidato, é o nome do PP colocado à disposição dos eleitores nos levantamentos. Acredito que, apesar da visibilidade do jornalista, ele não terá - ao menos em um primeiro momento - o retorno do ex-prefeito.

Foto: William Volcov / Agência Estado

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Assunto complicado, reflexões despertas

Uma das notícias de mais impacto do mundo político nessa semana foi a cassação de 13 vereadores de São Paulo, ocorrida ontem. A decisão, em primeira instância, pune todos os parlamentares pelo mesmo motivo: terem recebido doações tidas como ilegais pela Justiça Eleitoral.

Todas as doações condenadas têm a mesma origem: a Associação Imobiliária Brasileira (AIB). São dois os problemas que estariam nas doações, segundo a sentença. O primeiro é o peso das verbas no montante disponível para o candidato durante a campanha - esse corte, inclusive, foi o que determinou que somente os vereadores para quem a doação da AIB representou mais de 20% do total de campanha perdessem o mandato.

O segundo ponto chave está na própria existência da AIB. Em abril, a Folha apresentou uma reportagem que sugeria que a entidade - a segunda maior doadora na campanha de 2008 - seria apenas uma laranja do Secovi, o sindicato patronal do setor imobiliário de São Paulo. A lei eleitoral determina que associações de classe, como os sindicatos, não podem fazer doações a campanhas.

Os vereadores cassados ainda não perderam o mandato. Tal situação só ocorrerá se a sentença for mantida nas duas outras instâncias que tramitará - inclusive no Tribunal Superior Eleitoral.

O caso é interessante e nos dá uma série de elementos para pensar. O principal deles: vejo como positivo, muito positivo, o fato das doações se tornarem o "assunto da vez" na política. Acho que o fortalecimento da democracia passa pela crença nas instituições eleitorais e acredito que a cultura das doações é elemento-chave para isso. A lição vem dos EUA: lá, doações pequenas, de contribuintes individuais, são tradicionais e colaboram para um sentimento de participação - e foram decisivas para o triunfo de Barack Obama, especialmente em sua disputa democrata com Hillary Clinton.

Talvez a questão motive também um debate sobre a própria legislação eleitoral: numa dessas, o assunto faz com que se discuta, por exemplo, a possibilidade de permitir a participação de sindicatos e outras entidades correlatas como doadoras.

Enquanto isso, a disputa judicial pega fogo, a Câmara vive dias de choque e os vereadores se posicionam. Carlos Bezerra Júnior (PSDB), um dos cassados, divulgou em seu site uma nota oficial que explica muito bem sua postura frente ao caso.

A lista completa dos vereadores cassados pode ser encontrada aqui.

Atualizando: Três vereadores já tiveram a cassação suspensa e pode ser que mais gente também se beneficie (leia mais aqui). Talvez, como acontece com alguma frequência no Brasil, ninguém perca o mandato e as coisas fiquem como antes. E é por isso que, acredito eu, mais do que a cassação de um ou outro nome, o importante da história é levar o debate sobre as doações para uma posição de destaque.