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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A primeira marca do governo Dilma

Foram anunciados na semana passada os novos logomarca e slogan do governo federal. Eles substituem o "Brasil - Um país de todos" que, intocado durante os oito anos da gestão Lula, às vezes parecia mesmo uma marca de Estado, e não de governo. Oito anos não é pouca coisa. Confira:

Agora vamos às opiniões. Aliás, antes delas, uma contextualização. Como disse o amigo Alan Kardec Borges no Voto é Marketing, em post de 2009, logomarca e slogan costumam figurar entre as prioridades dos políticos que assumem seus mandatos. As peças estabelecem um dos primeiros sinais de uma mudança real, tangível; o cidadão que se depara com uma obra (ou propaganda na TV, ou qualquer outra coisa relacionada) que traz a nova identidade visual percebe que a administração se modificou, que há um novo governo em curso. É, por isso, vital.

(Pequeno parêntese: não sei como funciona em outros países, mas aqui no Brasil acredito que haja um pequeno abuso na utilização das logomarcas. A cada quatro anos, uma cidade/estado/país está sujeita a ter sua identidade visual por completo, e aí lá se vão consideráveis somas de dinheiro para adaptação aos novos padrões. Sem contar os logotipos que se utilizam, sem muito disfarce, das marcas dos partidos do governante da ocasião. Mas isso é uma opinião pessoal, que não serve para mudar o quadro atual. Prossigamos.)

A nova logomarca do governo federal, intencionalmente, traduz o que Dilma Rousseff propôs o tempo todo em sua campanha - continuidade, mas com um toque pessoal e de evolução. É o que se observa. A peça é, de certo modo, parecida com a do governo Lula (ao lado). Prosseguem as letras grandes, o "BRASIL" em caixa alta, exposto de maneira horizontal.

Onde se vê a diferença - e gritante - é no uso das cores. A logomarca de Dilma é mais sóbria do que a de Lula, e bem menos ousada. Enquanto a do governo anterior abusava de cores distintas, para reforçar mesmo a ideia da pluralidade, a atual fica no verde-amarelo, com o losango da bandeira nacional exposto sobre o A de Brasil. Fica a impressão que a nova marca quer ser vista como mais séria, mais "disciplinada" que sua antecessora. Comparação pura e simples? A de Lula ganha. Em duas palavras (ou é uma só por conta do hífen?), é possível definir a marca atual como sem-graça.

Quanto ao slogan... bem, aí arrisco dizer que a gestão anterior ganha, e de goleada. "Um país de todos" é uma frase simples, direta, precisa e de muito conteúdo. Lula assumiu o poder pregando a inclusão, e fez disso a marca de seu governo. "Um país de todos" traduz essa filosofia como talvez nenhuma outra marca conseguiria.

"País rico é país sem pobreza" é, também, outra tradução de uma meta de governo - já que o Brasil se tornou mais "rico" e "desenvolvido" nos últimos anos, é hora de transformar essa condição em uma melhoria efetiva na qualidade de vida dos brasileiros, acabando com a pobreza. Até aí tudo bem. O principal problema está no fato da frase ter, digamos, pouco apelo publicitário. "País rico é país sem pobreza" é uma frase mais longa, mais rebuscada, que não soa tão imediata quanto "Um país de todos". Além de ter um caráter meio até de certo modo marcial - parece um lema de exército, uma declaração de fé, um trecho de hino. Quebrou a "simpatia inclusiva" da marca anterior para uma pegada mais agressiva, mais forte.

As intenções da marca são boas - como já dito, frase e logotipo reforçam bem a ideia da continuidade com progressão. Mas talvez a escolha das peças pudesse ser feita com mais capricho. É claro que não é isso que determinará (e nem de longe!) o sucesso ou fracasso do governo Dilma, mas um pouquinho mais de qualidade viria bem.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Freakonomics e o tostines eleitoral

Estou lendo Freakonomics, livro de 2005 escrito por Steven Levitt e Stephen Dubner que já tem um quê de clássico. Virou sucesso instantâneo, gerou sequências (e obras nele inspiradas) e deve estar garantindo um bom rendimento aos seus autores.

Em síntese, o que o livro traz é uma série de pesquisas produzidas por Levitt que buscam contestar algumas verdades absolutas e apresentar relações entre fatos aparentmente distantes entre si. Por exemplo: lá se diz que a probabilidade de uma criança morrer em uma casa com piscina é muito maior do que a que há em uma casa com uma arma de fogo; que professores mentem para que seus alunos tenham melhores resultados em exames que avaliam o desempenho das escolas (e que tal fraude pode ser descoberta com apenas um pouquinho de esforço); e que a redução da criminalidade nos EUA é fruto da liberação do aborto décadas atrás, e não de políticas de combate ao crime, e por aí vai.

Como disse Ubiratan Leal em texto em que analisou Soccernomics (uma obra inspirada em Freakonomics), "números não são subjetivos, mas a escolha deles e o modo de usá-los são". É por isso que se deve ter uma bela dose de cautela ao analisar conclusões que Freakonomics trata como verdades absolutas. Números são inquestionáveis e revelam muita coisa, mas colocar um pé atrás sobre o que se vê nunca é mau negócio.

E é sobre um dos dados também apresentados em Freakonomics que eu queria debater. O livro cita uma pesquisa de Levitt que analisou a relação entre o dinheiro das campanhas eleitorais e o sucesso dos candidatos. Há o consenso geral de que quanto mais dinheiro tem uma campanha, mais provável que ela seja bem sucedida; Levitt contesta isso, dizendo que, de fato, as campanhas com mais dinheiro são as que se dão bem - mas isso se deve ao fato de que os doadores já sabem que as campanhas tendem a ser vitoriosas, e utilizam isso como critério para investir suas quantias. Ou seja, a campanha tem dinheiro porque deverá dar certo, e não o oposto.

É mais uma representação clássica do "dilema de Tostines". Levitt crava que "são fresquinhas porque vendem mais", ou seja, têm dinheiro porque vencerão a disputa. E aí?

Admito que, tentando transpor o caso à realidade brasileira, ainda não formulei uma opinião derradeira a respeito. É fato que o comportamento eleitoral aqui, para as campanhas majoritárias (presidente, governadores, prefeitos) é mais previsível do que parece. Era óbvio que PT e PSDB polarizariam a disputa nacional em 2010, como vêm fazendo desde 1994; nos planos estaduais e municipais, há situações que são também bem previsíveis, de modo que um doador já pode saber para que lado a disputa tende a pender.


Por outro lado, nós não convivemos aqui com a figura das doações individuais (a menos não em caráter expressivo). Ou seja, a tal "motivação" para doar em uma campanha não é uma questão decisiva.

Tendo a acreditar que a opinião de Levitt valha para as eleições majoritárias brasileiras, mas não para as proporcionais (deputados e vereadores), porque neste universo específico o desconhecimento dos candidatos por parte da população e o excesso deles faz com que ter dinheiro seja um fator essencial para o triunfo.

Algum outro palpite?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vitórias e derrotas femininas em eleições

E então no domingo aconteceu o que as pesquisas já indicavam há tempos: Dilma Rousseff (PT) venceu as eleições presidenciais, derrotando, com larga margem, José Serra (PSDB).

Muito já se falou sobre a vitória de Dilma, em especial sobre o fato dela ser a primeira mulher a chegar à Presidência da República. De fato, é um tabu que se quebra, e é algo cujos efeitos somente se solidificarão daqui a muitos anos.

Gostaria de trazer a vitória de Dilma a outra ótica: a do debate sobre o preconceito nas campanhas eleitorais.


Aos fatos: o Brasil elegeu para a Presidência uma mulher divorciada. Mais: a votação mais expressiva da candidata se deu na região Nordeste, o pedaço do Brasil com os piores índices de desenvolvimento humano.

Volta e meia o Brasil é tido como um país "machista". Desde o excesso de nudez no Carnaval até a baixa presença de mulheres no Congresso, tudo vira argumento para justificar essa opinião.

Mas aí, como dito, o país elege uma mulher divorciada para a Presidência da República. Como fica tudo isso, então?

O necessário a ser feito para compreender a questão é diferenciar o machismo cotidiano do comportamento eleitoral. O primeiro está aí, forte e firme, e não será a vitória de uma mulher na eleição presidencial que irá eliminá-lo.

Já o segundo tem muito mais nuances do que uma análise simplista focada unicamente na questão do machismo poderia traduzir. Em primeiro lugar: Dilma foi eleita, acima de tudo, por ser a representante de um governo muitíssimo bem aprovado pela população. Não há muitas invenções a serem feitas a partir daí. O eleitor costuma votar favoravelmente aos governos que lhe agradam; o governo Lula foi bem avaliado; Dilma era sua representante; então nada mais natural que escolhê-la. Isso transcende a questão da "mulher".

Em segundo lugar, uma mulher na Presidência é um fator novo. E quando falamos de política, essa "coisa" tão rejeitada pela população, novidade sempre cai bem. O povo em geral está cansado dos políticos e da classe política como um todo. E como é o estereótipo do político corrupto? Um homem, de terno e gravata, cabelos ajeitadinhos, fala mansa. Ou seja: uma mulher está do lado oposto disso tudo.

O debate sobre o peso do machismo nas campanhas eleitorais se faz necessário porque, volta e meia, lideranças de candidaturas femininas atribuem ao preconceito toda a responsabilidade pela derrota. Em São Paulo, isso se viu de maneira muito forte quando Marta Suplicy (PT) perdeu, em 2004, a prefeitura para José Serra (PSDB). Apurados os votos e consumada a vitória do tucano, iniciou-se a gritaria: "é por causa do machismo". Ora, uma cidade que havia eleito, anos antes, uma nordestina (Luiza Erundina), um negro carioca (Celso Pitta) e a própria Marta Suplicy, não poderia ter virado machista, reacionária e preconceituosa de uma hora pra outra. Certamente há questões políticas e da campanha propriamente dita que explicam as derrotas de maneira muito mais precisa do que a fácil apelação para o preconceito.

(Foto: Marcello Casal Jr / ABr)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

As "mágicas" do marketing político

Infelizmente, há quem ainda ache (e são muitas pessoas) que o consultor - ou "marketeiro" - político é um cara que fica inventando fórmulas e truques para vender um candidato para a população indefesa, que acaba votando no sujeito como se estivesse comprando um sabonete (sim, a metáfora é sempre o sabonete).

É preciso que se diga que tal imagem se consolidou, também, pela ação de maus consultores e políticos, que acabaram, mesmo, fazendo com que a população se iludisse por candidaturas péssimas.

Mas o fato é que consultoria política é uma atividade muito menos "mágica" do que o senso comum acredita. Não se trata de nada além de pesquisar o cenário eleitoral, aferir os interesses das pessoas e preparar um projeto que atenda às necessidades expostas. Por exemplo: se uma pesquisa diz que a principal reivindicação em uma cidade é a saúde, que adianta um candidato fazer toda a sua campanha falando de educação, transporte ou segurança?

Em termos eleitorais, a adequação se faz também quando se identifica os principais pontos fortes e fracos do candidato diante do eleitor, e realiza-se um trabalho com base neles. Nada de "transformação", nada de "enganação".

No vídeo abaixo, que encontrei abaixo no Youtube, há um exemplo perfeito do marketing político sendo muitíssimo bem aplicado. Trata-se da campanha eleitoral da cidade de São Paulo em 1992, quando os principais candidatos eram Eduardo Suplicy (PT) e Paulo Maluf (pelo partido equivalente ao atual PP). Luiza Erundina (PT) era a prefeita da cidade na época, e ainda não havia a figura da reeleição.

Já existia uma certa tradição eleitoral em São Paulo - que chegou ao seu ápice na eleição para governador de 1990, dois anos antes do pleito sobre o qual falamos agora - que dizia que Maluf sempre disparava nas pesquisas, mas que na hora H perdia a eleição. O motivo era simples: assim como Maluf era ferrenhamente amado por grande parte do eleitorado, era odiado, com muita intensidade, por outra fatia tão significativa quanto a anterior. E embora vencesse os primeiros turnos, na segunda metade se via atropelado pela somatória de praticamente todos os votos dos outros concorrentes.

A campanha de 1992 trabalha com precisão sobre o cenário. Note-se, pelo vídeo, que o foco está no público jovem - ou seja, num eleitorado tradicionalmente anti-Maluf. Isso se deve não apenas a uma tentativa de "conversão" do novo público, mas também pelo fato de acreditar que não havia muito o que fazer com o público mais velho, de posição mais consolidada (e, em grande parte, simpática a Maluf).

É muito boa também a referência aos candidatos derrotados Alyosio Nunes (à época no PMDB, hoje senador eleito pelo PSDB) e Fábio Feldmann (hoje no PV, à época do PSDB). Como já dito, reverter uma tendência natural de rejeição dos votantes em outros nomes era imprescindível para que Maluf chegasse à vitória.

Por fim, o refrão "a gente não tem nada contra o Suplicy / a gente não quer mais é o PT mandando aqui" é genial. Aceita que Suplicy é um candidato carismático, e que portanto ofensas diretas a ele poderiam causar uma repulsa do eleitorado; e trabalha sobre a rejeição habitual que parte do eleitorado tem ao PT, algo que vigora até os dias atuais.

Em que pese a épica presença do grupo Polegar e o exagero nas pinturas das caras dos cantores, trata-se de uma ótima peça.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Latinos nos EUA: intenções mais amplas

Dou um tempo nas eleições nacionais para falar um pouco de um tema sempre interessante, a política dos EUA. A edição digital e em espanhol da sempre boa Campaigns & Elections (confira aqui) traz uma interessante matéria sobre o voto latino nas terras de Barack Obama.

Todo mundo sabe que os latinos (ou hispânicos, escolha o tema que lhe convir) são uma população que cresce e muito nos EUA, que o espanhol é cada vez mais falado, que Obama e McCain, tal qual outros tantos políticos, têm feito campanhas políticas específicas para esse grupo, e assim por diante.

A questão que a matéria da Campaings aborda é que ainda há muitas ações feitas para os hispânicos baseadas, unicamente, em preconceitos. O texto fala: há quem acredite que fazer campanhas em espanhol e falar sobre leis de imigração seja o necessário (e suficiente) para agradar a esses grupos.

E pesquisas revelam que os hispânicos, tal qual os outros americanos, querem também saber sobre desenvolvimento econômico, combate à violência, desemprego, etc., etc., etc..

Ou seja: fazer algo extremamente focado acaba soando ineficaz e até um tanto quanto desrespeitoso. Algo como "será que só porque eu sou latino eu não tenho direito de saber suas propostas para a saúde, educação, economia?".

No fim das contas, é mais uma comprovação do óbvio: sem uma boa pesquisa, tudo o que se fizer sai errado.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mais sobre debates

O UOL divulga hoje (veja abaixo) uma matéria sobre os debates, que mostra, de maneira caricata, como que são montadas as estratégias dos candidatos.

Além do que citei no post anterior, a reportagem traz outro elemento que deixei passar: a reação de um candidato líder na disputa quando colocado diante de uma denúncia. O 'meu adversário apela para baixarias, eu não vou descer nesse nível' é um expediente tão clássico quanto - ao meu ver - entediante. Por outro lado, é compreensível: responder a uma denúncia é bom, mas ignorá-la e deixá-la morrer pode ser ainda melhor.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Roteiro monótono de um debate

"Estamos aqui com mais um debate com os candidatos ao governo do estado. Agora, o Sr. Oposição faz a pergunta ao Sr. Governo.

Sr. Oposição: Sr. Governo, o povo sofre nas filas dos hospitais. Uma consulta demora meses para ser marcada. Há gente esperando nos corredores! Por que, apesar desse horror todo, o sr. ainda acha que merece o voto da população?

Sr. Governo: Sr. Oposição, em nossos quatro anos de governo nós fizemos muito pela saúde. Inauguramos 3.241 postos de saúde, contratamos 2.109 médicos, distribuímos 9.830 remédios. A prova do bom trabalho está em uma pesquisa, que mostra que 75% da população aprova os serviços de saúde.

Sr. Oposição: Então eu pergunto a você, cidadão que está nos assistindo. Você está satisfeito com a saúde? Fica tranquilo quando precisa de um atendimento? Aposto que não! Precisamos mudar!

Sr. Governo: Está perfeito? Não está. Mas já avançamos muito. E tenho certeza que avançaremos ainda mais."

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Troque "do estado" do início do post pela unidade da federação que lhe convir (ou município, ou até mesmo a União). Substitua os nomes "Sr. Governo" e "Sr. Oposição" pelos candidatos que efetivamente estejam ocupando esses papéis durante o debate. E o exemplo da saúde pode ser substituído por qualquer outra área da administração pública - educação, transporte, finanças, ou qualquer uma à sua escolha.

Tem-se aí o roteiro de qualquer debate entre os candidatos do Brasil. Infelizmente. De um lado, candidatos de oposição que apelam para o emocional e para o fato que, no Brasil, os serviços públicos (seja quais forem) estão sempre aquém do que deveriam estar. Do outro, os do governo apostando na linha do "muito já foi feito, mas com o seu voto faremos ainda mais".

E ambos os lados despejando números, estatísticas, informações que acabam sendo irrelevantes para o eleitor.

Da maneira como se dão hoje, os debates servem somente para que os eleitores solidifiquem os votos que já pretendem realizar. Isso tem importância? Claro, é sempre bom cativar o eleitor. Mas talvez seria melhor insistir num debate que almeje a mudança de postura, ou que no mínimo coloque a tal pulga atrás da orelha em quem já havia decidido seu voto.

Como chegar a essa condição é algo de difícil resposta (se fosse tão fácil assim, todo mundo faria). De uns tempos pra cá, virou dogma entre analistas/marqueteiros que a "campanha negativa" mais prejudica o acusador do que o próprio acusado. Sob essa ótica, apresentar críticas fortes ao outro lado sugeriria um certo desespero, e faria com que o eleitor, motivado talvez por dó ou piedade, pendesse para o lado de quem recebe as críticas.

Modestamente, contesto essa visão. Ora, se há denúncias - sólidas, provadas, etc., etc. - por que não apresentá-las? Se há falhas administrativas (e aí não falo de corrupção, e sim de incompetência, promessas não cumpridas e outros temas), qual o problema em escancará-las, em deixá-las evidentes para o eleitor?

A "baixaria eleitoral" que muita gente condena está em devassar a vida pessoal dos candidatos - e não preciso citar exemplos disso, todo mundo tem alguns casos em mente. Agora, quando se trata da vida pública, acredito que isso tem que vir à tona. Sinceramente, mesmo, acho que o eleitor sai beneficiado com isso.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sobre a candidatura de famosos e engraçadinhos

Romário, Mulher-Pêra, Kiko do KLB, Tiririca e tantos outros: as eleições de 2010 terão uma série de candidatos, digamos, exóticos. Além dos famosos por outros ramos que não a política, teremos aquela já tradicional chuva de figuraças durante o horário eleitoral que se passarão a integrar o folclore das eleições.

A aparição dessas pessoas é o gatilho para que críticas ao processo eleitoral - e ao Brasil como um todo - pipoquem por aí. "Eleição virou festa", "só no Brasil mesmo pra um cara desses ser candidato", "e o povão ainda vota nisso", "com certeza um sujeito desses estará eleito"...

Cabem as críticas, está longe de ser errado não gostar de ver gente sem nenhum preparo tentar a carreira política. O problema é que essas observações são, na maioria dos casos, imprecisas.

Pelo seguinte motivo: em geral, essas candidaturas exóticas não dão certo.

É fácil de detectar isso. É só lembrar das eleições passadas, das figuras engraçadas que surgiram por aí, e lembrar de quantos tiveram sucesso nas urnas. São poucos. Pouquíssimos.

Enéas Carneiro, claro, é o exemplo mais célebre. Ele usou como ninguém os 15 segundos de que dispunha em 1989 para ser o terceiro candidato mais votado à Presidência em 1994 e ser eleito e reeleito deputado federal em 2002 e 2006 com votações assombrosas. Não foi escolhido por suas propostas, ideologias ou sei lá o quê, e sim pela imagem folclórica que construiu no horário eleitoral.

Mas trata-se de uma exceção. Em geral, as eleições são amplamente dominadas por candidatos que fazem campanhas sérias. Gente que tem propostas razoáveis - concorde-se ou não com elas - que faz campanha de maneira convencional, que adota um visual tradicional. Nas Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores por aí, o número de eleitos "engraçadinhos" é muito pequeno. E no Executivo, então, nem se fala - a chance de um "cômico" ganhar uma prefeitura, governo estadual ou Presidência (!) é nula.

É importante expor essa questão por dois motivos. O primeiro é limpar a barra do povão. Afinal, está claro que, não, o povão não "vota em famoso" - os que triunfaram nas urnas são exceções, repito. E o segundo motivo é passar aos candidatos que ter uma candidatura engraçadinha é algo que pode garantir um lugar no folclore, visualizações no Youtube, entrevistas e assim por diante, mas votos mesmo, nome na urna, pouco provável.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Valendo!

A partir de hoje, a campanha eleitoral está oficialmente liberada: acabou a lenga-lenga da "pré-candidatura" e da hipocrisia que fazia com que candidatos tivessem que maquiar seus discursos e aparições públicas. Hoje todo mundo é candidato, todo mundo faz campanha, todo mundo pede voto.

E o que será a campanha eleitoral de agora? Difícil prever. Há dúvidas sobre ela em dois aspectos.

O primeiro diz respeito à forma. Será a primeira campanha presidencial brasileira pós-eleição de Barack Obama nos EUA e o furor que tal fato causou em relação ao uso da internet - e também o primeiro pleito depois que a lei eleitoral permitiu que a rede fosse mais utilizada. Deve-se também levar em conta a melhoria na qualidade de vida da população, do poder aquisitivo, o que sugere que a utilização das mídias digitais para se fazer campanha é algo em tese mais eficaz. Será que os candidatos saberão lidar com as novas ferramentas? Será que elas terão um peso concreto nas eleições de agora ou ainda ficarão como algo "para o futuro"?

E o outro aspecto, claro, é quanto ao conteúdo das campanhas. Na eleição presidencial, há a candidatura "oficial" que tem como pró a ampla aprovação que tem o governo e como contra o fato de sua candidata jamais ter disputado uma eleição. Dilma tem tudo para vencer - e em primeiro turno. Mas ainda não se sabe como reagirá quando sua imagem for efetivamente massificada. Por outro lado, José Serra tem que se mostrar como diferente de sua candidata, mas com cuidado para não ferir um eleitorado que é, no mínimo, simpático ao governo Lula.

Aos poucos, o blog vai acompanhar a movimentação das campanhas nas ruas e discutir o que tem sido feito por aí. A expectativa é que tenhamos uma campanha mais limpa e qualificada do que as anteriores. Esperemos.

terça-feira, 23 de março de 2010

Bola fora demagógica

Repercute notícia divulgada hoje em vários veículos sobre uma decisão da coordenação da candidatura de Marina Silva (PV) à presidência: a da não-contratação de um "marqueteiro" para a campanha. "A gente não acha que a imagem da Marina deva ser transformada ou vendida como um produto", é a declaração de Alfredo Sirkis, vereador do Rio de Janeiro e coordenador da campanha de Marina.

As falas de Sirkis e Marcos Mroz, também coordenador da campanha e citado no texto, sugerem que a campanha de Marina primará pela "naturalidade". Uma espécie de oposição à candidaturas "artificiais", "impostas", "fajutas" ou qualquer outro adjetivo similar.

Cá entre nós: a decisão - ou melhor, seu anúncio - só não é uma bobagem completa porque pode ter algum impacto eleitoral, por menor que seja.

Em primeiro lugar, pelo que segue no texto: No lugar do marqueteiro, haverá uma equipe de vários profissionais de comunicação. "Estamos trabalhando com tudo o que os outros terão. Teremos pesquisas, diretor de arte, redator etc. Só não teremos um cara acima do bem e do mal", diz Marco Mroz, outro coordenador da campanha. Ou seja: a campanha de Marina não será a "espontaneidade" toda que sugerem Sirkis e Mroz ao anunciar a decisão. Será uma campanha comandada por profissionais, baseada em suas decisões, em pesquisas, em levantamentos - ou seja, em marketing. Por mais que não haja um "marqueteiro" (ô palavra feia!), será, sim, uma campanha que terá o marketing como ferramenta das mais importantes.

E, pra completar, entristece ver gente importante como os coordenadores de duas campanhas de peso se referindo assim ao marketing político. Achei que já tivesse passado o tempo em que o marketing político fosse equiparado ao "vender sabonete", alegoria sempre citada quando se quer apedrejar a atividade. Não há democracia forte sem um marketing político consistente - ou é preferível que as boas ideias estejam restritas aos porões das casas de seus criadores? Marketing político é pensar uma melhor forma de comunicar a política, de se levar ideias aos eleitores, de aprimorar o contato.

Há gente que usa o marketing político pra maquiar pessoas ruins e enfiar maus candidatos pela goela dos eleitores? Evidentemente que há. Mas resumir o marketing político a isso é triste. E fazer demagogia com base nessa assertiva é tão triste quanto.

Emenda Ibsen, pré-sal e políticos paulistas

O assunto da política nacional é a questão do pré-sal - mais especificamente, a divisão de seus royalties -, por conta da emenda Ibsen, que prevê uma distribuição mais equalitária dos recursos em detrimento de uma proposta anterior, que beneficiava os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Sem querer entrar no mérito técnico da coisa - até porque, para ser sincero, ainda não formulei opinião precisa a respeito -, gostaria de avaliar o caso e seus desdobramentos para os políticos paulistas nas eleições de 2010.

Meu amigo Walter Martins escreveu que a questão, apesar das perdas financeiras, acabou sendo benéfica para o governador fluminense, Sérgio Cabral Filho. Walter tem razão; ao mostrar poder de mobilizar as pessoas de seu estado, Cabral se posiciona como líder e angaria (ainda mais) a simpatia das pessoas do seu estado.

Trago a coisa para o lado de cá da Via Dutra. Para nós, paulistas, a questão não tem o mesmo impacto que tem para a população do Rio - ainda que, obviamente, seja das mais relevantes.

O que eu acredito é que um candidato paulista precisa ter uma posição firme sobre a questão. Não acho que exista um caminho mais ou menos certo, em termos eleitorais; não arriscaria dizer algo como "ser a favor da emenda Ibsen traz mais votos" ou coisa parecida. Isso não faria sentido.

A questão é que o paulista - assim como qualquer brasileiro - quer ser representado por alguém que tenha convicções semelhantes às suas. As pessoas estão formulando opiniões sobre o caso e gostariam de vê-las tendo eco nos congressistas a quem elegeram.

Para quem vai se candidatar em 2010, o caminho a respeito da questão do pré-sal está delimitado por aí: criar com base nos acontecidos uma postura e defendê-la. Por exemplo, escrevendo artigos ou sendo fonte de entrevistas a respeito - a imprensa sempre quer ouvir a opinião de líderes políticos a respeito dos temas em relevância, colocar-se como um deles é algo que traz resultado.

Repito: o eleitor quer ser representado, quer votar em alguém que pensa como ele. Mostrar que se é uma dessas pessoas é a iniciativa ideal.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

PT exibe programa caprichado

O PT exibiu, ontem, em rede nacional, seu programa partidário gratuito. Aquele do qual todos os partidos dispõem, com inserções em anos não-eleitorais e que são destinadas à promoção do partido, e não dos candidatos. Em síntese - as peças podem fazer de tudo, menos pedir votos a candidatos futuros.

E a peça impressiona. Sua qualidade técnica é simplesmente irretocável. Não concebo um programa, em termos técnicos, melhor do que esse. Enquadramentos precisos, efeitos especiais na medida, falas bem-estruturadas... enfim, uma obra prima. Sinal que teremos alta qualidade técnica no horário eleitoral do ano que vem. Não vi o programa das outras siglas, alguém pode comentar se o nível está tão alto ou se o PT é uma exceção?

Quanto ao conteúdo, há alguns aspectos interessantes a destacar. Em primeiro lugar: Lula e Dilma aparecem em quantidade quase que igual na peça. Não há muita prevalência de um sobre outro. A figura da "Dilma gerente", enfatizada pelo próprio Lula em entrevistas, é o que se destaca. Dilma aparece sendo a responsável pelos projetos Minha Casa Minha Vida, Pré-Sal e PAC - que curiosamente têm mais espaço na publicidade do que o Bolsa Família, colocado em certa coadjuvância.

Chama a atenção ver também que Dilma é simplesmente chamada de "ministra". Seu cargo completo - ministra-chefe da Casa Civil - não é em nenhum momento mencionado, tanto nas falas quanto nos créditos inseridos abaixo de sua figura. E, com exceção de uma pequena citação de Lula, a figura da "mulher" e seus estereótipos costumeiros também não se faz presente.

Outras figuras do governo Lula aparecem, mas com destaque ínfimo. Uma reunião ministerial forjada tem Dilma na cabeceira e os outros ministros à sua volta. Que não emitem sons, apenas simulam o debate.

Além de Lula e Dilma, as duas únicas "autoridades" a falarem são Ricardo Berzonini e José Eduardo Dutra, respectivamente presidente atual e futuro do PT nacional - suas aparições acontecem para justificar a questão "partidária" do programa.

Como crítica, acho que a menção ao PSDB foi exagerada. Lula e o governo PT gozam de aprovação tamanha que acredito não ser necessária a citação do nome de partido e presidente anteriores. Uma comparação do governo atual com "governos de antes" seria mais interessante. Sabem aquela coisa do "falem mal, mas falem de mim"? Acredito que ignorar o PSDB e FHC seria mais lucrativo.

Vejam abaixo o programa e emitam suas opiniões.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Uma coisa é uma coisa, outra coisa...

Falar mal do Senado virou lugar-comum no Brasil nos últimos dias. Aliás, me corrijo; a coisa vem de tempos mais idos, com a já tradicional reprovação da opinião pública aos políticos como um todo e, falando mais especificamente da "Câmara Alta", com os demandos de Renan Calheiros que estiveram entre os assuntos mais comentados em 2007.

Corrupção e incompetência encabeçam as motivações para as queixas. E há uma que tem aparecido cada vez mais com maior frequência, e é a que eu gostaria de abordar agora. Falo da repulsa aos senadores suplentes, apelidados por aí de "senadores sem voto" e até mesmo de "senadores biônicos", numa temerária comparação aos políticos empossados na marra nos tempos de ditadura.

O ataque aos suplentes se motiva - e até mesmo se justifica - por lambanças cometidas pelos próprios suplentes. Wellington Salgado (PMDB-MG, na foto), que ocupa a vaga deixada pelo ministro Hélio Costa, ganhou fama por conta de seus longos cabelos e pela defesa de parlamentares tidos como indefensáveis. E agora é Paulo Duque (PMDB-RJ) - herdeiro de vaga deixada pelo governador fluminense Sérgio Cabral Filho - que recebe destaque, por presidir a malfadada Comissão de Ética do Senado.

Endosso os que fazem críticas à atuação de Salgado e Duque. Mas discordo, e com veemência, dos que contestam a legitimidade de ambos. Como assim, "senadores sem voto" ou "senadores biônicos"? Por acaso eles chegaram a seus cargos ao burlarem a lei ou coisa parecida? De modo algum. Estão lá de maneira legítima, tanto quanto os outros senadores.

Eles, inclusive, têm a mesma legitimidade que Gilberto Kassab tinha antes das eleições de 2008; ou, puxando um pouco na memória, que Itamar Francom tinha quando foi presidente. E tanto Kassab quanto Franco gozavam de popularidade e aprovação da população, vale o registro.

Talvez seja o caso de discutir se vale a pena manter a regra atual para a suplência. Dar a vaga ao senador "desistente" ao segundo colocado nas eleições seria uma medida extrema - certamente evitaria "evasões", mas, na minha avaliação, seria bem mais ilegítimo do que dar a vaga ao suplente. Afinal, o suplente está definido desde o período eleitoral - ou seja, o eleitor votou também nele, ao indicar o senador cabeça-de-chapa. Reitero que é a mesma situação dos vices.

Resumindo: a não ser que alguém apresente uma alternativa lógica, a figura dos suplentes é válida e continuará existindo - e gerará senadores tão legítimos quanto os outros, a despeito de suas trapalhadas.

Pensando em termos de marketing político, uma dica para os candidatos ao Senado seja explorar a figura dos suplentes adversários, aproveitando os grotescos exemplos do dia-a-dia.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mudanças fracas, mas melhor que nada

Ontem, deputados se acertaram e anunciaram o que - até agora - será modificado na legislação eleitoral no que se refere ao uso da internet nas campanhas. Um resumo está no blog do Fernando Rodrigues.

Endosso as críticas que o blogueiro do UOL faz às modificações. São mais tímidas do que o que se esperava e também deixam claro que o governo sugere o "não pode nada" simplesmente por não ter condições de fazer uma fiscalização mais correta, mais precisa. E ainda trazem bizarrices como a proibição a candidatos que queiram comprar espaços publicitários em páginas da internet. Ora, qual é - ou qual seria - a diferença de comprar meia página na Folha e um banner no Terra?

Por outro lado, celebro a autorização que a lei dá às doações de pessoas físicas pela internet. Principalmente porque permitirá que o procedimento seja feito de maneira incrivelmente simples, com o interessado fazendo suas contribuições com cartão de crédito ou débito. Como já falei outras vezes, permitir - e incentivar - doações individuais é algo que colabora e muito para a transparência do processo eleitoral e também para que o sentimento de participação seja ampliado. É uma forcinha pra democracia, portanto.

Claro que a cultura do Brasil ainda não contém esse tipo de procedimento. Em épocas de descrença geral na política, quem que tá a fim de dar parte do seu suado salário a um candidato? Mas não é nada que não possa ser mudado com um trabalho bem feito.

Tenho curiosidade de saber como será a postura dos partidos quanto a isso, e se eles realmente estão dando valor à essa possibilidade, ou se preferem as arrecadações pelo sistema antigo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O conceito de GOTV se aplicaria no Brasil?

Textos sobre campanhas políticas dos EUA - como os da Politics Magazine, que assino - sempre mencionam a relevância de um tal "GOTV" no processo eleitoral.

O termo não me parecia claro e admito que o "TV" que compõe a palavra me fazia pensar que se tratava de uma questão técnica, algo como transmissão de imagens, nessa linha. Mas nada que a internet e a Wikipedia não resolvam: descobri que GOTV é abreviação para Get Out The Vote; numa tradução literal, algo como "arrancar o voto".

Nos EUA, o GOTV é feito majoritariamente por instituições não diretamente ligadas a partidos políticos. São grupos que defendem causas como direitos da minorias, aumento da participação política de jovens e imigrantes, entre outros temas. O Rock The Vote, que ficou famoso com o triunfo de Obama no ano passado, é o mais conhecido.

A chave para que esses grupos tenham tamanha relevância no processo eleitoral de lá é o voto não-obrigatório. Afinal, com a participação nas urnas sendo voluntária, é preciso que os agentes da campanha política se preocupem em fazer com que os eleitores se preocupem, em primeiro lugar, em ir até as urnas; posteriormente, em um segundo momento, é que chega a hora de tentar fazer com que a pessoa vote em determinado candidato.

Por essa ótica, talvez seja impossível pensar no GOTV sendo aplicado no Brasil. Porque aqui todo mundo tem que votar, querendo ou não. Mas será mesmo que é o caso de descartarmos em definitivo a ideia?

Eu acredito que não, e explicarei meu ponto de vista. Talvez, para as eleições majoritárias, em que há menos de uma dezena de candidatos e o nome de dois ou três cidadãos manipula o debate eleitoral, realmente não faça sentido.

Mas para as proporcionais, dá pra pensar em GOTV sim. Com a seguinte linha de trabalho: o GOTV, aqui, poderia ser aplicado no sentido de fazer com que eleitores de determinada causa se concentrassem em determinados candidatos, que fossem condizentes com suas propostas. Por exemplo: uma entidade ligada à questão dos deficientes aplicaria o GOTV para que seus simpatizantes se sentissem compelidos a votar - e também a arrancar votos - em um candidato que se encaixasse em sua proposta. Nesse caso, o "get out the vote" se aplicaria no sentido da mobilização que a expressão sugere, e não necessariamente no comparecer ou não às urnas.

No fim das contas, cabe ao GOTV a mesma ótica de outras técnicas de campanha aplicadas nos Estados Unidos: todas são muito válidas, desde que bem estudadas e condicionadas às realidades locais.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Congresso tenta reagir

Na manhã de hoje, o Congresso Nacional lançou a campanha "O Congresso faz parte da sua história". A iniciativa, capitaneada de maneira conjunta por Câmara e Senado, tem como objetivo tentar algo praticamente impossível: melhorar a imagem do Congresso junto à opinião pública.

A linha-mestra da campanha será mostrar aos brasileiros que realizações do Congresso estão presentes no dia-a-dia dos cidadãos. Para isso, as peças mostrarão depoimentos de pessoas beneficiadas por medidas como Lei Maria da Penha, Código Nacional de Trânsito, Código de Defesa do Consumidor e outros.

Numa breve analisada, dá pra dizer que, tecnicamente falando, o trabalho está bem feito. As peças estão bonitas, a mensagem é adequada e, por que não dizer, a causa é nobre. Mas acontece que não há campanha publicitária que consiga reverter milagres. Se a imagem do Congresso vai de mal a pior, não há ninguém mais responsável por isso do que os próprios parlamentares.

O presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), em discurso realizado ontem, falou que há "perseguição" por parte dos grupos de mídia que querem "roubar" dos parlamentares seu legítimo posto de defensores do povo. Peraí, Sarney. Quando a mídia elenca denúncias sobre a gestão pública - e no caso em que as denúncias em questão são procedentes, bem apuradas, e etc - não há nada de confronto deliberado nem nada desse tipo. Claro, é indiscutível, que existe uma série de exageros por parte da mídia (e isso inclui desde os famigerados grandes grupos até a tal "mídia independente"), mas, via de regra, o que é falado por aí procede sim.

Utopicamente, anseio por outro efeito da campanha: que ela mostre para o cidadão o quanto o Congresso realmente é importante, e que isso faça com que os populares em geral se interessem em fazer com que as coisas mudem - e se interessem de verdade, não somente espalhando emails nem entrando me comunidades no Orkut.

Veja abaixo um dos vídeos da campanha. No site oficial tem mais coisa.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Internet nas campanhas eleitorais

O site IDG Now! traz hoje uma interessante entrevista com a deputada Manuela D'Ávila (PCdoB-RS). Na pauta, o uso da internet nas campanhas eleitorais.

O assunto tem aparecido com mais frequência no noticiário desde o início do mês, quando o também comunista Flávio Dino (MA) apresentou projeto para a liberação da internet nas campanhas. “Sem internet é impossível fazer campanha. A internet é uma praça virtual da pós-modernidade. Não há sentido a legislação continuar neste obscurantismo”, disse Dino ao G1, ao explicar o seu projeto.

Acho que é consenso o fato de que precisa-se ampliar o uso da internet nas campanhas eleitorais brasileiras. O problema - e é aí que mora a aprovação ou não do tema - é a regulamentação da rede. A internet, feliz ou infelizmente, é vista como terra de ninguém e desprovida de um controle oficial. Conciliar isso com o corretamente rígido sistema eleitoral brasileiro, e suas regras bem ditadas para as campanhas, é um problema.

Mas acredito que o posicionamento mais danoso que o Brasil poderia adotar quanto a isso é simplesmente o virar as costas e admitir sua incompetência para gerenciar a questão. Acho - e aí é um palpite de quem está de fora, mas não é tão absurdo assim - que as experiências de outros países estão aí para serem aprendidas. O caso de Obama nos EUA é o mais emblemático. Além dele, certamente em outras nações há um bom mecanismo para uso e controle da internet nas campanhas eleitorais. Por que não estudar o que está dando certo fora e aplicar para a nossa realidade?

Em tempo: a bancada do PCdoB precisa se afinar quanto a esse tema. No podcast citado acima, Manuela D'Ávila cita, além da propaganda, a intenção de estimular a arrecadação de recursos pela internet; já Flávio Dino foi autor de proposta que sugeriu o financiamento público das campanhas. Como já disse aqui anteriormente, fico com a proposta da gaúcha: a arrecadação pela internet, além de transparente, é um baita estímulo para que os cidadãos se sintam mais interessados em participar do processo eleitoral como um todo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vitória de Kassab: triunfo do “agendamento”

Ontem, fui à Universidade Anhembi-Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, para assistir a um evento dos mais interessantes: a apresentação das estratégias de assessoria de imprensa que a agência Fator F usou durante a campanha de Gilberto Kassab nas eleições municipais do ano passado. A apresentação foi conduzida pelos diretores da Fator F Roger Ferreira e Emerson Figueiredo.


Contextualizando: Kassab começou a corrida eleitoral com dois referenciais muito fortes sobre si, um positivo e um negativo. O positivo era o de ser o então prefeito da cidade; e o negativo era ser um nome desconhecido de grande parte do eleitorado, já que ele assumiu a chefia do executivo quando o titular do cargo, José Serra, iniciou sua bem-sucedida trajetória ao governo do estado.

Com base nessas realidades, a meta desenhada pela equipe de comunicação era pautar a mídia. A necessidade disso se explicava pela situação eleitoral: Kassab tinha como principais adversários Marta Suplicy e Geraldo Alckmin, dois peso-pesadíssimos da política paulista. Se não fosse feito um trabalho consistente com a mídia, Kassab sumiria do dia-a-dia da cobertura eleitoral. Capas de jornais e destaques de internet iriam para tudo o que fosse relacionado a Marta e Alckmin, e a candidatura Kassab seria relegada aos rodapés das páginas, junto com as dos nanicos.

Para pautar a imprensa, a assessoria da campanha se baseou em dois argumentos: o primeiro era o fato de Kassab ser o atual prefeito da cidade, e por isso ter consigo uma necessidade latente de cobertura midiática (afinal, com eleição ou não, a cidade precisa saber o que o seu prefeito está sabendo). A outra era a boa costura política que trouxe o PMDB à candidatura de Kassab e com isso deu à campanha tempo de horário eleitoral superior aos candidatos. Além de tudo, era um prefeito que tinha uma boa avaliação e se baseava em bandeiras como a Lei Cidade Limpa, referendada pela maioria dos paulistanos.

De posse desses argumentos, os assessores “martelavam” com os jornalistas o fato de que o candidato Kassab não poderia ser desprezado. Dia-a-dia, os profissionais se esforçaram para imprimir a mensagem que dizia que o candidato “intruso”, a ser ignorado, era Geraldo Alckmin, e não Gilberto Kassab; afinal, todas as campanhas políticas (ao menos boa parte delas) se baseia no duelo situação versus oposição. E quem pode representar melhor a situação do que o próprio prefeito?

Tal tática não tomou corpo com ataques à candidatura de Alckmin. Pelo contrário: mais do que tentar derrubar o tucano, a principal meta era ignorá-lo. Deixá-lo de fora da disputa. O que a campanha buscava era uma polarização com a candidatura de Marta Suplicy – assim, fortaleceria o já citado debate situação x oposição e jogaria a disputa eleitoral para um julgamento da qualidade da administração vigente, acima de qualquer coisa.

Os ataques à candidatura Marta se basearam nos “25 desafios”, série de perguntas que Kassab lançava aos jornalistas cujo mote era promover uma comparação entre sua gestão e a da petista (mais uma vez, focando o debate na aprovação do governo, baseado nos bons números que vinham das pesquisas). Ao enfatizar esses ataques, a campanha acabou por despertar reações adversas da candidatura do PT, que também passou a atacar Kassab – que era o que a campanha do prefeito mais desejava, por trazer a ele os holofotes. Enquanto isso, Geraldo Alckmin era deixado de lado.

Também foi abordada na apresentação a questão de José Serra, que, embora institucionalmente estivesse ao lado de Geraldo Alckmin, sempre desejou uma vitória de Kassab. Roger Ferreira e Emerson Figueiredo enfatizaram que, claro, não se pode desprezar o peso de um governador numa corrida; mas afirmaram que a relevância de Serra na campanha se deu mais por questões políticas do que puramente eleitorais. O paulistano não votou em Kassab por ele ter o apoio de Serra. Votou porque estava satisfeito com a sua gestão, e desejava a continuidade desse trabalho.

Em resumo, a vitória de Kassab, em termos de assessoria de imprensa (claro que eleição se vence ou se perde por inúmeros fatores, os apresentadores não sugeriram que essa é a única explicação para a vitória), se deveu pelo sucesso do agendamento que a campanha do prefeito conseguiu. Mais do que destacar qualidades ou realizações do prefeito, a ambição da equipe era fazer com que Kassab se tornasse pauta, se tornasse visível – em suma, estivesse inserido na agenda da disputa eleitoral paulistana. Com isso, era a vez da boa aprovação do governo se converter em votos (o que historicamente acontece) e administrar as questões do dia-a-dia.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Marca, um emblema derradeiro

O escândalo da vez do Congresso está na disputa pela relatoria do processo de cassação do deputado Edmar Moreira (sem partido-MG). O cargo pertencia a Sérgio Moraes (PTB-RS), que lutou o quanto pôde para mantê-lo; agora, a vaga está com Nazareno Fonteles (PT-PI), mas Moraes pretende acionar até o Supremo Tribunal Federal para que ele não perca a condição.

Seria - e é - apenas mais um bate-boca rotineiro da Câmara dos Deputados. Mas ele explica algumas coisas, elementos que não podem deixar de ser analisados quando vimos como a opinião pública se porta em relação às questões da política.

Em primeiro lugar, analisemos quem é o deputado que originou toda a crise. É o mineiro Edmar Moreira. Pergunte para seu vizinho, para o porteiro do prédio, para um colega de escola, se ele sabe quem é Edmar Moreira. Muito provavelmente, a resposta será negativa. Agora, inverta o questionamento - indague-o sobre o deputado do castelo. Não tenha dúvidas: seu interlocutor saberá de quem se trata.

Edmar Moreira virou "celebridade" por causa do castelo que possui em Minas Gerais e não declarou à Receita Federal. É por isso que está sendo investigado pela Câmara, certo? Errado! O processo que corre contra ele se baseia no mau uso que ele faz da famigerada verba indenizatória - Moreira é dono de uma empresa de segurança e, segundo a denúncia, destinava a essa empresa parte do orçamento de que dispunha.

Acontece que é o castelo que entrou para a história. É essa a imagem que entrou para o dia-a-dia da opinião pública, é isso que aparecerá nas retrospectivas de 2009. O caso nos faz lembrar do ocorrido em 2001 (ou 2002? Se alguém precisar a data, agradeço), quando Roseana Sarney despontava como uma das favoritas para a eleição presidencial mas viu seus planos irem por água abaixo quando uma montanha de dólares irregulares foi apreendida pela Polícia Federal. Ou seja: já havia outras histórias cabeludas por trás dela, mas foi só com a imagem que seu prestígio - e sua candidatura - tiveram um golpe derradeiro>

O outro aspecto a ser destacado não se refere a Edmar Moreira, e sim ao outro sujeito do escândalo atual, Sérgio Moraes. Este entrou para o cotidiano do noticiário (alguém de fora do RS já tinha ouvido falar dele? Eu admito que não) não exatamente pela estranha postura de defender Edmar Moreira, e sim por dizer que estava "se lixando" para a opinião pública.

Ao falar essa expressão, Moraes, mais do que "desrespeitar" a tal da opinião pública, fez algo muito pior para sua carreira: aliou sua personalidade a um bordão, a uma gag que poderá ser repetida por seus adversários sempre que possível. Não importa o que fizer daqui por diante: Moraes sempre será o cara que "se lixa" para a opinião pública.

Lembro de post que escrevi esses dias, sobre Lula e a marolinha. O presidente fez bobagem ao menosprezar a crise, mas bobagem ainda maior a dar à sua opinião uma frase depreciativa que acabou por servir de munição para seus adversários.

Mais um exemplo? Vamos lá. Em 2005, Roberto Jefferson foi à mídia para denunciar um suposto esquema para compra de congressistas. A denúncia fez barulho, acabou por derrubar muita gente do governo e dificultar a reeleição de Lula. Pergunto: será que teria esse mesmo impacto se Jefferson, bom de mídia que é, não tivesse dado a ela o sonoro, marcante e eficaz nome de "mensalão"?

Moral da história: é preciso ter um baita cuidado com as marcas. As que se cria e as que se recebe.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Tempo e dinheiro jogados fora no horário eleitoral

Ontem, fazendo uso de horário de que dispõe segundo as regras da Justiça Eleitoral, foi a vez do pequeno PMN ocupar a chamada "rede nacional de rádio e televisão". E o que se viu foi mais um horário político que repetiu os vícios que fazem com que essas peças sejam enfadonhas, improdutivas e um belo desperdício de dinheiro e tempo.

Nem me refiro ao cenário feio e aos efeitos visuais que lembravam os programas de TV dos finais dos anos 1980. Isso é algo que se deve à falta de dinheiro, algo que os partidos pequenos convivem diariamente. Não se poderia esperar coisa diferente de uma legenda pequena.

A crítica que faço é ao discurso adotado pelos figurões do PMN no horário eleitoral. A falação dos políticos foi vazia, em nada atraente, de maneira nenhuma cativante ao eleitor. Por exemplo: Sérgio Petecão (foto), deputado federal pelo Acre, falou sobre a Amazônia. Não reproduzo com exatidão as palavras do parlamentar, mas foi algo mais ou menos assim: "defender a natureza e estimular a atividade econômica na região. Essa é a proposta do PMN!".

Aí pergunto: como assim, "essa é a proposta do PMN"? Alguém conseguiu identificar alguma "proposta" na fala de Petecão? Ou será que tem algum partido que ache que não se deve "defender a natureza e estimular a atividade econômica na região"?

Pouco depois, quem falou foi Fábio Faria, o deputado potiguar que está no centro das atenções por ter custeado a viagem de sua então namorada Adriane Galisteu com recursos da Câmara. Ignoremos esse episódio e tentemos manter o foco sobre a propaganda de ontem. Faria fez seu "discurso" baseado na importância do turismo para o Nordeste. Mais uma vez, palavras vazias: "o PMN é a favor de parcerias com a rede hoteleira para que o turismo avance ainda mais" (reafirmo que não é uma transcrição literal, mas sim a reprodução da essência das palavras). Ora, alguém aí esperava que um deputado - seja de qual estado for! - falasse algo diferente?

Não sei até quando os partidos brasileiros acharão que os eleitores querem se sensibilizar com esse tipo de discurso óbvio. Reparem que é sempre a mesma ladainha - todos se dizendo a favor do que é certo e contra o que é errado. O exemplo sobre o qual me baseio é o PMN, um partido minúsculo, mas o vício se repete em legendas de todo porte. Nas maiores, a única diferença é o posicionamento pró ou contra o governo do momento, dependendo para que lado a balança esteja pendendo.

Já é hora de um partido tomar a dianteira e falar, no horário eleitoral, de suas posições convictas. Por exemplo, dizer que é contra/a favor do aborto, da pena de morte, do casamento homossexual ou outra causa. É nítido que isso, no mínimo, chamaria mais atenção por parte dos eleitores.

Clodovil
Ainda na linha horário eleitoral: o PR, em suas inserções no rádio (não sei se isso também tem ocorrido na televisão, agradeço se alguém puder atualizar) tem feito homenagens a Clodovil Hernandes, morto recentemente. A peça é das mais hipócritas, por dois motivos: o primeiro é que Clodovil nunca foi um exemplo de político, e a segunda é que sua relação com o PR foi pra lá de formal, nada tendo a ver com os "ideais" da sigla (se é que eles existem). Mas, do ponto de vista eleitoral, é até interessante, já que há um grande número de eleitores de Clodovil a serem captados na votação do ano que vem. Para onde se dirigirá o voto de protesto que elegeu o ex-costureiro, alguém arrisca?